Três poemas (David Berman)

David Berman

NEVE

Caminhando por uma planície com o meu irmão, o pequeno Seth

apontei para um lugar onde crianças tinham moldado anjos na neve.
Por qualquer razão, disse-lhe que um esquadrão de anjos
tinha sido morto a tiro e dissolvera-se ao embater no solo.

Perguntou-me quem atirara sobre eles e eu respondi que um lavrador.

Em breve alcançámos o cume sobre o lago.
O gelo assemelhava-se a uma fotografia de água.

Porquê perguntou. Por que atirou sobre eles.

Estavam na sua propriedade, disse-lhe.

Quando neva, o exterior lembra uma divisão da casa.

Hoje troquei bons dias com o meu vizinho.
As nossas vozes aproximaram-se na nova acústica.
Uma divisão decadente de paredes desfeitas em farrapos.

Retomámos as pás, trabalhando lado a lado em silêncio.

Mas porque estavam eles na sua propriedade, perguntou.

SE EXISTISSE UM LIVRO SOBRE ESTE CORREDOR

Começaria com Há um caminho no meio da casa

persianas de pinho ao canto

e lâmpadas ao longo das paredes que dão ao caminho na noite
um nunca acabar.

Recordo-me do dia em que deixei o homem do contador à espera no vestíbulo.

No meu quarto desenhei a sua cara de maçã rija enquanto ele aguardava
na penumbra fria.

Não importa o quão ténue, é uma cena histórica.
Uma cena do livro.

Passar-se-ão os sonhos em corredores por a perspectiva ser espiralada?

Ou por serem áreas longas, amplas e inúteis das nossas casas?

O corredor era o leito seco de um rio que sonhei certa noite,

uma auto-estrada índia noutra.

(E poderá ter sido todas estas coisas antes de a casa aqui estar.)

Não cheguei a ouvir o homem do contador sair mas percebi que não estava lá

quando saí para pendurar o desenho na parede.

Ventos ásperos de verniz de madeira sopravam no corredor escuro.

Em tempos um pinheiro onde agora uma porta se ergue.

Se Cristo tivesse morrido num corredor poderíamos rezar nos corredores
ou usar pequenos corredores dourados em volta do pescoço.

Como pode permancer frio depois de tantas passagens?

Um fora de portas estranhamente dentro de portas.

NOVA IORQUE, NOVA IORQUE

Uma segunda Nova Iorque está em construção
um pouco a Oeste da antiga.
Porquê outra, ninguém pergunta,
construam-na apenas, e eles fazem-no.

A cidade está ainda encerrada
para todos menos para as equipas de construção
que defendem que é uma perfeita imagem ao espelho.

Denodadamente, cada homem trabalha na réplica
do prédio de apartamentos em que vive,
acrescentando novos detalhes,
como frascos de água-de-colónia, jardins de pedra,
e maçanetas de porta gravadas para hotéis de luxo.

Melhoramentos aqui e ali, realizados em segredo
e fora do projecto. Nenhum dos encarregados
se dá conta ou se importa. Todos estão na melhor das disposições,
gracejando, dando passeios nas ruas paradas
que o único repórter autorizado a entrar descreveu como

«sem a levedura dos despojos do complicado passado da cidade antiga,
mas libertando algum do perfume azul dos primeiros anos na terra.»

Os homens aprendem a amar a cidade tranquila.
Torna-se mais difícil regressar a casa à noite,

o que deixa preocupadas as mulheres.
As sopas coloridas arrefecem, os crepúsculos aceleram.

Os homens fazem longas pausas nas escadas de incêndio,
acenando no vazio para outros trabalhadores
em meditação nos seus andaimes.

Mas um dia…

O céu enche-se com nuvens carbonizadas.
Cintos de ferramentas chocalham ao vento que cresce.

Algo está errado.

Um mestre-de-obras detém-se na avenida
apontando os binóculos à densa mancha cendrada
que se move a Este na nossa direcção.

Múltiplas vozes, O quê, O que é?

Pombos, grita através do vento.

[Poemas retirados de David Berman, Actual air, Nova Iorque, Open City Books, 1999]

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