Bárbara e Wittgenstein em Casablanca

Fotografia, 18-01-2011 - 19.53Estaríamos em Casablanca. O comboio azul pararia na estação. Entre as figuras no apeadeiro, reconheceríamos duas: a do homem curvado sob o peso das malas ou da vida; a da mulher de ar apressado cingindo o casaco de malha escura que parece fugir de todas os comboios parados, de todas as crianças paradas a perseguir o acontecido.
E aí estás tu Bárbara, miúda de oito anos: Pai, o que representa a imagem? O jogo de faz de conta, o modo como «representar» se define pelo movimento de mãos sobre a página do jornal, o desenho do sentido e do uso, o invisível das palavras ditas a explodir sobre o tapete do que não sabemos, como sementes.
Um dedo percorre a superfície de tinta, o inviolável da luz que os teus olhos desdobram.

[No aniversário da Bárbara, 26 de Outubro de 2013. Retirado de Luís Quintais, Depois da música, Lisboa, Tinta da China, 2013, p. 71]

Duarte

DuarteEm dias de chuva,
ele chegava a casa
com o jornal salpicado
debaixo do braço.

Eu lia The Avignon Quintet. –

Pena que tenha deixado
de ser monstruosa,
muita pena mesmo,
a literatura.

Ele abandonava o jornal
e o saco do pão
sobre a mesa da cozinha.

Eu lia alto:
This is the way my world ends,
not with a bang but a Werther.