Relâmpago, 29-30

image001Este blog ainda não existia quando o volume (que cobre um número duplo) foi lançado na Casa Fernando Pessoa. Foi um privilégio poder coordenar esta Relâmpago temática dedicada ao sempre desafiante tópico que é poesia e revolução. Seria óbvio dizer que está na ordem do dia falar disto, mas em verdade o alcance aqui é distinto do óbvio, e vai de Camões a Pessoa e volta, numa viagem pelas vanguardas e suas inscrições na modernidade poética, com um trabalho gráfico exemplar de Nuno Marques Mendes.

Ensaios de António Fournier, Gustavo Rubim, Luis Maffei, Pedro Eiras, Pedro Serra. Depoimentos de Alberto Pimenta, António Carlos Cortez, Armando Freitas Filho, Bob Dylan, João Luís Barreto Guimarães, José Manuel Mendes, Manuel Alegre, Manuel António Pina (que aqui assina um dos seus derradeiros textos), Marcos Siscar, Sérgio Godinho, Tatiana Faia. Poesia de Fernando Guimarãe, Fernando Luís Sampaio, Helder Moura Pereira e Tatiana Faia. Crítica de António Carlos Cortez, Gastão Cruz, José Ricardo Nunes, Luís Quintais e Rita Taborda Duarte.

Deixo aqui, a pretexto de divulgação, o meu editorial (pp. 5-7):

«Atacar o espírito público

Isto poderia começar com um poema de Artaud. Esse «Le devoir», em que se diz: «Le devoir / De l’écrivain, du poète / N’ est pas d’ aller s’ enfermer lâchement dans un texte, / Un livre, une revue dont il ne sortira jamais / Mais au contraire de sortir / Dehors / Pour secouer, / Pour attaquer / L’ esprit public / Sinon / A quoi sert-il? / Et pourquoi est-il né?». Em português seria assim: «O dever / Do escritor, do poeta / Não é encerrar-se cobardemente num texto, / Num livro, numa revista de onde nunca sairá, / Pelo contrário, é vir / Para o exterior / E sacudir, / Atacar / O espírito público. / Ou então para que serve? / Para que nasceu?»  Recorro à tradução de Soledade Santos em que tropecei por mero acaso numa dessas sortidas pela web, googlando, como é habitual ouvir-se por aí agora.

O poema de Artaud é uma belíssima máquina de guerra e também uma belíssima máquina de interrogar. Mas gostaria de, por momentos, conduzir o leitor até à caixa de comentários da página onde o encontrei. Nada melhor do que a web para fazer da literatura um espaço colectivo de percepções e etnografias. Nunca houve tanto «dever público» à solta. Aí lê-se, em primeiro lugar, um comentário de «Dioniso – Victor Gonçalves», em que, após um elogio à tradutora, se diz: «Acrescento apenas que este desafio artaudiano foi tão glosado que temos alguma dificuldade em desalojá-lo do caricatural onde quase todos os aprendizes revolucionários o colocaram. “Poema datado”, à espera de uma grande amnésia que o restitua à sua própria verdade». Ao que Soledade Santos responde: «De facto, o poema não ofereceu grandes dificuldades de tradução, para além das que resultam desta simplicidade despida que é normalmente a da poesia panfletária. Parece-me que hoje não se lê muito, Artaud, daí a satisfação com que me entreguei à tarefa de o traduzir. Talvez essa grande amnésia que refere esteja já em curso».

Uma grande amnésia cobrirá com o seu manto a poesia com contornos mais panfletários, aquela que reclama passar, por capilaridade e violência, para o tecido de que se faz o «espírito público». E essa amnésia será restituidora, em tempo indeterminado, de uma ameaça e de uma promessa que toda a poesia (e toda a poesia é política, quer o queiramos quer não) esconde. Uma desterritorialização das evidências ou uma «revolução», pois é isso que está em causa.

