O peixe de Klee

Paul Klee, óleo e aguarela sobre papel, montado sobre cartão, 69.2 x 49.6 cm, Kunsthalle, Hamburgo.

Se eu fosse um peixe seria o peixe luminoso de Paul Klee. Uma das coisas que eu mais gosto no peixe de Klee é a sua calma. Se vires bem, tu que me lês, o peixe parece quietinho, imóvel, no fundo escuro do mais escuro dos mares. O peixe é Deus, e eu gostava de ser Deus. O peixe está no centro da Criação, como Deus, e era bom poder estar nesse centro.  À minha volta girariam todos os outros peixes, estrelas, polvos, tubarões, baleias, peixes-balão e golfinhos. À minha volta giraria a noite, com estrelas, buracos-negros e crianças, muitas crianças.

No quadro de Klee tudo é perfeito, belo e assustador, como no mar. Disse belo e assustador, mas, tu que me lês, repara que só eu, o peixe-Deus no centro do quadro, permaneço seguro de mim mesmo, numa imobilidade de luz.

Por vezes, quando olho duas vezes para o peixe de Klee, reparo que ele se parece com uma chama, uma labareda. É como se Deus fosse amarelo e vermelho e quisesse, com o seu corpo de fogo, queimar o mundo que teima em ser escuro e frio. É como se Deus quisesse destruir o mundo que existe para criar outro mundo ainda.

Por vezes, quando olho quatro vezes o peixe, parece um músico e à sua volta estão todos os músicos que existiram, existem e existirão a tocar uma pauta que ele, o peixe de Klee, escreveu.

Por vezes, quando olho cinco vezes, é como se o peixe fosse o Sol no centro do sistema solar, e tudo girasse à sua volta sob um fundo negro. Peixe, Deus, Sol, que nome tem uma criatura que não é bem uma criatura mas uma forma desenhada por um pintor? Talvez não tenha nome, essa criatura. Talvez seja mesmo o que não precisa de palavras, o que pode ser mostrado sem palavras.

Se eu fosse um peixe, seria, em homenagem a Klee, um peixe sem nome, um peixe que só pudesse ser mostrado, que não precisasse de palavras, que não quisesse nada com as palavras.

Ficaria assim, imóvel, como ele, a contemplar em silêncio a Criação.

[Um texto de Bárbara Xavier Quintais, Tomás Xavier Quintais e Luís Quintais]

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