Siegfried Sassoon

Siegfried Sassoon (1886-1967) é um dos grandes poetas da guerra – da guerra como experiência limite e como experiência transfiguradora. No ano em que se comemora o centenário da Primeira Grande Guerra, proponho-me conduzir os eventuais leitores para o imaginário dos designados War Poets, onde se destaca, também, Wilfred Owen (1893-1918)

Siegfried Sassoon (1886-1967) é um dos exemplos maiores de uma enunciação e transfiguração de experiências de guerra. A sua produção poética inicial revela-nos a brutalidade e crueza da guerra, e os efeitos que ela produziu em muitos dos que a ela sobreviveram. Um exemplo claro dos efeitos traumáticos da Primeira Grande Guerra pode ser apreciado através de um dos seus poemas, «Repression of war experience» (1983, pp. 84-5), que aqui transcrevo na íntegra numa versão minha:

Agora acende as velas; uma; duas; há uma traça;
Que absurdas e indigentes elas são, enleando-se
E gloriosamente queimando as suas asas em líquida chama –
Não, não, não isso, – é mau pensar na guerra,
Quando pensamentos que amordaçaste todo o dia regressam para te
[apavorar;
E foi provado que os soldados não enlouquecem
A não ser que percam o controlo sobre feios pensamentos
Que os impelem a taramelar entre as árvores.

Agora acende o teu cachimbo; olha, que mão firme.
Respira fundo; pára de pensar; conta até quinze,
E és tão normal como a chuva….
Porque não choverá?…
Quem me dera que houvesse uma trovoada esta noite,
Com cântaros de chuva que inundassem a treva,
E fizessem as rosas inclinar os encharcados capítulos.

Livros; que agradável companhia eles são,
Permanecendo tão quietos e pacientes nas suas estantes,
Vestidos em castanho pálido, e em negro, e em branco, e em verde,
E em todas as espécies de cor. Qual deles lerás?
Vá lá; Oh lê algo; Eles são tão sábios.
Digo-te que toda a sabedoria do mundo
Se encontra à tua espera naquelas estantes; e porém
Tu sentas-te e róis as unhas, e deixas o teu cachimbo apagar-se,
E escutas o silêncio: no tecto
Há uma traça grande, atordoada, que ressalta e adeja;
E no irrespirável ar fora da casa
O jardim aguarda por algo que demora.
Deve haver multidões de fantasmas entre as árvores, –
Não os mortos em combate – esses estão em França –
Mas horríveis formas em sudários – homens velhos que morreram
De mortes naturais, lentas – homens velhos de almas feias
Que consumiram os seus corpos com obscenos pecados.
. . .
Estás calmo e tranquilo, em casa veraneando seguro;
Nunca pensarias que houvesse uma guerra eclodindo! …
Oh sim, pensarias… porquê, podes ouvir as armas.
Escuta! Thud, thud, thud, – brandamente… elas nunca cessam –
Aquelas sussurantes armas – Oh Cristo, quero ir lá fora
E gritar-lhes que parem – Estou a ficar louco;
Doido varrido por causa das armas.

Sassoon, nascido a 8 de Setembro de 1886 em Weirleigh (Kent), alistou-se a 3 de Agosto de 1914. A 16 de Abril de 1917, após se ter juntado ao Segundo Batalhão dos Royal Welch Fusiliers na frente de Somme, viria a ser ferido em combate. A 20 de Abril, é hospitalizado em Denmark Hill (Londres). Depois de um breve período de convalescença (12 de Maio a 4 de Junho de 1917) em Chapelwood Manor (Nutley, Sussex), Siegfried Sassoon apresentou-se, a 20 de Julho, a uma junta médica em Liverpool. Como escreve, num tom marcadamente irónico, no final do segundo volume de The complete memoirs of George Sherston, «foi decidido que eu sofria de shell shock» (1972, p. 514). Em Julho de 1917, Siegfried Sassoon partiu para o Hospital de Guerra de Craiglockhart, perto de Edimburgo, onde se tornou paciente do médico e antropólogo W.H.R. Rivers e onde conheceu o poeta Wilfred Owen. É nesse mês de Julho de 1917 que Sassoon escreve «Repression of war experience», poema que tem por título uma comunicação proferida por Rivers também em 1917. Sobre a sua experiência em Craiglockhart, Sassoon dar-nos-á o seguinte testemunho no segundo volume da sua trilogia:

«De dia, sentado numa sala soalheira, um homem podia discutir com o seu médico os seus sintomas psiconeuróticos, que podia diagnosticar fobias e conflitos e formulá-los em terminologia científica. Sonhos significativos podiam ser anotados, e Rivers podia tentar remover as repressões. Mas pela noite cada homem regressava ao seu sentenciado sector de uma Linha da Frente acometida de horror, onde o pânico e a debandada de alguma experiência medonha era revivida entre os rostos lívidos dos mortos. Nenhum médico poderia então salvá-lo, quando ele se tornava a vítima solitária dos seus delírios e desastres oníricos» (1972, p.557).