Os comentários em caixa à tradução, dois apenas, parecem comungar dessa vontade de uma porção de esquecimento produtivo, violento, fertilizador. Este é seguramente um dos grandes fantasmas que a modernidade nos legou e que aqui é mapeado de um modo quase implícito em torno de um poema de Artaud, do já quase esquecido Artaud. Por um lado, a ideia de que as palavras contêm, em si, propriedades de exortação e de transgressão que se encontram, em certos períodos históricos, adormecidas, latentes, e que, como vírus, se podem propagar no espaço público (ou numa das modalidades mais ou menos incertas e improváveis desse espaço público), mudando o mundo, transformando-o radicalmente, numa afirmação performativa e dramatúrgica que não consente evasivas, e que é sem retorno.  Por outro, esta vontade de descontinuidade, esta pulsão pelo novo – changer la vie, make it new – que é uma das implicações mais debatidas do moderno.

Tudo isto deverá, hoje, conduzir-nos a uma apreciação do lugar – lugar outro, heterotopia – da poesia no presente. Uma apreciação do lugar não é necessariamente uma apreciação da função (para que serve a poesia, hoje?, interrogar-se-ão alguns) da poesia (pergunta equívoca). Uma apreciação do lugar da poesia nesse espaço de clivagens que foi e é a modernidade exige uma reconsideração da pulsão e da promessa que a revolução parece enunciar. Dir-se-ia assim que a «verdade própria» da poesia é contígua à violência prática e sem retorno, e, nesse sentido, trágica, que se evidencia na ideia de revolução. Esta cartografia é, como se sabe, uma declinação recorrente do moderno, e, numa espécie de refluxo que desmobiliza a nossa obsessiva e infatigável procura de superações (a vontade revolucionária dos modernos evidencia-se também no apelo de um tempo de pós-modernidade, de pós-memória, de pós-história, de pós-narrativa, etc.), tornou-se, outra vez, urgente.

O presente número da Relâmpago propõe-se conduzir os seus leitores por esta cartografia. Fazemo-lo através do concurso de um conjunto de ensaios, depoimentos e poemas. A construção do número foi feita em torno de sugestões mediadas por um texto que poderia servir, basicamente, de estímulo. Dizia-se aí que a crise que assola a Europa nos poderia levar a pensar outra vez o impensável, sendo a revolução, nesse sentido, uma condução ao impensável, ao inarticulável. Sugeria-se que a presente crise nos poderia fazer colocar de novo no centro da nossa experiência uma hipótese revolucionária. O óbvio era relembrado: a poesia teve uma relação fortíssima com a revolução, bastando para isso lembrar os nomes de Milton, de Blake, de Shelley, de Hugo, nos séculos XVII e XVIII, e os de Rimbaud, Maiakovski, Brecht ou Tzara, para citar nomes sobejamente conhecidos. Acrescentava-se aí que os movimentos revolucionários deram forma à poesia e que a poesia deu forma a esses movimentos. Que Marx, por exemplo, não poderia ser entendido sem pensar numa poética da revolução. E que talvez fosse esta poética da revolução a grande lição marxista que poderíamos actualizar ou reactualizar. Sugeriam-se também algumas pistas-perguntas:

  1. É a poesia revolução? Em que sentido é que podemos fazer, hoje, esta apreciação?
  2. Sabendo-se que a ideia de revolução é uma ideia moderna e que falar de revolução moderna é uma reiteração desnecessária, de que forma é que podemos dizer que tal ideia (enquanto transgressão, ruptura, descontinuidade) se cumpriu na poesia?
  3. De que forma é que a revolução na poesia constituiu, na sua performatividade, uma revolução política?
  4. De que forma é que a linguagem, na sua declinação revolucionária, transformou o mundo?
  5. A ideia de revolução prenuncia uma outra: a de violência. É a poesia violência e quando?
  6. Será ainda possível revolucionar a poesia, enquanto linguagem e tradição? De que forma é que a poesia pode ainda mobilizar a revolução em sentido mais amplo, em suma, em sentido político?
  7. A eficácia revolucionária da poesia, a haver uma, exige o quê? A performatividade que lhe dá o corpo, o canto, o movimento?

É importante sublinhar tratar-se de hipóteses de trabalho, pouco mais. Ou, eventualmente, de perguntas que poderiam fazer reverberar sentidos na mente dos ensaístas e poetas convidados. E que poderão agora reverberar na mente dos eventuais leitores. Alguns dos nossos convidados procuraram dar respostas a essas perguntas (e.g., Sérgio Godinho), outros (e.g., Alberto Pimenta)  percorreram caminhos diversos que se nos impõe também enaltecer.

O presente número da Relâmpago contempla ainda as já habituais secções de poesia, poesia traduzida e recensões.»

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