Canção (St John Perse)

[«Canção» é o fragmento de abertura de Anabase de St.-John Perse (1887-1975). Foi publicado pela primeira vez em 1924. Terá sido aí que Alexis Leger assumiu o pseudónimo de St.-John Perse, que o irá acompanhar até ao fim. Após a publicação deste poema, Perse deixará de publicar durante vinte anos. A marca indelével de Anabase pode ser encontrada, em particular, em T.S. Eliot que traduziu admiravelmente o poema em 1930 em colaboração com o autor. Anabase, que segundo se diz, foi composto num templo abandonado perto de Pequim nos anos vinte (quando Alexis Leger se encontrava em serviço diplomático na região) é um dos grandes momentos da poesia ocidental. Eliot descreveu-o, no prefácio à sua tradução, como «uma série de imagens de migração, de conquista de vastos espaços desolados da Ásia, de destruição e fundação de cidades e civilizações de quaisquer raças ou épocas do Oriente antigo» (Eliot, 1959 [1931], p. 9). Lembro-me de o ter lido numa edição bilingue da velhinha faber and faber (St.-John Perse | T.S. Eliot) nos anos oitenta em Lisboa e de ter então traduzido a «Canção» de abertura, que existe como uma folha dactilografada à máquina e dobrada dentro do meu exemplar da preciosa edição inglesa de Anabase (ou Anabasis, a usar o título que Eliot lhe deu). Deixo-a aqui. Agrada-me o lado solene, virtuosístico e algo arcaizante da escrita deste enorme poeta de língua francesa do século XX. Foi-lhe justamente atribuído o Prémio Nobel em 1960.]

Sob as folhas de bronze um potro nasceu. Alguém depositou amargos frutos em nossas mãos. Estrangeiro. Que passou. Eis que chegam novas de outras províncias do meu agrado… «Eu vos saúdo, filha, sob a mais alta das árvores do ano.»

Pois que o Sol entra no signo do Leão e o Estrangeiro tem seu dedo na boca dos mortos. Estrangeiro. Que ri. E fala-nos de uma erva. Ah! das províncias sopram tantos ventos. Folguedos em nossos caminhos! alvoraçada trompa; regozijo de plumas, delícia da asa!… «Minha alma, grande rapariga, tiveste maneiras tuas que não as nossas.»

Sob as folhas de bronze um potro tinha nascido. Alguém depositou amargos frutos em nossas mãos. Estrangeiro. Que passou. Sob a árvore de bronze eis um grande ruído de vozes. Rosas, betume, dom do canto, em câmaras trovão e flautas! Ah! que folguedos em nossos caminhos, num ano tantas histórias, e o Estrangeiro com suas maneiras pelos caminhos da terra inteira… «Eu vos saúdo, filha, envolta no mais belo manto do ano.»

Bibliografia

Perse, St.-John (1959 [1931] Anabasis, Londres & Boston, faber and faber (tradução e prefácio de T. S. Eliot; inclui ainda uma bibliografia e prefácios de Valéry Larbaud, Hugo von Hofmannsthal, Giuseppe Ungaretti e Lucien Fabre).

St. John Perse

St.-John Perse

 

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