Mindscapes

Há uma atmosfera nas novelas e contos de J.G. Ballard que não tem precedente óbvio na ficção, e que é, como o próprio admitia, o resultado de um encontro entre os surrealistas e a escrita de ficção científica.

As artes plásticas foram certamente a sua influência maior, e a ficção científica um expediente a partir do qual se fez consagrar uma nova forma de ficção que é fundamentalmente um exercício anatomo-patológico dos pesadelos da Razão.

Ballard foi estudante de medicina em Cambridge durante dois anos (pensou vir a tornar-se psiquiatra), e a sua (assumida) escola é o teatro anatómico.

A mestria de Ballard não promete seguidores. Todos aqueles que o têm como referência conhecem os riscos (de Martin Amins a Will Self, passando pelo notável Iain Sinclair). Seja como for, a sua influência pode ser medida pelo facto do Collins English Dictionary integrar o adjectivo «ballardian» para definir um conjunto de elementos que são recorrentes na sua ficção, onde avultam a modernidade distópica e os efeitos ecológicos e psicológicos da tecnologia. A escrita de Ballard é o lugar em que as landscapes se tornam mindscapes.

A visão de Ballard só poderá ser produtivamente comparada à de Paul Virilio, o urbanista e ensaísta francês criador da «dromologia». Ballard é, como Virilio, um produto de uma certa sensibilidade que foi moldada pelas experiências da guerra moderna, onde a tecnologia adquiriu a sua acepção mais virulenta e mortal.

Quanto aos seus topoi, aqui fica um deles: a piscina vazia, retirado do seu Miracles of life (2008):

«Curiously, the house we moved to had a drained swimming pool in its garden. It must have been the first drained pool I had seen, and it struck me as strangely significant in a way I have never fully grasped. My parents decided not to fill the pool, and it lay in the garden like a mysterious empty presence. I would walk through the unmown grass and stare down at its canted floor. I could hear the bombing and gunfire all around Shanghai, and see the vast pall of smoke that lay over the city, but the drained pool remained apart. In the coming years I would see a great many drained and half-drained pools, as British residents left Shanghai for Australia and Canada, or the assumed «safety» of Hong Kong and Singapore, and they all seemed as mysterious as that first pool in the French Concession (…) I think now that the drained pool represented the unknown (…)» (2008, pp. 26-7).

Uma piscina vazia representa o desconhecido. Talvez seja uma pré-figuração do insconsciente ou de algo igualmente sombrio que a infância parecia antecipar. É aí que Ballard, no estilo seco e directo que o define, e com a urgência a insinuar-se em todas as páginas, nos conduz em Miracles of life, tal como, de outro modo, já o havia feito em Empire of the sun (1984).

A infância de Ballard é genuinamente um acervo de momentos – de topoi ballardianos – que nos permitem dizer que este escritor oracular foi ensombrando pela memória, e, em particular, pela memória da guerra e pelo limite que a guerra desenha quando se trata de equacionar uma certa ideia de natureza humana.

Bibliografia

J.G. Ballard (2008), Miracles of life. Shanghai to Shepperton: an autobiography, Londres, Fourth Estate/Harper Collins.

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