Como apagar memórias

Em Novembro de 2011, o Público dava um significativo destaque à vinda Portugal do neurocientista Ed Boyden. Boyden, um «wiz-kid» do MIT, defende desafiadoramente a possibilidade de «tornar conscientes certos tipos de objectos». Respondendo à jornalista Ana Gerschenfeld, Boyden faz apelo à estafada analogia cérebro/computador e diz-nos:

«Suponhamos que uma pessoa sofre de depressão – perdeu a esperança, a motivação, acha que nada do que faz vale a pena. Podemos pôr um eléctrodo numa parte do seu cérebro chamada área 25 e, de repente, quando ligamos esse estimulador eléctrico, que é controlado por um computador exterior, a pessoa torna-se mais enérgica, mais motivada, sente-se mais ligada aos outros, a sua maneira de estar no mundo muda totalmente. De certa maneira, podemos dizer que temos aqui um híbrido de humano e computador, não é? O computador sabe exactamente quais os impulsos eléctricos que deve emitir, possui circuitos que lhe permitem enviá-los na altura certa – e está a transmitir para a parte certa do cérebro. § Imaginemos que inserimos não um, mas 100 eléctrodos no cérebro dessa pessoa. Agora já temos a capacidade de lá introduzir informação para, por exemplo, codificar certos tipos de memórias. Suponhamos então que a pessoa tem a doença de Alzheimer ou sofre um AVC e que parte da sua memória é destruída. Se houvesse uma maneira de codificar as memórias, de fazer um backup e de, a seguir à doença, fazer chegar essa informação às células que foram poupadas, seria possível tornar a inserir as memórias perdidas» (Gerschenfeld, 2011, p. 6).

Não me vou concentrar aturadamente no modo como as afirmações de Boyden denunciam uma flagrante obliteração de tudo aquilo que poderá eventualmente comprometer o seu projecto de neurociência. Como se sabe, há objecções muito sérias ao conhecimento tácito de que parte Boyden. Objecções essas que vão da impossibilidade de tornar consciente a matéria ou de garantir uma tradução eficaz entre processos neuronais e «informação». Seja como for, aquilo que me move aqui mobiliza muitas destas objecções e acrescentará outros motivos de perplexidade.

Gostaria de me concentrar fundamentalmente na ideia de que podemos manipular memórias através do concurso de tecnologias várias, que poderão passar pela «optogenética» de Boyden – em que um canal iónico sensível à luz, o channelrhodopsin-2, é geneticamente expresso em neurónios, permitindo controlar a actividade neuronal através da luz – ou através do uso de transferências de informação entre máquinas (computadores) e cérebros ou, ainda, através de neuro-fármacos. A ideia não é nova, pesem embora as declinações recentes, e habita muitos dos sonhos utópicos e distópicos da modernidade tecno-científica que se vem instalando desde a Idade Clássica de Foucault. Estamos perante uma ideia de «memoro-política» que se afirma, em particular, no século XIX, e que se desdobra insistemente ao longo dos séculos XX e XXI. A expressão memoro-política colho-a em Ian Hacking que desenvolve criticamente as articulações de Michel Foucault em torno da «anotomo-política» do corpo e da «bio-política» das populações. Escreve Hacking:

«Anatomo-política do corpo humano; bio-política da população, escreveu Foucault. A memoro-política é uma política de quê? Do self, do «sujeito» ou da mente humana? Ou desses pronomes pessoais substantivados, ego, moi? Prefiro dizer uma memoro-política da alma humana, uma ideia que invoca carácter, escolha reflectida, e auto-interpretação, entre muito mais» (1995, p. 215).

Este é, se quisermos, o meu território de enunciação do problema.

Dir-se-ia que o conhecimento sobre a memória se tornou um recurso (escasso, económico, simbolicamente decisivo, institucionalmente mobilizador) de intervenção na pólis através da sua aliança e recursividade com tecnologias de alcance diverso que moldam ou se propõem moldar sujeitos. Uma «sociedade de indivíduos», para usar a bela expressão de Norbert Elias (1991 [1987]) será afinal uma sociedade de subjectividades que deverão ser moldadas, trabalhadas, disciplinadas e, de modo radical, reinventadas. A pólis deverá assim cuidar das subjectividades que a compõem. A memória e as tecnologias (políticas) da memória serão o terreno por excelência deste cuidado. Um cuidado sem precedentes hoje, dado o concurso recente das neurociências e suas vastíssimas traduções culturais e políticas. Assim, hoje a memoro-política será uma neuropolítica. O impacto público do trabalho de neuro-cientistas como Ed Boyden é apenas um exemplo disto.

