Eu sou um gigantesco algoritmo (mentes e máquinas #4)

Claude Shannon

Claude Shannon

Tenho vindo a desenvolver um conjunto de trabalhos sobre a relação entre arte e ciência. Neste sentido, tenho interrogado o modo como o paradigma informacional se impôs na cultura do pós-guerra, e como transformou profundamente a nossa percepção do mundo, vindo a reformular e reequacionar o que consideramos ser a «vida». O «bios» do presente depende assim de uma consideração profunda do «universo digital», a usar uma expressão do etno-historiador George Dyson, e das implicações que esse universo digital teve na arte e na ciência do pós-guerra.

Um aspecto disto prende-se com o modo como a informação (digital) fez eliminar o contexto e as singularidades físicas e materiais que compõem qualquer problema na sua complexidade, adoptando uma concepção abstracta e desincorporada do mundo. A «informação» é, neste sentido, uma sequência abstracta de signos. Quando uma mensagem é introduzida num computador, é traduzida numa sequência de 0s e 1s. Uma corrente eléctrica passa através da máquina – e seguindo as instruções codificadas (001110000111) – abre e fecha diferente interruptores e transmissores. 0 abre, 1 fecha. Diferentes sequências de 0s e 1s são, afinal, o programa que gere diferentes operações. O poder desta ideia – a de informação – estaria no facto de tornar problemas muito complexos em problemas simples.

Antes da informação, os engenheiros que trabalhavam no melhoramento da transmissão de sinais assumiam que as ondas de rádio, as imagens televisivas, etc., apresentavam problemas muito específicos de comunicação. A partir de Claude Shannon, o brilhante matemático considerado o «pai da teoria da informação» e um dos fundadores da inteligência artificial, todo o trabalho dos engenheiros se prende com a eficiência da transferência de informação.

Já não importa considerar a diversidade de problemas que resultam da instanciação física dos diferentes media, TV, rádio, etc. A informação nada tem a ver com as entidades físicas e as suas especificidades. A informação é abstracta e é extraída do contexto. Esta estratégia de abstracção teve um impacto tremendo na emergência da ciência cognitiva, na engenharia de computadores, na robótica, na arte, na museologia, etc.

Dir-se-ia que as culturas em sentido amplo se encontram em processo de digitalização acelerada e é provável que tal processo seja imparável. O que temos aqui é, tão, só um processo de desincorporação radical que constitui, segundo, por exemplo, Katherine Hayles (1999), um dos aspectos decisivos da nossa «condição pós-humana». Como escreve Hayles, «uma característica definidora do momento cultural presente é a crença de que a informação pode circular não transformada entre diferentes substractos materiais» (1999, p. 1). Estaremos assim num tempo de eleição e de realização de todos os nossos sonhos gnósticos, e as culturas do presente serão afinal formas de «gnosticismo tecnológico», tal como nos diz o filósofo de ciência Hermínio Martins (2011):

«Versões correntes de tecnofanias ligadas ao discurso sobre as tecnologias da informação, nas quais a “informação” se torna o conceito dominante do quadro categorial, sugerem que a conversão total do não-informacional em informação é o momento da consumação do progresso tecnológico. Uma vez que informação e luz estão estreitamente relacionadas – a informação na tecnologia electrónica é transmitida à velocidade da luz – algo parecido com a metafísica da luz neo-platónica, na qual a perfeição ontológica é equacionada ou simbolizada pela luz, tem sido formulado por vários profetas das tecnologias da informação.» (2011, p. 24).

Um tempo que, num flirt com a imortalidade, as nossas memórias, desejos e intenções poderão ser perenes. Em que aquilo que eu sou – um gigantesco algoritmo – poderá ser downloaded num computador de extraordinária capacidade. Uma cultura sem «ruído», sem o ruído do corpo, o ruído da matéria, o ruído da morte. Uma cultura ideal e idealista, limpa, sem entropia, pois.

Fala-se, porém, da «digital dark age». Se quisermos, do dramático regresso da entropia.

A absolescência da tecnologia nos últimas décadas é um dado. Não há desenvolvimento tecnológico acelerado sem obsolescência acelerada. Como nos diz Jerome McDonough, um investigador da Universidade do Illinois: «Ao contrário da crença popular, os dados electrónicos são mais efémeros que os livros, os jornais ou peças de arte plástica. Afinal, quando foi a última vez que você abriu um ficheiro em WordPerfect ou tentou ler uma floppy disk de 8 polegadas? Mesmo dentro de dez anos, poder-se-á assistir a uma evolução tão rápida no modo como armazenamos a informação digital e nos programas que usamos para lhe aceder que os formatos de ficheiros podem ficar fora de prazo.»

Recordo, por exemplo, que em meados de 1970, apenas duas máquinas podiam ler os dados dos Censos dos EUA de 1960: uma estava no Japão, outra na Smithsonian. Recordo ainda que dados coligidos pela NASA das suas missões Viking a Marte são hoje ilegíveis ou estão totalmente perdidos. E estes são apenas dois exemplos sobejamente conhecidos.

A construção implicará porventura destruição. À destruição imparável do presente devemos opor uma tarefa de «desconstrução», talvez, isto é, de «destruição em câmara lenta», com nos diz Bruno Latour (1999, p. 8). Uma forma de iconoclastia (de meta-destruição crítica) que é um exercício de reposição do corpo no presente e que nos vem revelar a importância das humanidades num contexto onde corremos riscos tremendos, um dos quais é o de perdermos uma parte considerável daquilo que mais prezamos e que constitui a nossa memória cultural do mundo.

Esta iconoclastia é essencial, em meu entender. Trata-se da afirmação de uma mão crítica, de uma mão destrutiva, como nos diz Latour em Iconoclash (2002, p. 16), que nos poderá mostrar que muitas das nossas evidências merecem ser desmontadas, criticamente avaliadas, sob pena de nos encaminharmos para um mundo que nos reserva insofimáveis perigos, perigos esses que o tecno-encantamento do presente esconde.

Bibliografia

Dyson, George (2012) Turing’s cathedral: the origins of the digital universe, Nova Iorque, Pantheon Books.

Hayles, Katherine (1999) How we become posthuman: virtual bodies in cybernetics, literature, and informatics, Chicago e Londres: The University of Chicago Press.

Latour, Bruno (1999) Pandora’s hope: essays on the reality of science studies, Cambridge, Mass., Harvard University Press.

Latour, Bruno (2002) «What is iconoclash? Or is there a world beyond the image wars?», in Bruno Latour e Peter Weibel (ed.), Iconoclash: beyond the image wars in science, religion, and art, Cambridge, Massachusetts e Londres, The MIT Press.

Martins, Hermínio (2011) Experimentum humanum: civilização tecnológica e condição humana, Lisboa, Relógio d’ Água.

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