Azagaia, Árvore, Sombra

IM1995

Há objectos que perseguem a nossa infância,
depois, vida fora, esquecem-se os seus mágicos nomes,
a sonhada utilidade que os anima.

Poderíamos pressenti-los dentro de nós,
e isso sucede, por instantes, quando o fundo que os obscurece
se ilumina de repente

e os distinguimos a contra-luz.
Silhuetas animam-se na memória. Uma breve,
quase acessória, viagem no tempo começa.

Em África, na casa onde nasci, e depois de casa em casa
– eram frequentes as mudanças –
o meu pai pendurava uma azagaia na parede.

Sempre a mesma azagaia. Era um objecto nobre.
Marcava um hábito guerreiro: imaginar que a sustinha sobre a cabeça,
que a arremessava longe, trespassando a sombra

da árvore que se erguia no quintal.
Trespassava a sombra e não a árvore, repare-se.
E então a sombra, sob o sortilégio do imaginado arremesso,

começava a retrair-se e a afilar-se. Desaparecia.
Com o desaparecimento da sombra
ficava apenas a árvore e a longa azagaia presa ao solo.

A sombra de uma árvore visita-me agora.
Vem nos meus sonhos recentes dizer-me que há um livro
nos sonhos, e que esse livro se escreve

com a linguagem crepuscular da memória.
Sei que se trata de uma sombra orfã.
Que se soltou das contingências de lugar e luz

para viajar no eterno. Sei agora que a substância da árvore
se aliou à substância da azagaia. Que ambas vibraram,
continuam a vibrar, juntas.

A Imprecisa Melancolia, Barcelona, Lumen, p. 14.

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