Cavando (Seamus Heaney)

Entre o meu indicador e o meu polegar
Jaz a acocorada caneta: ajustada como uma arma.

Sob a minha janela, um nítido arranhado som
Quando a pá mergulha em solo pedregoso:
Meu pai, cavando. Eu olho de revés
Até que, no canteiro, suas nádegas distendidas
Se dobram baixo, avançam vinte anos distantes
Com ritmo curvando-se através de sulcos de batata
Onde ia cavando.

A tosca bota aninhada na alça, o cabo
De encontro ao joelho era apoiado com firmeza.
Enraizava caules altos, enterrava fundo a lâmina reluzente
Para, de novo, semear batatas que nós colhíamos
Adorando a sua fresca aspereza em nossas mãos.

Por Deus, o homem sabia como manejar a pá,
Tal como seu pai.

Meu avô cortava mais turfa num dia
Que qualquer outro no paúl de Toner.
Uma vez levei-lhe leite numa garrafa
Desleixadamente arrolhada em papel. Ele aprumou-se
Para o beber, e de imediato se quedou
Penetrando, elegantemente cortando, lançando torrões
Sobre o seu ombro, descendo mais e mais
Até à boa turfa. Cavando.

O cheiro frio do húmus, o chapinhar e o esborrachar
Da turfa encharcada, os súbitos cortes de uma lâmina
Através de raízes acordam na minha cabeça.
Mas eu não tenho pá com que seguir homens como eles.

Entre o meu indicador e o meu polegar
Jaz a acocorada caneta.
Eu cavarei com ela.

[Poema retirado de New selected poems, 1966-1987, Londres, Faber and Faber, 1990, p. 1; originalmente publicado em Death of a naturalist, 1966]

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