Ferocidade e melancolia: apresentação de AP Yard

A pergunta é esta: porque devemos nós, leitores experimentados e, talvez, desencantados, ler AP Yard? E a resposta só poderá ser: porque daí, desse lugar que são as lâminas em forma de ficções que habitam a sua escrita, não se sairá o mesmo.

AP Yard destaca-se pelo simples facto de escrever dentro de uma atmosfera que é a sua e que lhe foi legada por toda uma tradição de geometria improvável, onde porém se perfilam semelhanças e diferenças que, móveis, se reúnem em nomes como Carroll, Poe, Kafka, Casares.

Os homens de AP Yard assemelham-se àqueles mortos de Casares que continuam entre os vivos, pois é-lhes impossível renunciar a certos hábitos, como fumar, ou tão-só ao insólito prestígio de violadores de mulheres. Mas aqui há uma ressalva a fazer. Os homens de AP Yard, se vivem algures entre a realidade e a imaginação, eles não se prestam tão facilmente às prerrogativas masculinas de certas opções mais ou menos absurdas, mais ou menos cruéis.

O que importa, sem dúvida, é esta ideia de hábito ou de regra que se exerce numa fronteira difícil de desenhar, numa fronteira que é uma isotopia de sentidos múltiplos onde a ficção mais plena tem lugar, porque o registo ficcional, a sua prática, é afinal de um mundo fora do mundo onde a regra é subtilmente conduzida até ao drama da sua derrota.

A ficção é aqui, se quisermos, um gesto que faz romper a simetria da regra.

Um gesto que fabrica o deslocamento do sentido, a linha de fuga, e que, no caso de AP Yard, se abastece no desencadear de uma tonalidade melancólia que satura o sentido em dispersão incontrolável, ou que se dobra numa complicação feroz que, tal como em Kafka, nos diz que não há caminho de regresso, que se esgotaram os expedientes do regresso.

Melancolia e ferocidade, pois, como se uma e outra fossem os instrumentos privilegiados do ofício – da prática, voltaria a enfatizar – que é a ficção.

Assim, os homens de AP Yard são seres obcecados pela regra, dados a uma certa sazonalidade de implacável recorte. Têm do seu lado a razão da desrazão. Um escolhe o papel de embrulho que o levará, antes do mais, às corrupções da memória, à ruína de um passado eviscerado e incompleto; outro, “profundamente lógico”, provoca o reverso da logicidade, numa meticulosa e irónica renúncia à sua condição primeira; outro fala com cadeiras que detêm uma qualidade particular, sempre a mesma, até que o desaparecimento de tal sujeito é preenchido pelo rumor e pela irracionalidade que o percorre, como se de um arrepio se tratasse; outro, sabe que a morte de um certo Magalhães é o fim da linguagem, da sua enunciação sistemática e enciclopédica (uma reiteração da regra), e também o fim da casa (e aí a morte do hospedeiro compromete os trabalhos e os dias daquele que é hospedado, “o homem que vivia na pestana” desse Magalhães dado às minúcias filológicas); outro, ouvindo Mozart para exercitar “dotes de oratória”, laboriosamente cede à regra das “12 vezes por mês”, percorrendo a cidade numa performance não menos metódica e não menos enigmática; outro, adestrando-se em artes de caça, devora corações de gato, e a fria e feroz inteligência desemboca na nostalgia dilacerante que se precipita através da maneira “como o coração fica preso entre os espaços dos seus dentes”; outro “acredita que a vida é matemática”, e desenha a desrazão de “uns e seis na areia do jardim”; outro tem por hábito “fazer amigos todas as primeiras segundas-feiras do mês para queimar partes dos seus corpos nas últimas sextas do mês seguinte”, na reiteração de um “acarinhado ritual”;  outro, após a recepção periódica de três filmes por semana,  exercita a crítica de cinema com uma “mini-picareta”e um “bloco oval de betão”; outro, sob o contraponto da música de Bach, desfaz-se de partes da sua carne (que o vai interpelando) num consultório de dentista;  outro lê Camilo e admira gravuras de Blake e é transportado, num lance de insólita destreza, para um mundo de gatos que lêem Blake e desenham “perfis de Camilo Castelo Branco”; outro vive nos poemas de Emily Dickinson e intensifica, por morte da poeta, a a-gramaticalidade da sua escrita, alvoraçando as frases, provocando estrofes, espicaçando palavras, numa “algazarra dobrada” que só poderá exasperar a literatura; outro, lança as suas setas com a regularidade de um metrónomo ou, mais certeiramente, de um calendário (é essa toda a sua felicidade, como se, mais uma vez, a desrazão metrificada do gesto fosse a única razão); outro morde livros e encontra a morte; outro apanha moscas meticulosamente com uma fita adesiva e melgas com um “spray perfumado” (e isto é apenas parte da sua arte de armadilhas e do seu acervo de técnicas de extermínio); outro ainda – last, but not least –  ensaia o seu discurso de recepção de um prémio literário, e esse discurso não é somente um currículo de memórias – absurdas – num apelo de sentido que poderá resgatar uma vida, mas também, e de modo não menos desconcertante, um breviário de más práticas para-literárias e uma alegoria da instituição literária.

Devemos assim ler AP Yard, porque em AP Yard descobrimos, em modo portátil, do que falamos quando falamos de linguagem, literatura, biografia, razão e desrazão, vigília e abandono, regra e transgressão, métricas desmontadas pela sombra de um jogo que é jogado na ponderação do seu limite, da sua fronteira.

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