Independentemente da sua adequação clínica, a atribuição de um diagnóstico de shell shock está, em Sassoon, envolta numa atmosfera de considerações políticas várias. Sassoon, que em Junho de 1916 tinha sido condecorado com a Cruz Militar, havia avançado, em Julho de 1917, com a sua famosa recusa em voltar a servir o exército. Em «Finished with the war – a soldier’s declaration», Sassoon desafia explicitamente a autoridade militar: «Faço esta declaração como acto de desafio voluntário da autoridade militar, porque acredito que a guerra está a ser deliberadamente prolongada por aqueles que têm poder para acabar com ela» (cit. Graves 1960, p. 213). A sua presença numa junta médica, e a consequente decisão de que sofria de shell shock, ficaram a dever-se aos esforços de Robert Graves.

Graves esteve também na Primeira Grande Guerra, e foi um dos amigos mais próximos de Sassoon. Um dos aspectos que os une é, indubitavelmente, a poesia. Graves que ficou igualmente traumatizado – física e mentalmente – com as suas experiências da guerra, acreditava nos «poderes de cura da poesia e passou a olhar a poesia como “uma forma de psicoterapia”, um modo de cura homeopática» (Jackson 1989, p.154). Foi Graves que moveu as suas influências junto do ministério britânico à altura para que o amigo não fosse levado a tribunal marcial (ver, a este propósito, Graves 1960, pp. 214-17), e, dada a celeuma que a declaração causou, ao facto de se afigurar menos problemático para as autoridades inglesas categorizar-se Sassoon como um homem doente, pese embora o carácter amplamente problemático das nosologias psiquiátricas do tipo shell shock – para o War Office os danos causados à mente pela guerra, as «neuroses de guerra», dificilmente poderiam ser encarados como doenças, ou, e a usar as palavras de Sassoon: «Se as “neuroses de guerra” fossem indescriminadamente encorajadas, metade da força expedicionária poderia ficar doente» (1972, p.523).

A ironia de Sassoon quando nos diz que «foi decidido que», demonstra-nos a consciência aguda que o poeta e soldado inglês tinha deste estado de coisas, o que é reforçado pelos pontos de vista expressos por Sassoon na sua trilogia, e em particular num capítulo de Sherston’s progress dedicado exclusivamente à figura de Rivers (1972, pp. 517-57). (Remeto ainda o leitor interessado para o trabalho de ficção de Pat Barker, onde a relação entre Sassoon e Rivers é contemplada. Refiro-me a Regeneration trilogy [1992, 1994, 1996]).

shell shock, categoria que englobaria, no contexto da psiquiatria inglesa deste período, todos os distúrbios mentais induzidos por situações de guerra (Kucklick, 1991, p.165), independentemente da sua adequação nosológica e interpretativa, era, como o é hoje a Post-traumatic stress disorder e, em particular, o «stress de guerra», um idioma de sofrimento que extravasava em muito o seu alcance estritamente terapêutico.

E daí também as implicações políticas, sociais e económicas de que se revestiu o seu diagnóstico e tratamento, e que merecem ser comparadas às que rodeiam hoje o diagnóstico de Post-traumatic stress disorder (ver, e.g., Young, 1995). Implicações que podem ser apreciadas, por exemplo, pelo facto de terem passado pelos hospitais militares britânicos, durante a Primeira Grande Guerra, cerca de 80 000 homens diagnosticados com shell shock, e de, em 1939, o governo britânico ter gasto dois milhões de libras em atribuições compensatórias a ex-combatentes da Pimeira Grande Guerra vítimas de shell shock (ver Gersons & Carlier 1992:743).

Bibliografia

Barker, Pat, 1992 [1991], Regeneration, Harmondsworth, Penguin.

——————-, 1994 [1993], The eye in the door, Harmondsworth,
Penguin.

——————, 1996 [1995], The ghost road, Harmondsworth, Penguin.

Gersons, Berthold P.R. & Ingrid V. E. Carlier, 1992, «Post-traumatic
stress disorder: The history of a recent concept», British Journal of Psychiatry, 161, pp. 742-48.

Graves, Robert, 1960 [1929], Goodbye to all that, Harmondsworth, Penguin.

Jackson, Michael, 1989, Paths toward a clearing: radical empiricism and ethnographic inquiry, Bloomington & Indianapolis, Indiana University Press.

Kuklick, Henrika, 1993 [1991], The savage within: the social history of british anthropology, 1885-1945, Cambridge, Cambridge University Press.