Na década de noventa desenvolvi uma etnografia sobre os usos públicos e políticos de uma criatura designada por Post-traumatic stress disorder (e.g., Quintais, 2000). A PTSD, a usar o seu acrónimo em língua inglesa, não precisa hoje de apresentação alguma. Nos idos anos noventa do já passado século XX era um território fértil de discussão acerca das «feridas» que esse século, o mais impiedoso dos séculos, diria Albert Camus, deixou em nós, seus legatários. A minha etnografia prendia-se então com a forma como o trauma era enunciado a partir do vocabulário da psiquiatria e como essas enunciações eram decisivas na construção da identidade de um conjunto de ex-combatentes das guerras coloniais portuguesas diagnosticados com a nosologia em causa. Um dos traços mais importantes dessa etnografia prendia-se com as concepções terapêuticas, em que avultavam a verbalização e a interlocução como meios de intervenção sobre o trauma. Assim, a eficácia terapêutica era garantida através de uma forma de «verdade verbalizada». No contexto psicoterapêutico (cognitivo-comportamental), a expressão do trauma seria assim o melhor modo de intervir com eficácia sobre a natureza de uma memória indelével, porém modelável sob a forma de elocuções. Assim, uma das lições a retirar desse contexto era a de que só nos podemos livrar das implicações emocionalmente temíveis de más memórias, de memórias traumáticas, se falarmos. Falar, performativizar a linguagem, seria a melhor intervenção. Talvez não curasse, mas de Freud e Janet até esse presente etnográfico nada de melhor se poderia encontrar. Parece que o mundo tem mudado radicalmente desde aí. E esta ideia tornou-se aparentemente obsoleta. Senão vejamos.

cover_2003bEm Março de 2012 a magnífica Wired traz um artigo assinado por John Lehrer que divulga um outro modo de agir sobre memórias funestas. Aí sugere-se que a estratégia identificada, a elocução terapêutica, é um mito e, talvez, um erro, sendo que «esta noção errada anda por aí há milhares de anos» (Lehrer, 2012, p. 88). Segundo o autor, a noção errada deriva de uma antiquíssima concepção de memória em que esta é vivida como constituída por «retratos indeléveis do passado» (id., ibid.). Nada disto é verdade, acrescenta. Na última década, diz-nos Lehrer, os neurocientistas demonstraram que as nossas memórias não podem ser tomadas como conjuntos de dados inertes e que tais memórias não permanecem constantes. E se uma memória de um acontecimento se afigura «uma representação honesta», essa «autenticidade é a maior mentira de todas» (id., ibid.). Uma nova concepção de memória emergiria então através do concurso das neurociências. Uma memória sujeita a transformações constantes, plástica e potencialmente manipulável através do uso de drogas especificamente desenhadas para o efeito:

«Investigação nova está a mostrar que sempre que recordamos um acontecimento, a estrutura dessa memória no cérebro é alterada à luz do momento presente, distorcida pelos nossos sentimentos e conhecimento presentes» (id., ibid.).

A discussão é feita em torno daquilo a que Lehrer designa por «critical incident stress debriefing» ou CISD, uma estratégia que tem por eixo a ideia de que todos aqueles que sobrevivem a um acontecimento doloroso devem exprimir os seus sentimentos logo após tal acontecimento ter ocorrido de forma a evitar que a memória seja «selada» e reprimida, o que poderá conduzir à Post-traumatic stress disorder. Fazer-nos recordar um acontecimento traumático logo após a sua ocorrência, não nos alivia; reforça antes o medo e o stress que fazem parte desse processo de recordação. Acresce então, e de acordo com o artigo da Wired, que:

«Este novo modelo da memória não é apenas uma teoria – os neurocientistas têm de facto uma explicação molecular do como e porquê mudam as memórias. De facto, a sua definição de memória alargou-se para abranger não apenas os clichés cinematográficos da infância mas também os insistentes loops mentais de doenças como a PTSD e a adicção – e mesmo distúrbios da dor como a neuropatia. Ao contrário da maior parte da investigação sobre o cérebro, o campo da memória desenvolveu de facto explicações mais simples. Sempre que o cérebro tenta reter algo, faz-se suportar apenas em alguns químicos. De forma mais surpreendente, uma igualmente pequena família de compostos pode vir a tornar-se um apagador universal da história [a universal eraser of history], um comprimido que podemos tomar sempre que quisermos esquecer alguma coisa. § E os investigadores encontraram um destes compostos. § No futuro muito próximo, o acto de recordar virá a ser uma escolha» (id., ibid.).

Parte-se então para uma avaliação sumária das investigações neurobiológicas nesta área, com especial destaque para o trabalho de Karim Nader, um jovem neurocientista que trabalha na Universidade de Nova Iorque. Nos anos noventa, Nader, um discípulo de Joseph LeDoux, terá «ensinado» ratos a associarem um ruído alto com um suave mas doloroso choque eléctrico. Mal o ruído era accionado, os ratos ficavam aterrorizados [«the rats froze in fear»], antecipando o choque. Nader fez reforçar esta memória durante várias semanas. O investigador injectou então os cérebros dos ratos com um composto químico que inibe a síntese proteica associada à criação de memórias, sujeitando-os, em simultâneo, ao ruído. Nader, segundo aquilo que nos é dito no artigo, ficou absolutamente surpreendido com o resultado. Quando fazia accionar o ruído, a memória do medo tinha desaparecido. «Os ratos tinham esquecido tudo» (id., p. 90). A chave estaria, segundo a Wired, no tempo. Se se inibisse a síntese proteica de novas proteínas durante o acto de recordar, então a memória original deixaria de existir. Ou seja, o apagamento era específico. Os ratos esqueciam apenas aquilo que eram forçados a lembrar durante a influência do inibidor. Escreve Lehrer:

