Não mais fui guiado pelos sirgadores

João Maria Gusmão & Pedro Paiva, The great drinking bout, 2007, filme de 16mm, cor, 8 m e 57 seg

João Maria Gusmão & Pedro Paiva, The great drinking bout, 2007, filme de 16mm, cor, 8 m e 57 seg

[«Reflexões abisso-lógicas a partir de João Maria Gusmão e Pedro Paiva», era o subtítulo. Texto inédito sobre uma exposição daqueles dois artistas na Cordoaria em Lisboa, que aconteceu no ano de 2008.]

Comme je descendais des Fleuves impassibles,
Je ne me sentis plus guidé par les haleurs:
Des Peaux-Rouges criards les avaient pris pour cibles
Les ayant cloués nus aux poteaux de couleurs.

[Como eu já descesse Rios impassíveis,
Não mais fui guiado pelos sirgadores;
Índios a gritar matavam-nos, visíveis
E amarrados, nus, a postes de cores.]

Arthur Rimbaud (tr. Pedro José Leal, 1985)

De onde provém a rasura das singularidades? De um problema de escala, tão-só, dir-nos-á a Razão. De uma recursividade entre o local e o global, o macro e o micro, o perceptível e o imperceptível ou, de modo mais amplo, e a reclamar a mais provável das analogias, de uma recursividade entre o visível e o invisível. Ver a floresta, a seguir as árvores, a seguir a floresta, e as árvores de novo. De outro modo ainda, e como nos legou uma parte muito significativa do pensamento canónico ocidental, um movimento pendular na monotonia do geral e do particular. E, neste sentido, uma singularidade não poderá ser nunca amplamente admitida senão como uma modulação entre parâmetros inamovíveis. Uma singularidade domesticada. Como se toda a luz fosse absorvida pelas negras margens do pensamento, isto é, por tudo aquilo que o constrange: a clarividência dos padrões é o que nos exige a ciência, e toda a singularidade constatada não será mais do que uma etapa na recalibragem de um entendimento integral ou cumulativo que há-de vir (o horizonte para onde nos encaminhamos inexoravelmente), a estranheza necessária, a poesia que motiva mas que, desencantadamente, desmerece o conhecimento fiel e verdadeiro.

Dir-se-ia, afinal, que é em momentos de «ciência normal» que uma ontologia do singular se torna acessória, uma etapa apenas para o entendimento completo, para o fechamento do sistema, para a sua territorialização. A hipótese de uma territorialização definitiva que lhe é dada por uma atribuição de quietude sistémica, tectónica, fundacional. Todo a singularidade se torna, neste quadro, sumariamente residual, destituída de im-plicações.

O cepticismo terá as suas virtudes, e uma delas é exigir uma reapreciação das singularidades que as enuncie de outro modo que não numa linear e recursiva deslocação entre dois pontos que são hierarquizados arborescentemente. Reclama-se uma reapreciação deste movimento, e traça-se uma diagonal que sugere o envio para um plano que não é senão diferenciação progressiva. Deleuze reclama-o, mas também Michel Serres.

Tudo isto para chamar a atenção para o trabalho de João Maria Gusmão e Pedro Paiva em Abissologia, para uma ciência transitória do indiscernível.

As propostas aí contidas denunciam uma vontade de precisar qualquer coisa que atravessa o seu percurso anterior. Assim, em Eflúvio magnético (2005-2006) encontramos já uma procura que se faz suportar numa lógica de enunciação deste campo de progressiva diferenciação a que me refiro. Dir-se-ia que já aí nos confrontamos não propriamente com conhecimento, mas com a sua impossibilidade fértil. A impossibilidade de conhecer como um exercício tácito de reenunciação do real.