Sassoon, Siegfried, 1972 [1939], The complete memoirs of George Sherston, Londres e Nova Iorque, faber.

————————, 1983, The war poems, Londres e Nova Iorque, faber.

Young, Allan, 1995, The harmony of illusions: inventing post-traumatic stress disorder, Princeton, Princeton University Press.

Uma polaroid

Duarte1997
Duarte

Após o abandono da casa,
sobraram-me os objectos
que deixaste ou esqueceste:
os velhos sapatos, a pasta
em que arquivavas
as tuas dívidas de anos,
o magoado crédito da tua ausência,

e a primeira polaroid:

frente ao branco que te serve de cenário,
o verde da planta alonga-se a teu lado –
«Não a deixes tocar o tecto,
Corta-lhe as hastes.»

Alguém morrerá depois do imenso trajecto.

De mãos nos bolsos,
preparas-te para
a inamovível mudez

e sorris para o espectáculo de ti.

Umbria, Guimarães, Pedra Formosa, 1999, p. 32.

Paper life

al bertoEm memória do meu vizinho Al Berto

Escrevia cartas, o modo restante de habitar a luz.
Sines era certamente um esquife. Mas também Lisboa.
Anónimos e mortais são agora os dias

no urbano quadrado em que o lembro
– Então vizinho, sempre leste o Michaux?
Ao meu encontro percorre, continua a percorrer

as áleas de chapéus de sol.
Levanto-me saudando-o. Fala-me da doença.
Dos inumeráveis projectos

que lhe tomam o tempo:
da casa arrumada pela última vez,
por transparente métrica de novo desenhada.

Ideias de ordem, valha-nos o sonho em perda
e depois o esquecimento
de uma rua periférica.

Amava a toponímia, e aí a tem,
toponímia de arrabalde, como sempre pretendera.
Melhor máscara será o pó sobre os livros acumulando-se.

Um homem arrepia-se de frio ao cair da tarde.
Leva as mãos aos bolsos e retira um gorro de lã.
De asas arruinadas, voa no éter

troçando da gravidade que o esmaga.

[Uma primeira versão deste poema foi publicada no livro Dez cartas para Al Berto, organizado e prefaciado por Joaquim Cardoso Dias (Vila Nova de Famalicão, Quasi, p. 35).]

Dois príncipes, dois exércitos, uma clareira

Umbria1999
Dois príncipes, dois exércitos convergem para uma clareira.
Encontram-se. Cumprimentam-se.
É uma teoria da vulnerabilidade
o que revela este painel de azulejos no qual ninguém repara.
Há um centro ocupado por dois homens.
Há os flancos e os demais guerreiros de intenções semelhantes
mas de porte diverso.
E tu um pouco afastada, atenta ao meu rosto
que se debruça sobre as narrativas
distraidamente construídas, aguardando
um sinal da minha atenção dispersa.
Sempre o drama do que se não tem,
e por trás de ti a imagem do que haveria de haver.
Vulneráveis e nobres senhores num painel de azulejos.
Reconhecem-se nos passos um do outro,
nos gestos que se sucedem um para o outro.
Reconhecem-se no modo como os homens que os seguem
se suspendem sob o poder dos símbolos.
Preparados para a mútua anulação,
observo o que tem lugar para lá de nós,
o que se situa atrás da imagem que celebrando o encontro
traz a promessa de um adeus: aproximo-me da clareira,
deixo-me envolver pelo seu imaginário fulgor.
Fecho os olhos, e não te oiço.
Sei que estás ali junto aos mistérios da despedida,
de memória fechada e vigilante.
Procuro ignorá-lo, esquecê-lo.
De olhos fechados, concentro-me
no fulgor de uma imagem que nunca o teve.
As figuras tornam-se imperceptíveis,
contemporâneas na morte que, entre nós, se anuncia.
Friamente, príncipes e exércitos afastam-se,
penetram na frondosa manta que lhes serve de moldura,
esse espaço feito de bosques escuros em que a luz
dificilmente encontra o seu rumo.
Não fosse a minha impossibilidade
em escutar-te, distraído pelo fúnebre espectáculo
de uma esperança que acaba no preciso momento
em que o último dos homens desaparece no horizonte negro
das árvores altas, e talvez ousasse atribuir-te
esta opacidade que desemboca no medo e na suspeição recíproca,
talvez ousasse culpar-te de tudo isto que termina no desenlace
de uma imagem onde, por breves segundos,
a invisibilidade se estilhaçou, se liquefez
na humidade das árvores que lhe servem de moldura.
Dois príncipes, súbditos da clareira, e os exércitos,
formas vagas de corpos tensos,
submeter-se-iam à vontade do silêncio,
não tivessem entretanto abandonado a clareira,
receosos do que se seguiria.

Umbria, Guimarães, Pedra Formosa, 1999, pp. 29-30.