Uma vontade de extinção: sobre Weldon Kees

wkchairWeldon Kees (1914-1955?), escritor, poeta, compositor, músico, cineasta, artista. Qualquer relatório minoritário da poesia de expressão inglesa do século XX deveria fazer incluir o seu nome. Nasceu no Nebraska. Viveu em Denver. Depois em Nova Iorque onde escreveu para publicações como Paramount News, Time Magazine ou The Nation. Nesses anos 40 do século XX terá ainda formado o grupo Forum 49 em Provincetown, Massachusetts. Este grupo fazia reunir artistas como Hans Hoffman, Adolph Gottlieb, Elaine de Kooning e Robert Motherwell. Em Nova Iorque, Kees expôs as suas pinturas na Peridot Gallery e os seus poemas foram publicados no New Yorker. Parte posteriormente para São Francisco onde escreve música para filmes, tornando-se também realizador, colaborando então com o antropólogo Gregory Bateson. Em 1955, ano em que morre Wallace Stevens, Weldon Kees abandona o seu Plymouth na Golden Gate Bridge com a chave na ignição e desaparece.

Kees permanece há muito como uma das minhas referências mais significativas. A tonalidade escura dos seus versos, o sentido de humor nem sempre óbvio, a dimensão dramática da sua poesia (que só encontra paralelo em Eliot) continuam a interpelar-me. Interessa-me particularmente a vontade de extinção que a sua poesia parece convocar e que se enlaça com o incompleto e inacabado da poesia e da vida que o seu desaparecimento faz sublinhar.

Num momento histórico em que toda a gente quer aparecer, Kees será o exemplo do poeta que celebra em permanência a futilidade desse esforço e a vontade do contrário. A ironia está em ter escrito poemas tão extraordináros e difíceis. Seja como for, Kees é parte do relatório minoritário da poesia de expressão inglesa do século XX, disse, e aí deverá contar sempre contra todas as intenções monumentalizadoras da arte.

A poesia é uma arte de apagar. É assim que o vejo e quero continuar a ver. Em Verso antigo dediquei-lhe «Kees» (pp. 64-65) e em Canto onde traduzi «Para a minha filha» (p. 54) que volto aqui a publicar. Aqui fica também «Subtítulo» e «A cidade como heroína».

PARA A MINHA FILHA

Ao olhar os olhos da minha filha, leio
Sob a inocência da carne da manhã
Escondidas, alusões de morte em que não reparo.
O mais frio dos ventos levantou estes cabelos, e trama
De algas entreteceu estas miniaturas de mãos;
O lento veneno da noite, tolerante e brando,
Moveu o seu sangue. Ressequidos anos que vi
E que dela podem ser aparecem: putrefacta, demorada
Morte em certa guerra, as magras pernas verdes.
Ou, alimentada de ódio, ela delicia-se no aguilhão
Da agonia de outros; talvez a cruel
Noiva de um sifilítico ou louco.
Estas especulações azedam ao sol.
Eu não tenho filha. Não desejo nenhuma.

SUBTÍTULO

Para esta noite apresentamo-vos
Um filme de morte: observai
Estas cenas que fragmentos de celulóide
Sem apoios nem taxas revelam.

Pedimos apenas o seguinte:
Toda a pastilha elástica deve ser colocada sob os assentos
Ou engolida rapidamente, todos os cartuxos de pipocas
Devem ser abandonados no vestíbulo. As portas
Permanecerão fechadas ao longo da representação. Por gentileza consultai
Os vossos programas: observai que
Não há saídas. Isto é uma precaução necessária.

Não procurai qualquer diálogo, ou qualquer
Som de voz humana: tivemos o cuidado
De sincronizar esta fita com
Guinchos de porcos, lento som de armas,
O afiado e amortecido estalido
De máquinas de chocolates vazias.
Repetimos: aqui não
Há saídas, guardas para subornar,
Janelas de casa de banho.

Não há fim para o filme a não ser
Que o fim seja vosso.
Apagai as luzes, lembrai
Ao operador a sua carteira profissional:
Sentai-vos para a frente, deixai o écran revelar
A vossa herança, a lógica do vosso destino.

A CIDADE COMO HEROÍNA

Para aqueles cujas vozes gritam nas ruínas
Para aqueles que morrem no escuro sós
Para aqueles que vagueiam em arruinadas ruas

Aqui na tua tarde

As chaminés estão vazias de fumo
Estas praças de treva são janelas
Os mudos fios eléctricos estendem-se no céu
A imobilidade do ar
Sob frias estrelas
E perto do rio seco
Um velho sem sombra vagueia só

Sobre almofadas de treva
Aqui está a tua tarde

Que palavras Que respostas agora
Que memórias Que arruinados portos?

[Poemas retirados de The collected poems of Weldon Kees, Lincoln e Londres, University of Nebraska Press, 1975 (1962); edição de Donald Justice]

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