«O desaparecimento da memória do medo sugeriu que sempre que pensamos sobre o passado, estamos delicadamente a transformar a sua representação celular no cérebro, a alterar o seu circuito neuronal subjacente. Era uma descorberta espantosa: as memórias não são formadas sendo depois mantidas no seu formato original, como pensavam os neurocientistas: elas são formadas e depois reconstruídas de cada vez que são acessadas» (id., p. 90).

Eternal_sunshine_of_the_spotless_mind_ver3Apesar das resistências que a comunidade científica foi manifestando em relação às conclusões de Nader (o artigo fala-nos das propostas de Nader como se elas constituíssem uma mudança paradigmática à la Kuhn), por volta de 2005 acumularam-se evidências de que recordar requeriria alguma forma de síntese proteica. A «ciência da reconsolidação» defende afinal que cada vez que eu recordo um episódio da minha vida passada – uma memória de infância, por exemplo – eu recrio essa memória e o seu correspondente mapa de conexões neuronais. O cérebro é uma entidade dinâmica em que redes de células são constantemente reconsolidadas, refeitas, reinscritas. Assim, de forma a agir sobre as memórias dolorosas de alguém, propõe-se o seguinte: (a) escolhe-se uma memória de longo-termo que terá sido sujeita a um processo de consolidação que se traduz, afinal, numa reconstrução de conexões neuronais que estão associadas à síntese de uma proteína (a PKMzeta ou Protein kinase M zeta); (b) apaga-se a memória administrando uma droga que inibe a PKMzeta, pedindo-se ainda ao paciente que se recorde do acontecimento outra vez; como a proteína responsável pela reconsolidação está ausente, a memória deixa de existir; os neurocientistas defendem, neste ponto, que poderão inibir selectivamente os receptores considerados relevantes; (c) se a droga é suficientemente precisa e selectiva, o resto permanece sem quaisquer alterações.

Estaremos perante a primeira cura psiquiátrica verdadeiramente digna desse nome, diz-nos a Wired (cf. id., pp. 92-93). Considere-se a associação de inibidores de PKMzeta com processos de reconsolidação de memórias, et voilà. Passaremos a viver no interior de um filme como Eternal sunshine of the spotless mind (2004) citado, aliás, no artigo da Wired (id., p. 93), só que, e como aí se refere, não haverá quaisquer riscos colaterais de apagamento da mente já que o processo, diz-se, é preciso, rigoroso, cirúrgico (id., ibid.).

É minha convicção que as neurociências contemporâneas são, no presente, um dos domínios de redefinição integral do nosso entendimento do que é a memória, logo da nossa identidade e, com ela, dos nossos «modos de fazer mundos», para usar o belíssimo título de Nelson Goodman (1995). Não é sem uma nota de flagrante inquietação que o artigo da Wired enfatiza essa possibilidade:

«Há todo um conjunto de coisas distópicas que podemos fazer com estas drogas. Se tiranos reescreveram frequentemente livros de história, a ciência moderna poderá um dia permitir-lhes reescrever-nos, fazendo apagar genocídios e atrocidades com um cocktail de comprimidos» (Lehrer, 2012, p. 120).

Este será, é já, o admirável mundo novo de que nos falava Aldous Huxley. Uma ideia errada poderá, depois de repetida três vezes, tornar-se verdadeira. Ela é já verdadeira!

Bibliovídeografia

Elias, Norbert (1991 [1987]) The society of individuals, Oxford, Basil Blackwell.
Gerschenfeld, Ana (2011) «Entrevista Ed Boyden: “não me parece impossível tornar conscientes certo tipo de objectos”», Público, P2, 10 de Novembro, pp. 4-6.
Goodman, Nelson (1995 [1978]) Modos de fazer mundos, Porto, Edições Asa. (Tradução de António Duarte e Introdução de Carmo d’ Orey).
Gondry, Michel (2004) The eternal sunshine of the spotless mind. (Argumento de Michel Gondry e de Charlie Kaufman; com Jim Carrey, Kate Winslet e Tom Wilkinson; EUA).
Hacking, Ian (1995) Rewriting the soul: multiple personality and the sciences of memory, Princeton, New Jersey.
Lehrer, Jonah (2012) «The forgetting pill: how a new drug can target your worst memories – and erase them forever», Wired, Março, pp. 84-93.
Quintais, Luís (2000) As guerras coloniais portuguesas e a invenção da história, Lisboa, Imprensa de Ciências Sociais.

[Lido em voz alta nas III Jornadas de História da Psiquiatria e Saúde Mental  no dia 4 de Abril de 2012]

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