Mente como propriedade (Mentes e máquinas #13)

Em Mentes artificiais de Stan Franklin assume-se, com clareza, a ideia de que a «mente» não pode ser entendida como um estado, como uma ontologia, mas antes como uma propriedade de sistemas vários, alguns implicando «vida» em sentido orgânico, outros «vida» em sentido não orgânico. A mente é, em primeiro lugar, tomada como «uma noção contínua, em detrimento de uma perspectiva booleana [sim ou não, 1 ou 0, verdadeiro ou falso]» (2000, p. 37). Pensar-se-á então no modo como sistemas diferentes «exibem» tal propriedade ou aspectos ou «capacidades» que tendemos a associar a essa propriedade. A mente é, em segundo lugar, «agregada e não monolítica». Esta é claramente uma tese modular ou uma defesa da modularidade da mente. Franklin escreve:

«Todas as mentes, excepto as mais simples, são constituídas por competências ou agentes relativamente independentes que apenas têm entre si uma comunicação limitada. A comunicação tem de ser reduzida porque, com tantos sistemas diferentes, seria impossível que cada sistema contactasse com todos os outros. Além disso, normalmente não é preciso que um agente (e.g., aquele que contrai o polegar direito) dialogue com outro (e.g., o mecanismo de controlo respiratório). Por outro lado, é importante suster-se a respiração quando se mergulha debaixo de água, pelo que é importante que o agente motivador para nadar debaixo de água comunique com o controlo respiratório.» (id.)

Em terceiro lugar, acresce que a «mente é», dentro da modularidade presumida, «habilitada de muitos mecanismos diversos» (id.). Franklin não parece nada inclinado para teses de recorte holista, dizendo-nos: «Eu ão sou fã de teorias unificadas da cognição» (id.). Em quarto lugar, «a principal função da mente é produzir a acção seguinte». Esta aspecto é para Stan Franklin decisivo. É ele «que define uma mente, seja natural ou artificial». Franklin acautela-nos, porém:

«Não se deixe enganar pela palavra “seguinte”. A mente pode perfeitamente funcionar em paralelo, produzindo mais do que uma acção simultaneamente. Ademais, “seguinte” também não implica uma acção discreta em vez de contínua. Finalmente a palavra “função” não subsume qualquer “intenção”. O que as mentes fazem é apenas produzir acções. Uma das consequências disso é as mentes serem propriedades de agentes autónomos.» (id.; itálicos do autor).

Em quinto lugar, «a mente cria informações para uso próprio a partir das sensações» (id.). Para Stan Franklin, as mentes não podem ser assimiladas a máquinas que processam informação, ou seja, as mentes não «retiram informação do ambiente». Segundo a autor, e de acordo com Susan Oyama e o seu seminal The ontogeny of information, não existe qualquer tipo de informação no ambiente. A informação só surge «quando as mentes processam sensações». Uma mesma situação poderá solicitar respostas informacionais distintas. Em sexto lugar, «a mente usa informação anterior (memórias) para produzir acções, através de um processo de reconstituição; portanto, não de recuperação» (p. 38). A memória é o resultado de uma reconstrução. Uma memória é reconstruída através de «associações adequadas» (id.). Em sétimo e último lugar, «a mente pode ser implementada nas máquinas até certo grau» (id.).

O problema com este mapa prende-se, fundamentalmente, com o modo como ele elimina a questão da intencionalidade e das mentes propriamente humanas. O que ganhamos quando diluímos estrategicamente as ontologias e as especificidades? O que ganhamos quando assumimos este grau de abstracção? Dir-se-ia ainda que talvez não seja suficientemente convincente assumir que aquilo que não está fora (no ambiente), estará porventura dentro: refiro-me à ideia de que no ambiente não há informação, mas que dos órgãos sensoriais em diante (isto é em direcção ao cérebro), passará a haver informação. Gerald Edelman, por exemplo, recusaria seguramente esta ideia. Quanto ao holismo: como não cair na tese do humúnculo (the ghost in the machine), e na correspondente regressão infinita, se não se assumir alguma forma de holismo? De que maneira é que as teses emergentistas poderão responder a isto?

Talvez seja interessante sofisticar este blueprint de Stan Franklin. De alguma forma, ele parece-me útil para pensar a contemporaneidade, essa entidade temporal algo vaga que nos remete para um presente onde as máquinas se tornaram parte central em qualquer processo cognitivo.

Bibliografia

Franklin, Stan (2000 [1995]) Mentes artificiais, Lisboa, Relógio d’ Água.

Oyama, Susan (2000 [1985]) The ontogeny of information: developmental systems and evolution, Durham, Duke U.P.

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