Chegámos depois do acontecido

Yves Marchand | Romain Meffre, The Ruins of Detroit
Yves Marchand | Romain Meffre, The Ruins of Detroit

Um mundo em escombros, onde a implicação alegórica se torna endémica, é também um mundo que responde quase visceralmente a tal implicação através de uma representação (aurática) de uma origem ou de um começo, através de um culto de ruínas, a parafrasear a expressão de Walter Benjamin (2004, p. 193). A sensibilidade moderna-cum-barroca é uma sensibilidade formada por um olhar diferido. Chegámos depois do acontecido – um mundo onde tudo é re-presentação – e contemplamos ruínas, contemplamos o resultado de forças irreversíveis que fazem da natureza um palco de combates impiedosos em nome de uma história secular. Uma natureza eviscerada, decomposta, híbrida, suja. Na transição do milénio e do século XX – o mais impiedoso dos séculos, como nos disse Camus – já não são as ruínas de civilizações mortas à la Piranesi ou as ruínas de igrejas à la Friedrich, mas as ruínas de instalações industriais abandonadas, as ruínas de usinas nucleares, as ruínas de silos militares, as ruínas de laboratórios, de hospitais, etc., que participam da retrofilia do presente (Endsor, 2005). Na sua ambiguidade constitutiva, as ruínas fazem apelo a um mundo que acabou e remetem-nos para um mundo que ainda não começou, que pode, aliás, não começar nunca. Ou seja, as ruínas prestam-se a um trabalho de luto – um jogo de luto – cuja eficácia depende da sua condição betwixt and between. Um mundo que pretende eliminar o informe mas que não reconhece ainda a forma que o deverá conduzir.

[Fragmento retirado de um ensaio longo «A explosão-catástrofe das imagens» – o meu ensaio em torno de Walter Benjamin – que será publicado proximamente num livro colectivo sobre o antigo Hospital-Colónia Rovisco Pais. O livro tem a chancela da Dafne, e darei notícia em breve do seu lançamento.]

Bibliografia

Benjamin, Walter (2004) Origem do drama trágico alemão, Lisboa, Assírio & Alvim.

Endsor, Tim  (2005) Industrial ruins: spaces, aesthetics and materiality, Oxford e Nova Iorque, Berg, 2005.

Só, na paisagem

BishBosch_png_630x463_q85

Plucking feathers from a swan song, canta Scott Walker. Quantas vezes fomos conduzidos até ao limite da música, até ao depois da música? Walker caminha só, na paisagem.

Vê se não bates com a cabeça dele

Enquanto se arrancam penas
de um canto de cisne,

a primavera poderá, com gentileza,
pressionar com os polegares
os teus olhos.

Enquanto se arrancam penas
de um canto de cisne,

uma teia de aranha derrete
dentro de um ventre.

Enquanto se arrancam penas
de um canto de cisne,

um incontinente
canta Scarpia.

Enquanto se arrancam penas
de um canto de cisne,

um exemplo mítico
de impulso erótico –

enquanto se arranca penas
de um canto de cisne,

– escorregar sob
um signo certeiro.

Enquanto se arrancam penas
de um canto de cisne,

rotíferos
juntam-se no
circuito das tripas.

Enquanto se arrancam penas
de um canto de cisne,

a merda poderá dar o nó
nos intestinos de Cristo.

Enquanto se arrancam penas
de um canto de cisne,

ser esmagado
de dentro para
fora.

Enquanto se arrancam penas
de um canto de cisne,

na neve
«Rummy» exibe
a sua baba
efeminada.

Enquanto se arrancam penas
de um canto de cisne.

uma minúscula risada
suja tudo aquilo
em que toca.

Enquanto se arrancam penas
de um canto de cisne,

a noite cessa de pingar
através das estrelas.

Enquanto se arrancam penas
de um canto de cisne,

quebrar o lençol
de jóias
de horizonte a horizonte.

Enquanto se arrancam penas
de um canto de cisne.

Here is a strange and bitter crop

Billie Holiday
Billie Holiday

É uma canção sobre a barbárie, mas é sobretudo uma canção de luto pelo humano. Esse luto está na voz de Billie Holiday, como nunca esteve na voz de ninguém, nem sequer  na voz de Robert Wyatt, que assina uma das mais belas versões. O poema da canção não é sequer exemplar. Algumas das imagens parecem-me mesmo óbvias, demasiado óbvias (senão mesmo forçadas ou artificiosas) para dizer o que a voz de Billie Holiday diz, como nenhuma voz antes, como nenhuma voz depois. Tentei uma tradução. Desisti. Escrevi depois um poema, como resposta. Há sempre um poema que responde. Tem de haver. Aí fica:

Estranho fruto é a morte
suportando-se, frágil,

por linha vegetal imperfeita,
na pesada árvore

que não vemos,
que não veremos,

que não queremos ver,
nunca, nunca.