Desaparecer na paisagem ou João Bénard da Costa no Japão

Quinze_Dias_Nos_Jap_oNum livrinho onde também se fala de Paulo Rocha, João Bénard da Costa revela-nos como o livro de areia de Borges é, afinal, um jardim de areia.

Intitula-se Quinze dias no Japão (2001), e foi publicado pelo jornal O Independente numa colecção de pequenos livros de viagem (em que avultam também Venceslau de Morais, Eça, Fialho e Hans Christian Andersen). Pode ser encontrado a preços de saldo (2 euros e 50 cêntimos, diz o meu exemplar) nesses espaços onde proliferam volumes esquecidos. Em Lisboa há vários sítios assim (na Estação de Stª Apolónia, p.ex.), e vale a pena visitá-los. Quinze dias no Japão resulta da reunião de «uma série de cinco artigos publicados no Diário de Notícias em Fevereiro-Março de 1979» (p.7), e é, em suma, delicioso.

Gostaria aqui de me concentrar num conjunto de observações sobre Quioto que Bénard faz numa secção com um título muito schopenhaueriano (e não é inocente a escolha, dada a influência que as filosofias orientais tiverem sobre AS) de «O mundo como vontade de representação» (pp. 68-71). Aí escreve Bénard sobre os jardins de Quioto:

«Há jardins – como os da Vila Imperial de Katsura, ou do Templo Tenriuji em Quioto – em que o que se procura é prolongar no espaço construído o espaço natural que o rodeia, por forma a que o jardim “espelhe” com a maior precisão possível a paisagem circundante. Cada planta é o duplo da que lhe está em frente, cada pedra a réplica da cascata «lá fora» existente, cada cor a que se acorda com a tonalidade encontrada no “exterior” (e com ela variando conforme as estações do ano). Através de uma técnica conhecida pelo nome de shakkei as montanhas, quedas de água, matas selvagens, são incorporadas no espaço do jardim, num arranjo paisagístico em que o “cenário” se interpenetra com o que o não é, de modo a restituir uma indissociável unidade e a multiplicar a ilusão até aos limites do que já não podemos ou sabemos classificar como tal. § Há jardins – como os do Palácio Imperial de Quioto – em que o ideal a atingir é tornar a intervenção humana tão discreta que esta se torne quase imperceptível. Como? Dispondo, por exemplo, entre a vegetação comum uma planta rara que aparentemente com ela se confunde, ganhando todo o seu valor pelo facto de não poder estar ali por “meios naturais” e conferindo a todo o espaço um peso de invulgaridade, pela mera presença de uma árvore ou flor inusual. É o caso da tangerineira do Palácio de Quioto (a tangerineira é uma árvore raríssima no Japão) que se destaca e confunde suficientemente das e com as plantas comuns que a cercam, para que tudo adquira o sentido de um tesouro, passando desapercebido a quem não distinga a diferente qualidade entre o “centro” e as suas “margens”, ou a quem nem sequer perceba que há centro e margens» (pp. 69-70).


A longa citação serve para chamar a atenção para este desdobramento infinito do artesanal e do natural um sobre o outro, como se tal distinção (artesanal vs. natural) fosse a «ilusão» maior que percorre as ilusões perceptuais e/ou representacionais do espaço. A citação serve ainda para mostrar como a exuberância de um gesto no espaço (no caso em apreciação, na «paisagem», se é que este conceito se aplica) se define, apesar da aparente contradição entre termos, pelo «imperceptível» do gesto.

Uma celebração do invisível é tornada visível. O que pretende o fazedor de jardins? Desaparecer na paisagem. Bénard acrescenta:

«(…) o ideal desta forma de jardim “é um espaço em que a própria arte seja tão inartística que passe completamente desapercebida”. Do próprio choque provocado pelo encontro do comum com o raro deve nascer a fugitiva emoção que transforme todo o espaço em espaço mágico, povoado por um insólito que em nada se opõe, que em nada se impõe, mas que a tudo se apõe.» (pp. 70-71).

Desaparecer na paisagem, então.

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