João Maria Gusmão e Pedro Paiva conduzem-nos assim de forma determinada até uma zona – a de Tarkovsky, certamente – onde a densa qualidade do pensamento se suporta numa lógica de intransigência com qualquer forma explicativa. A «Zona» de Tarkovsky e dos Strugatsky a que Gusmão e Paiva fazem constantemente referência, é um lugar encantado, uma singularidade assinalada pela sua integral separação com tudo o resto, como se se tratasse de um ponto de geometria improvável cujo acesso não poderá ser realizado senão através de um exercício de sujeição a uma outra forma de percepção ou reinscrição sensível. Se quisermos, Paiva e Gusmão reclamam um reencantamento do mundo que só poderá ser efectivamente convocado e reafirmado através de uma estratégia que, a sermos precisos, se deverá designar de «abisso-lógica». É a lógica do abismo ou do maelstrom que nos mostra os limites de um pensamento que se faz inscrever nesse apelo recursivo que vai do geral ao particular e do particular ao geral. Que nos mostra tais limites e que, sobretudo, se afirma como uma espécie de estratégia de ruptura ou, a usar um vocábulo mais adequado, de escape.

Em grande medida, Paivão e Gusmão não são apenas tributários de Tarkovsky – sendo «Stalker» um filme emblemático para aceder à eficácia abissológica, visto que se trata também de uma proclamação do reencantamento do mundo através de uma deriva que restitui o que supostamente terá sido eliminado/rasurado pela desmesura racionalista -, mas também de Houdini, o grande mestre do escape. A ilusão (melhor seria dizer, a prestidigitação) que o trabalho de Gusmão e Paiva exigem – e o seu labor e audácia técnica devem ser evidentemente entroncados aqui – afirma-se como o melhor método de restituição e de re-ligação do que está para lá das negras margens do pensamento ocidental desde o século XVII pelo menos, e que constantemente se parece encapalar de encontro à linha exterior desenhada pelos temíveis racionalistas. Entramos assim (e felizmente, porque se trata de uma arte feliz) na Zona ou, se quisermos usar uma expressão paródica que Paiva e Gusmão não desdenhariam certamente, entramos na twilight zone.

Mas do pensamento apenas? Não, porque, em grande medida, a estratégia de ruptura e escape, a estratégia abissológica, não tem por centro o humano, demasiadamente humano que o pensamento comporta. Aliás, não é a percepção ou a memória (só para usar dois dos seus avatares maiores) que se afirmam como tópicas intransigentemente necessárias. Aqui não há nem tópicas necessárias nem convenientes. A abissologia toma o pensamento como uma prática no encapelado mar, mas não como um elemento central ou axial desse mundo fluido e destituído de um fundamento em que todas as diferenças se tornam semelhanças, e toda a semelhança se torna figuração da morte entrópica: todo o pensamento – e tudo aquilo que, através dele, se conforma a uma ideia de humanidade – não é mais do que um aspecto de um mundo regulado pela processualidade contingente. Assim, o pensamento-no-naufrágio será a expressão adequada para perceber o bateau ivre que é a instalação da Cordoaria, uma máquina que sacrificará todos os sirgadores, isto é, todos aqueles que se encontram demasiadamente comprometidos com as aporias racionalistas ou mecanicistas.

E nada melhor do que invocar aqui Hans Blumenberg e o seu Naufrágio com espectador (1997) Um dos aspectos da «metaforalogia» de Blumenberg prende-se com a relevância que assume aí o «naufrágio» como metáfora da teoria. Em grande medida, toda a teoria faz supor o olhar distanciado que a contemplação – o espectáculo – do naufrágio reforça. Em tempos de espectáculo – assuma-se aqui uma concepção debordiana da teoria enquanto «espectáculo» -, Gusmão e Paiva parecem reivindicar uma acepção diversa de naufrágio: cada um de nós embarcou no bateau ivre – que absorveu água até à ebriedade e que, antes do fim, se abastece de singularidades -, cada um de nós está – sem possibilidade de resgate – em alto mar, e não no mundo climatizado da teoria-enquanto-espectáculo. Dir-se-ia que Gusmão e Paiva nos devolvem um mundo em que cada ser-para-a-morte se instala acentradamente na inumana fúria da tempestade. Uma nova teoria, pois: mais «realista», certamente: uma arte-ciência que é, afinal, a teoria do real (Veja-se a citação de Heidegger em Gusmão e Paiva, s/d, p. 3: «a ciência é a teoria do real»). E Gusmão e Paiva, apoiando-se em Badiou, acrescentam: «uma ‘ciência’ da multiplicidade inconsistente» (id., ibid.).

