Por si mesmo

Nasci em 1968 em Angola, quando Angola «era nossa» (que horror!). Cresci e estudei em Lisboa.  Licenciei-me em Antropologia Social no ISCTE, e em 1995 parti para Coimbra para leccionar, onde permaneço. Sou professor de cadeiras de antropologia na UC (DCV e Colégio das Artes). Escrevo etnografias, ensaios e poemas. Gostava de escrever contos, mas raramente o faço. Suspeito que nunca escreverei qualquer romance. Presumo que isso faz de mim um professor, um antropólogo, um ensaísta e um poeta.

Seja como for, temo a palavra «poeta» (tal como temo a palavra «filósofo»). Apesar do desconforto, sinto-me muito próximo da poesia e nada próximo de muito do que se faz hoje em nome daquilo a que chamamos de «ciência», o que não quer dizer que não tenha algumas preferências e obsessões em relação ao cânone científico.

Gosto da designação de «pensador lírico» que traduz uma reflexão de Hannah Arendt sobre Walter Benjamin («he thought poetically, but he was neither a poet nor a philosopher») e gostaria muito de ser digno dessa expressão que me parece consonante com a minha sensibilidade. Porém, quando escrevo poemas, quando reflicto sobre isso, quando publico poemas, estou, evidentemente, interessado em ser lido como um poeta.

Como antropólogo, prefiro as fronteiras, os espaços que teimam em persistir entre culturas, os interstícios, os híbridos, as ontologias fluidas, as anomalias, os rizomas. Escrevi sobre guerra, trauma e memória; sobre as implicações forenses do discurso psiquiátrico; sobre biotecnologias e bioarte; sobre cultura e cognição; sobre antropologia e literatura; sobre arte e arquitectura; sobre neurociências; e, ultimamente, sobre o Japão como imagem.

Publico poemas desde 1991, ainda que só em 1995 é que tenha conseguido publicar o meu primeiro livro de poemas intitulado A imprecisa melancolia.  Escrevo ensaios sobre poesia, alguns sobre poesia portuguesa recente, em particular na Relâmpago, uma empresa poética e ensaística.

Tenho orgulho em ser um discípulo de Wallace Stevens. Traduzi o seu The man with the blue guitar & other poems (1937), que foi publicado pelas Edições Guilhotina em 2015. O livro contém a minha tradução – O homem da guitarra azul & outros poemas – mais um breve ensaio e um conjunto de notas.

O meu último livro de poesia, Agon, foi publicado em 2018 pela Assírio & Alvim.

Uma parte do meu trabalho poético foi traduzido para outras línguas europeias (castelhano, francês, italiano, inglês, alemão, croata, húngaro, são alguns exemplos). Orgulho-me, especialmente, da tradução para alemão do meu livro O vidro sob o título de Glas e publicado em 2017 pela Aphaia Verlag. Mas também da tradução italiana de uma parte significativa da minha poesia por Gaia Bertoneri publicada pela LietoColle, com organização e posfácio de António Fournier, e com o título de Ecolalia.

Há uns atrás comecei a tirar fotografias porque muitos dos meus poemas e muitos dos meus ensaios são sobre o «ver». O que vemos, o que não vemos, o que conhecemos, o que não conhecemos, o que está fora do ver, isto é, fora da mente, fora da cognição. Usei as imagens como um arquivo de traços que o meu ver ia deixando na paisagem. Raramente fotografava pessoas. Ainda hoje não sei porquê. Interessei-me muito por espaços urbanos, ou restos deles, arquitecturas em declínio, ruínas, decadências e pó. Interessam-me muito, ainda. Escrevi sobre isso num livro que saiu na Dafne. Como antropólogo é isso que continuo a explorar. Como escritor também. Ao olhar para estas fotografias (e haverá fotografia hoje, ainda?), reparo, por exemplo, como muitas das minhas particulares obsessões e declinações como escritor se encontram aí incluídas. A mesma vontade de pensar a biografia através de indícios, sombras, ruínas; a mesma vontade de interrogar a fragilidade, a violência, a memória e a morte. Ficam aqui algumas, mas também aqui, onde imagens minhas se cruzam com outras que vêm construindo o meu olhar. Decididamente não sou um tecnofóbico (nem um tecnofílico, acrescentaria), e acredito que o Instagram, em particular, é uma ferramenta heurística muito válida. Mais: é minha convicção que se trata de uma extensão ou de uma reemergência da antiga «arte da memória» cartografada por Frances Yates, num dos meus livros favoritos. Sobre isto, haverei de escrever em breve.

É esta dimensão reflexiva que faz inscrever a fotografia na literatura e a literatura na fotografia que me interessou explorar nesse livro intitulado Deus é um lugar ameaçado que publiquei na Huggly Books em 2018 sob os auspícios de Susana Paiva.

Vivo em Coimbra num bairro cheio de gente envelhecida e cheio de gatos. Gosto de velhos e de gatos.

Oiço Bach, Monteverdi, Handel, John Coltrane, Chet Baker, Ornette Coleman, Don Byron, John Cage, Morton Feldman, David Lang, Brian Eno, Tuxedomoon, Durutti Column, David Sylvian, Mark Hollis, Thomas Feiner, Bark Psychosis, Sparklehorse e muito blues do Delta.

Gosto de cinema. De Vertov, de Chaplin, de Tati, de Godard, de Tarkovsky, e, sim, de Chris Marker. Gosto muitíssimo de cinema japonês: de Yamanaka, Ozu, Mizoguchi, Kurosawa e Kobayashi, entre outros. Suspeito que é no Japão que estiveram, talvez ainda estejam, os mais importantes artistas visuais. Sim, e já estive no Japão!

Um dos meus projectos actuais reúne imagens de uma viagem recente (Maio de 2019) ao país do sol nascente. Cruzará fotografias com texto, e, em breve, poderei dizer algo mais sobre isso. Deixo aqui um pequeno portfólio. Sobre o Japão, ou a partir do Japão, venho desenvolvendo um trabalho que reflecte sobre esse espaço como representação, e que cruza a literatura com a antropologia. Trata-se de um processo de investigação e criação do qual irei dando notícia aqui também.

Sou um homem de esquerda, mas sem ênfase. A minha sensibilidade trágica não permite converter-me a muitos dos entusiasmos de esquerda.

Estruturalmente agnóstico, acredito mais na redenção do que na revolução. E a redenção será poética ou não será!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s