Correcção, invenção, cognição (sobre mentes e máquinas #2)

goodmanLeio Nelson Goodman. «Não há nenhuma característica independente-de-versão, nenhuma verdadeira versão compatível com todas as versões verdadeiras» (1984, p. 33). «Fazemos versões e as versões verdadeiras fazem mundos» (id., p. 34). «O nosso fazer através de versões está sujeito a severos constrangimentos» (id., p. 36). A «coerência» é uma das respostas, mas não a única. A «indução» também não garante a verdade (como ele nos mostrará com o célebre exemplo das esmeraldas grue). A verdade é uma forma de «inércia modificada pela invenção» (id., p. 38). Inércia implica alguma forma de «deferência», como lhe chamaria Miguel Tamen seguramente (ver o seu belíssimo Amigos de objectos interpretáveis, 2001, p. 132). Mas para Goodman a parte de leão deste processo cognitivo (porque é disso que se trata, e o filósofo explicita-o ao longo do seu trajecto, mostrando-nos como arte e ciência se irmanam neste desígnio cognitivo) está do lado da invenção (que semanticamente implica descoberta e criação, em simultâneo). De alguma maneira, precisamos de versões do mundo que reclamem este lado projectivo de experimentação e de invenção renovadas. É disso que se trata. Uma ciência cognitiva renovada (pós-cognitivista) faz-se suportar numa re-invenção do «cognitivo» da frase. Para Goodman, e para a ciência cognitiva que merece a pena ser seguida, o cognitivo é um qualificativo amplo que não exclui nenhum aspecto do conhecer e do entender, «da descriminação perceptual ao reconhecimento de padrões, do entendimento emocional profundo à inferência lógica» (1984, p. 84). Mas temos de nos libertar dos troublemakers, dos nonrelevant kinds, das esmeraldas grue. A minha aposta é, neste sentido, e ao contrário do que continua a afirmar-se entre antropólogos, que os quase cinquenta anos de interferência e recíproca alimentação entre disciplinas do universo cognitivo (do qual a antropologia insolitamente se subtraiu) nos poderão levar, experimentalmente, a afinar algumas das proposições de referência no domínio. A perceber melhor, por exemplo, o alcance de «memória», «representação», «metáfora», «relativismo», «socialidade», «incorporação», etc.

Bibliografia

Goodman, Nelson (1984) Of mind and other matters, Cambridge, Masschusetts & Londres, Harvard University Press.

Tamen, Miguel (2001) Amigos de objectos interpretáveis, Lisboa, Assírio & Alvim.

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