João Maria Gusmão & Pedro Paiva, The occult, 2007

João Maria Gusmão & Pedro Paiva, The occult, 2007

Estamos aqui perante um trabalho que procura reorganizar integralmente a experiência e o lugar que aí auferem as singularidades um dia tomadas, tão-só, como «ruído». Poder-se-ia dizer que territorializar e desterritorializar o ruído é, talvez, o objectivo maior desta procura da multiplicidade inconsistente. Paiva e Gusmão instalam-se na sinuosa dúvida que atravessa a aporia entre o particular e o geral que é, também, e de outro modo, a dúvida que permeia o um e o múltiplo. Como nos diz Michel Serres, «estamos tão pouco convencidos do um como do múltiplo», acrescentando: «Nunca tocámos em termos verdadeiramente indivisíveis, atómicos, últimos que não fossem eles mesmos, uma vez mais, compósitos». O que é irredutível afasta-se como a linha do horizonte. «A Razão faz uso dos conceitos, sob cujas unidades estão encapsuladas multiplicidades que surgem quase sempre altamente dispersas» (Michel Serres, 1995, p.3).  A abissologia aventura-se nestas multiplicidades revelando a profundidade ou densidade sem fundamento que enlaça o humano ao inumano.

O «indiscernível» é, como se sabe, e assumidamente uma das suas modalidades. Capta-se a natureza do abismo, isto é, aquilo que só por uma ultra-mediação poderá ser trazido à percepção. Um mundo real pautado por uma avassaladora escuridão de que a imagem do pesado escanfandrista trabalhando nos fundos oceânicos é o símile perfeito. As singularidades – o ruído – surgem assim na acepção de uma incomensurabilidade entre planos do real que não encontram uma stasis (uma estabilidade entrópica, fechada, e mortal). As multiplicidades traçam-se, fazem-se, como Deleuze sempre nos sugeriu. E traçam-se nesse plano infinitamente virtual que reúne o humano e o inumano. A abissologia propõe-se traçar, fazer multiplicidades, trazer à consideração a dinâmica das singularidades emergentes, explorar os intersticíos entre ciência e arte, chamando-nos também a atenção para aquilo que há de não integralmente descontínuo na história da ciência: momentos não kuhnianos onde o tempo fluido e a ausência de leis de causalidade histórica nos permitem glosar o mirífico pré-moderno na sua co-extensão com o moderno, ou assumir a relevância das transições e continuidades entre tempos estruturados aparentemente por uma lógica de linearidade e cumulatividade. Daí, talvez, o interesse de Gusmão e Paiva pelo mirífico do magnetismo ou pelo mírifico da primitividade, só para usar dois exemplos.

Se a densidade é convocada na ponderação da ontologia, a leveza é, se quisermos, uma possibilidade insistente, operacionalizada por vectores cujo trabalho de modulação é infatigavelmente identificado: o pensamento é não um espaço, mas uma força entre forças, não um lugar, mas um vector. A ontologia não é senão uma suspensão numa ordem vectorial que pode ser modelada, desenhada – a giz, talvez, como em «Primeiros desenhos abissológicos» –, e apagada em seguida pela exigência de uma reconfiguração móvel.

Bibliografia

Hans Blumenberg (1997) Shipwreck with spectatorparadigm for a metaphor for existence, Cambridge/Massachusetts, Londres, The MIT Press.

Gusmão, João Maria e Pedro Paiva  (s/d) «Para que haja questão: o (de)aparecer»,  in Eflúvio Magnético, 2/3, p. 29

Rimbaud, Arthur (1985) O barco bêbado, tr. de Pedro José Leal, Lisboa, Hiena Editora.

Serres, Michel (1995) Genesis, Ann Arbor, The University of Michigan Press.

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