A criação do mundo

L1999
Quando o meu olhar se cruza
com o desta mulher
que vem ver quem passa,
o que me fere
não é a funda dor dos seus olhos,
a agonia do rosto que implode,
o corpo inchado,
por acção da senilidade bloqueado.

O que me fere
é a entropia dos objectos que a rodeiam:
as paredes amortalhadas
pela respiração de todos os dias,
o frigorífico com mais de trinta anos
coberto de uso, de ferrugem,
a jarra, o azul ardente das suas flores,

o cromático reverso, a criação do mundo.

Lamento, Lisboa, Cotovia, 1999, p. 30.

Azagaia, Árvore, Sombra

IM1995

Há objectos que perseguem a nossa infância,
depois, vida fora, esquecem-se os seus mágicos nomes,
a sonhada utilidade que os anima.

Poderíamos pressenti-los dentro de nós,
e isso sucede, por instantes, quando o fundo que os obscurece
se ilumina de repente

e os distinguimos a contra-luz.
Silhuetas animam-se na memória. Uma breve,
quase acessória, viagem no tempo começa.

Em África, na casa onde nasci, e depois de casa em casa
– eram frequentes as mudanças –
o meu pai pendurava uma azagaia na parede.

Sempre a mesma azagaia. Era um objecto nobre.
Marcava um hábito guerreiro: imaginar que a sustinha sobre a cabeça,
que a arremessava longe, trespassando a sombra

da árvore que se erguia no quintal.
Trespassava a sombra e não a árvore, repare-se.
E então a sombra, sob o sortilégio do imaginado arremesso,

começava a retrair-se e a afilar-se. Desaparecia.
Com o desaparecimento da sombra
ficava apenas a árvore e a longa azagaia presa ao solo.

A sombra de uma árvore visita-me agora.
Vem nos meus sonhos recentes dizer-me que há um livro
nos sonhos, e que esse livro se escreve

com a linguagem crepuscular da memória.
Sei que se trata de uma sombra orfã.
Que se soltou das contingências de lugar e luz

para viajar no eterno. Sei agora que a substância da árvore
se aliou à substância da azagaia. Que ambas vibraram,
continuam a vibrar, juntas.

A Imprecisa Melancolia, Barcelona, Lumen, p. 14.

Agudíssimo acento

Cf., Ler, Dezembro de 2013, p. 20.

Li a resposta oficial do crítico que não é bem um crítico. Não há crítica literária nos jornais portugueses. Trata-se, tão-só, de um aviso aos incautos, afinal todos nós, sobretudo aqueles que escrevem e que ainda se iludem com a nobre ideia de uma comunidade por vir.

Dir-se-ia que JMS andou a ler António Guerreiro com algum proveito, e descobriu que vivemos em tempos pós-literários em que os críticos são simulacros e se limitam a escrever «recensões, notas de leitura, chamadas de atenção». E não se «aspira» a mais do que isso! É uma constatação da derrota ou da impotência. Porque tudo neste mundo é «imposto» e devemos, ordeiramente, aceitar, com complacência e boa disposição, aquilo que nos impõem.

O chefe manda e eu, de tomates entalados na manjedoura, como diria um crítico que não se furtava à escatologia (Jorge de Sena), respeito!

Talvez fizesse sentido voltar a esclarecer que não se trata de estrelas, caro JMS, mas da forma como se faz, da forma como se cita, da inexistência de um argumento, de uma ideia que mobilize a discussão e a leitura.

Talvez fizesse sentido dizer simplesmente que não se retalha um livro em mil fragmentos (como se se tivesse usado um picador de gelo) e, com esses bocados, se compõe uma «recensão».

Talvez valesse a pena acrescentar que a suposta polémica que aconteceu no meu mural do Facebook foi pública, e que os comentários, também eles no Facebook, de JMS & outros se encontram blindados na privacidade que o sistema ainda admite.

Talvez valesse a pena acrescentar ainda que a «escatologia» mal grafada não deverá ficar impune. E que a minha muito menos! Afinal sou tão educado que, da primeira vez que quis escrever a palavra «cu», tropecei na ortografia e escrevi «cú». Em homenagem a um «crítico» farei questão de continuar no futuro (e não deixará de haver ocasiões para isso) a ofender a ortografia, e a assumir esse agudíssimo acento.

LQ