Flirting with this disaster

Chet was a wreck. Agora,
quando o escuto, algo se move,
a terra move-se, a sombra
que o meu rosto
denuncia
e que é a sombra dele,
move-se.

O que dizer de alguém
morto, antes da música
já morto, morto para a vida
quando agarrava
a crisálida metálica
e invertia o curso da dor?

Não haverá epitáfios
para quem se reúne
sob este parasol de tantas noites.

Biografia e pretérito, desastre e roubo.

Neurolixo (tóxico) (mentes e máquinas #11)

Visões parciais, com consequências eventualmente funestas, estão presentes hoje numa parte muito considerável do pensamento contemporâneo sob a forma de aglutinações e rótulos do género (neuro)estética, (neuro)ética, (neuro)economia, (neuro)política, etc. É disso que trata Aping mankind: neuromania, darwinitis and the misrepresentation of humanity ( 2011) de Raymond Tallis. Tallis é sistemático, reflexivo, informadíssimo, impiedoso e profundamente irónico. As reacções não se fizeram, como era óbvio, esperar. Entre elas, as de Patricia Churchland e de Daniel Dennett, dois dos filósofos acusados de padecerem dessas duas maleitas maiores do nosso tempo, a «neuromania» e a «darwinitis» (ver, e.g., aqui).

Uma das grandes objecções que podemos fazer a Tallis prende-se com o colapso numa leitura de contornos aparentemente dualistas que faz opor natureza a cultura ou matéria a consciência. Porém, a impressão com que se fica, após a leitura do livro, é a de que o dualismo é, ao longo do texto, um dualismo de circunstância. De alguma forma, o livro tem uma das suas fragilidades no estilo polemizador e ácido que adopta. Seja como for, é uma leitura muito recomendável nos tempos que correm. Revela-nos, afinal, a grandiloquência e a soberba de muita da ciência contemporânea que gravita à volta da neurociência (em particular, da neiroimagiologia) e da psicologia evolutiva. Ao contrário de muitos dos detractores que dizem que Tallis nada tem a propor, Aping mankind tem ainda o mérito de nos sugerir um caminho que poderá passar por propostas, de recorte fenomenológico, como sejam as de Alva Noë  ou de Michael Wheeler , ou por aquilo que se designa por «mente ampliada», de que o expoente é sem dúvida Andy Clark.

Bibliografia

Tallis, Raymond (2011) Aping mankind: neuromania, darwinitis and the misrepresentation of humanity, Durham, Acumen.

Finding a fit (mentes e máquinas #10)

Bronisław Malinowski, Kiriwina, Ilhas Trobriand
Bronisław Malinowski, Omarakana, Kiriwina, Ilhas Trobriand

Em Milplanaltos, Gustavo Rubim fez em tempos não muito distantes uma comunicação notável sobre a antropologia enquanto género literário. Fazendo salvarguardar a ausência de centro (não há axiologia, como diria Gilles Deleuze) da literatura e da antropologia, Rubim demonstrou como, historicamente, a antropologia se faz inscrever numa tradição que tem, a montante, o ensaio (a referência a Montaigne é aqui incontornável), a narrativa de viagens (Joseph-Marie de Gérando seria, segundo Rubim, o lance inaugural da etnografia), e o diário (a importância do diário como utensílio metodológico decisivo foi explicitada por Malinowski no seu Argonauts of the western pacific [1922]), e que esta tradição é, se quisermos, fundamentalmente a mesma que alimenta a literatura nas suas derivas e processos. Ausência de centro, ensaio, narrativa de viagens, diário. Literatura e antropologia (ou melhor, etnografia). No que diz respeito à etnografia, eu acrescentaria apenas que a ausência de centro terá sido substituída por algumas ficções que se vieram a revelar ilegítimas: a primitividade é seguramente uma dessas ficções ilegítimas.

Para mim, é aqui que a antropologia se afasta da etnografia, e, nesse sentido, da literatura, reivindicando, de algum modo, uma maior aproximação à filosofia e à ciência: a antropologia exige que consideremos a possibilidade de nem todas as descrições do mundo se revelarem igualmente válidas. Que poderá haver critérios que nos permitam ponderar a correcção. Finding a fit, como diria Goodman, e cito de memória o seu Ways of worldmaking (1978).

