Água nesse sangue

Hector Says Goodbye to Adromache, Jane Morris Pack
Hector Says Goodbye to Adromache, Jane Morris Pack

Sim, em todas as despedidas
pulsa ainda, pulsará sempre o ferido
coração de Heitor.

Aí começa e acaba
o inseguro lugar de medir
sobressaltos.

Os rios são fractais indissolúveis
de coisas por dizer
– oh, a teimosia das coisas por dizer!

Um delta dentro da nossa voz
confunde a água com o sangue.
Um dia seremos água nesse sangue,

juntos, e não haverá melhor reunião,
celebrado que foi o ferido coração de Heitor.

Reflexo

The death of Patroklus, Jane Morris Pack
The death of Patroklus, Jane Morris Pack

Armas desenhadas por deuses
apodrecem num vale
de sombra e cimento,
entre duas estradas
de infrequente circulação.

No seu brilho, hoje baço,
devolvido é o reflexo
de um rosto, a ectoplásmica
matéria de um corpo cego:

Pátroclo agoniza
ainda sob essa película.

Mindscapes

Há uma atmosfera nas novelas e contos de J.G. Ballard que não tem precedente óbvio na ficção, e que é, como o próprio admitia, o resultado de um encontro entre os surrealistas e a escrita de ficção científica.

As artes plásticas foram certamente a sua influência maior, e a ficção científica um expediente a partir do qual se fez consagrar uma nova forma de ficção que é fundamentalmente um exercício anatomo-patológico dos pesadelos da Razão.

Ballard foi estudante de medicina em Cambridge durante dois anos (pensou vir a tornar-se psiquiatra), e a sua (assumida) escola é o teatro anatómico.

A mestria de Ballard não promete seguidores. Todos aqueles que o têm como referência conhecem os riscos (de Martin Amins a Will Self, passando pelo notável Iain Sinclair). Seja como for, a sua influência pode ser medida pelo facto do Collins English Dictionary integrar o adjectivo «ballardian» para definir um conjunto de elementos que são recorrentes na sua ficção, onde avultam a modernidade distópica e os efeitos ecológicos e psicológicos da tecnologia. A escrita de Ballard é o lugar em que as landscapes se tornam mindscapes.

A visão de Ballard só poderá ser produtivamente comparada à de Paul Virilio, o urbanista e ensaísta francês criador da «dromologia». Ballard é, como Virilio, um produto de uma certa sensibilidade que foi moldada pelas experiências da guerra moderna, onde a tecnologia adquiriu a sua acepção mais virulenta e mortal.

Quanto aos seus topoi, aqui fica um deles: a piscina vazia, retirado do seu Miracles of life (2008):

«Curiously, the house we moved to had a drained swimming pool in its garden. It must have been the first drained pool I had seen, and it struck me as strangely significant in a way I have never fully grasped. My parents decided not to fill the pool, and it lay in the garden like a mysterious empty presence. I would walk through the unmown grass and stare down at its canted floor. I could hear the bombing and gunfire all around Shanghai, and see the vast pall of smoke that lay over the city, but the drained pool remained apart. In the coming years I would see a great many drained and half-drained pools, as British residents left Shanghai for Australia and Canada, or the assumed «safety» of Hong Kong and Singapore, and they all seemed as mysterious as that first pool in the French Concession (…) I think now that the drained pool represented the unknown (…)» (2008, pp. 26-7).

Uma piscina vazia representa o desconhecido. Talvez seja uma pré-figuração do insconsciente ou de algo igualmente sombrio que a infância parecia antecipar. É aí que Ballard, no estilo seco e directo que o define, e com a urgência a insinuar-se em todas as páginas, nos conduz em Miracles of life, tal como, de outro modo, já o havia feito em Empire of the sun (1984).

A infância de Ballard é genuinamente um acervo de momentos – de topoi ballardianos – que nos permitem dizer que este escritor oracular foi ensombrando pela memória, e, em particular, pela memória da guerra e pelo limite que a guerra desenha quando se trata de equacionar uma certa ideia de natureza humana.

Bibliografia

J.G. Ballard (2008), Miracles of life. Shanghai to Shepperton: an autobiography, Londres, Fourth Estate/Harper Collins.

Gabriela ao piano

Faz-se propriedade e tempo
a denodada margem

que os dedos desenham no teclado.
Somos agora altos, seremos altos

depois, como gigantes,
como girassóis à chuva somos já,

por música que os desenha
graficamente, agitando-se para lá

de nuvens, ah a luz, a luz propiciatória
com que haveremos de dizer a nocturna

folha.

Poesia moderna

Edward Steichen, s/ título (Nova Iorque), 1905
Edward Steichen, s/ título (Nova Iorque), 1905

Para Gastão Cruz

Todas as línguas do mundo se sujaram.
Fomos condenados à gaguez triunfal
pela qual procuramos ainda dizer o que nos recusaram.

Na mínima dor há um pomar onde colhemos
os esplêndidos frutos que alimentam a nossa linfa, o nosso sangue,
a corrente que sem recurso nos prende
à furiosa morte.

A metáfora da alma será ainda a melhor dádiva
deste corpo tão eficiente e tão pobre.

Assim nos saciamos.

O limite da palavra: anotação sobre «Ludwig W., em 1951» de Manuel António Pina

Um nome, uma data. Ludwig Wittgenstein morreu em 1951, justamente. E o poema de Manuel António Pina (publicado pela primeira vez em Nenhuma Palavra e nenhuma lembrança de 1999, pp. 10-11) devolve-nos o coincidente limite: a morte e a impossibilidade de dizer. O poema é aqui a linguagem da morte, ou a sua alegoria, porque é a linguagem do que não pode ser dito ou tão-só do reconhecimento de que só podemos balbuciar mesmo quando julgamos dizer. Estranha esta coincidência que faz da palavra e da morte o mesmo tema. Injustificável esta exigência a que o poema dá corpo de dizer o que à partida não poderá ser dito nunca. Assumir isso, e porém procurá-lo, como se o poema fosse apenas o vestígio disso. Há uma melancolia extrema na poesia de MAP que tem a ver com o modo como ela nos reenvia para a consciência do seu desamparo. LW é uma figura de eleição para compreendermos isto, porque em LW o drama que se encena é o do limite da palavra: sem ela não há azul, mas nem todo o azul do mundo cabe nela, sem ela não há dor, mas nem toda a dor do mundo cabe nela.