Rui Chafes, Tranquila Ferida do Sim, Faca do Não, e dois curtos ensaios

Num momento em que irá ser inaugurada uma exposição de Rui Chafes na Galeria Filomena Soares em Lisboa (Tranquila ferida do sim, faca do não), aqui deixo dois curtos ensaios que escrevi em tempos sobre o trabalho deste artista maior. Parabéns, Rui, e obrigado!

DO INVISíVEL

«A face interior IV» é um vestígio. Chafes é um escultor do invisível. O que vemos – o visível, pois – são vestígios, marcas. Trata-se de um artista que nos leva a contemplar a possibilidade do invisível de que o «interior» é tradução. Três aspectos merecem comentário. Em primeiro lugar, a recursividade entre o invisível e o visível, entre o interior e o exterior, que Chafes opera. Melhor seria dizer que Chafes traduz. Ele reclama para si a figura do «anjo» como tradutor ou mediador dessa possibilidade do invisível. Em segundo lugar, a dimensão distribuída do seu trabalho escultórico: Chafes está a esculpir um único objecto cujos contornos são de improvável acesso. Qualquer termo da sua oeuvre é um indício – um vestígio – de algo que não sabemos o que é (que jamais vamos saber o que é) e que se desdobra continuamente.Um objecto distribuído. O seu trabalho é, contrariamente àquilo que se poderá pensar, uma das emblematizações mais poderosas que conheço do moderno onde esta dimensão distribuída é inegável (lembro-me de Duchamp, e seria interessante pensar Chafes em confronto com Duchamp, pese embora tratar-se de um exercício que comporta inúmeros riscos). Em terceiro lugar, reafirmaria aqui o lado vestigial de que parto. Os objectos de que se compõe esse objecto maior de contornos improváveis (a clave metafísica do seu trabalho) são vestígios de uma passagem. A passagem do invisível (talvez de uma sombra, talvez de um vazio). As formas que se contemplam (e que se territorializam nestes artefactos de uma opacidade sem concessões) são exuviae, isto é, partes de um corpo, partes abandonadas de um corpo. Imaginamos então uma criatura – uma entidade orgânica que se vai libertando, ciclicamente, de fragmentos (pele, sangue, penas, outros). Tudo o que vemos são esses fragmentos. Tudo o que temos são fragmentos desse corpo do invisível que se metamorfoseia sem cessar e que a inteligência escultória de Chafes se permite mapear.

[Janeiro de 2012]

ANOTAÇÕES SOBRE «UNSAID» de ORLA BARRY e de RUI CHAFES (2001)

É o «não dito» uma das formulações do «interior»? Este será, porventura, o modo de interrogarmos o trabalho de Orla Barry e Rui Chafes. Uma escultura mobiliza a voz e os sortilégios da voz. Isto parece querer ser dito através da impossibilidade do dizer que é também a impossibilidade em se aceder ao interior.

Habitamos um outro, ou assim se nos afigura esta máquina que nos enlaça e nos conduz à inevitabilidade do interior. A voz é aqui corrente de consciência. E nada pode presumir a presença dessa voz a não ser o exercício de imersão numa psicologia profunda que o trabalho de Barry e Chafes exige.

Um corpo e uma voz «para lá da razão» agem sobre nós. Barry & Chafes revelam-nos, afinal, como a arte não é um lugar de contemplação, mas antes um lugar de intrusão: ferimos a pele (que nos ferirá depois) e acedemos ao interior. Esse interior age sobre nós. A situação é quase transparente na sua opacidade. Estamos dentro de uma obra de arte como se estivéssemos dentro de um outro. Ou o inverso: essa alteridade está em nós, recolhida, oclusa. E tudo se passa como se houvesse uma espécie de oscilação entre o interior e o exterior, o não dito e o dito.

Uma obra de arte – um outro – está dentro de nós, e cada um de nós envolve-a, cerca-a, serve-lhe de limite. Uma pele cosida à «alma» que, enigmaticamente, se torna o exterior desse corpo, dessa máquina antropomórfica que detém uma voz. Tal condição é explicitamente assumida pelas palavras ditas:

«Stitching myself to the smooth surface of your soul. / You are enclosing me, wrapping me up, surrounding me. / You are inside my head, i can´t get you out… / I hide you inside of me, no one can see you’re there, not even you, my heart pounds… You are inside of me, I am surrounding you.»

A imersão no interior vem sublinhar que é a alma – isto é, a «mente» – que envolve esse corpo, sendo este um vestígio ou despojo de outro corpo ainda. Estamos perante aquilo a que Alfred Gell designa por «exuviae» (1998, p. 108): um corpo que cresceu e partes que dele se separaram durante esse crescimento, como se tratasse da pele de um réptil ou do casulo de um bicho de seda. Poder-se-á, aliás, dizer que todo o trabalho de Rui Chafes é uma figuração deste processo. Trata-se de um objecto que se distribui, se dispersa, se multiplica, e que, simultaneamente, assegura, através dessa dispersão, a sua coerência material e formal.

Os sortilégios de Unsaid implicam a co-presença que é um jogo onde intencionalidades se cruzam e se implicam. A inquietação desta co-presença reside numa propriedade que se prende com a atribuição de psicologia intencional a um objecto ou, de forma mais radical, com um enlace de intencionalidades entre cada um de nós e esse objecto.

O melhor modo de o pensarmos estará na forma como Alfred Gell usa uma analogia: uma obra de arte é como uma armadilha. Aquele que constrói a armadilha procura aceder à mente de outro. Estar-se-ia perante a situação paródica em que se pretende simular o Umwelt ou ecologia da potencial vítima. Como nos diz Alfred Gell, as armadilhas são «paródias letais» desse Umwelt (1999, p. 201). «Unsaid» é uma armadilha mental que nos coloca perante uma situação que se prende com a opacidade do interior, a opacidade da voz, a opacidade da linguagem.

Barry e Chafes revelam-nos a operatividade de Gell: a arte poderá não ser representação, convocando algo de mais premente: a inescapável exigência de simulação que nos habita como humanos. Simulamos os estados mentais de outros, somos armadilhados por esses estados mentais, ou, por seu turno, armadilhamo-los. Como compreender? Como antecipar? Como dizer? Sem essa capacidade de simulação de um interior (de uma mente que funcionará, afinal, como hipótese necessária a toda a invenção e descoberta) não podemos sequer convocar significados, presenças, inteligíveis vestígios. Traços. Traços do humano e da sua exigência de clareza num mundo que será talvez fundamentalmente opaco.

Unsaid é uma reivindicação armadilhada dessa opacidade, dessas sombras que nos perseguem sem cessar e que nos suspendem ou bloqueiam o passo.

[Julho de 2011]

Bibliografia

Alfred Gell (1998) Art and agency: an anthropological theory, Oxford, Clarendon Press.

Alfred Gell (1999) «Vogel’s net: traps as artworks and artworks as traps», in The art of anthropology: essays and diagrams, Londres & New Brunswick (NJ), The athlone press.

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