As ciências cognitivas recentes poderão ser um dos espaços de eleição desta procura. A procura das esmeraldas grue, das ficções ilegítimas, etc. Seja como for, parece-me também evidente que não podemos usar acriticamente aquilo que nos é oferecido pelas ciências cognitivas. Levanto, aliás, sérias reservas ao cognitivismo, isto é, à ciência cognitiva clássica, reservas essas que não andarão longe, em muitos dos seus aspectos essenciais, das que encontramos em algumas das suas versões mais críticas (de John Searle a Alva Noë, passando por Tim Ingold).

Bibliografia

Goodman, Nelson (1978) Ways of worldmaking, Indianapolis, Hackett.

Manlinowski, Bronisław (1922) Argonauts of the western pacific, Londres, Routledge & Kegan Paul.

Venezianas

Elizabeth Magill, 2007
Elizabeth Magill, 2007

I
Isola di San Michele.
A poucos passos um do outro,
Brodsky e Pound.
Talvez se odeiem no eterno,
mas aqui partilham
um mesmo bocado de ilha.

De que valem
os escandidos mundos exclusivos?

II
Como são mistificatórias
as presunções de certos seres
embriagados de arte e de si mesmos.
Escolas e declinações apaixonadas
não definem Veneza.

De que nos serve
uma ilusão perfeita?

Cavando (Seamus Heaney)

Entre o meu indicador e o meu polegar
Jaz a acocorada caneta: ajustada como uma arma.

Sob a minha janela, um nítido arranhado som
Quando a pá mergulha em solo pedregoso:
Meu pai, cavando. Eu olho de revés
Até que, no canteiro, suas nádegas distendidas
Se dobram baixo, avançam vinte anos distantes
Com ritmo curvando-se através de sulcos de batata
Onde ia cavando.

A tosca bota aninhada na alça, o cabo
De encontro ao joelho era apoiado com firmeza.
Enraizava caules altos, enterrava fundo a lâmina reluzente
Para, de novo, semear batatas que nós colhíamos
Adorando a sua fresca aspereza em nossas mãos.

Por Deus, o homem sabia como manejar a pá,
Tal como seu pai.

Meu avô cortava mais turfa num dia
Que qualquer outro no paúl de Toner.
Uma vez levei-lhe leite numa garrafa
Desleixadamente arrolhada em papel. Ele aprumou-se
Para o beber, e de imediato se quedou
Penetrando, elegantemente cortando, lançando torrões
Sobre o seu ombro, descendo mais e mais
Até à boa turfa. Cavando.

O cheiro frio do húmus, o chapinhar e o esborrachar
Da turfa encharcada, os súbitos cortes de uma lâmina
Através de raízes acordam na minha cabeça.
Mas eu não tenho pá com que seguir homens como eles.

Entre o meu indicador e o meu polegar
Jaz a acocorada caneta.
Eu cavarei com ela.

[Poema retirado de New selected poems, 1966-1987, Londres, Faber and Faber, 1990, p. 1; originalmente publicado em Death of a naturalist, 1966]

Gerald Edelman entre as máquinas (mentes e máquinas #8)

Para o neurobiólogo Gerald Edelman, o cérebro, à semelhança do sistema imuntário, opera selectivamente ao longo do tempo de vida do indivíduo. Neste contexto, o desenvolvimento de circuitos neuronais no cérebro leva a uma extrema variação anatómica no plano microscópico que é consequência de um processo de selecção contínua, sendo que um dos elementos mais salientes a conduzir este processo de selecção é o facto dos neurónios que disparam conjuntamente se ligarem conjuntamente («neurons that fire together, wire together» (2006, p. 28) mesmo na fase de desenvolvimento fetal. O que é importante salientar é o modo como estamos perante uma estrutura cujas estabilidade e coordenação dependem da plasticidade e da complexidade. E que a plasticidade e a complexidade fazem supor também uma abertura à experiência e à enculturação. Edelman recusa assim as ideias de computação e de informação que se associam imediatamente ao empreendimento cognitivo, presumindo sempre que a computação é after de fact, isto é, que uma máquina corre porque foi programada para correr. Mas imagine-se que o programa é uma resposta selectiva (que programa seria este e a que corresponderia?) ao problema da vida e da cognição? Talvez possamos então dizer que a natureza está do lado das máquinas. Ler Edelman a par de George Dyson (2012), poderá ser essa a oposta.

Bibliografia

Dyson, George (2012 [1997]) Darwin among the machines, Londres, Penguin.

Edelman, Gerald (2006) Second nature: brain science and human knowledge, Yale, Yale University Press.