Paper life

al bertoEm memória do meu vizinho Al Berto

Escrevia cartas, o modo restante de habitar a luz.
Sines era certamente um esquife. Mas também Lisboa.
Anónimos e mortais são agora os dias

no urbano quadrado em que o lembro
– Então vizinho, sempre leste o Michaux?
Ao meu encontro percorre, continua a percorrer

as áleas de chapéus de sol.
Levanto-me saudando-o. Fala-me da doença.
Dos inumeráveis projectos

que lhe tomam o tempo:
da casa arrumada pela última vez,
por transparente métrica de novo desenhada.

Ideias de ordem, valha-nos o sonho em perda
e depois o esquecimento
de uma rua periférica.

Amava a toponímia, e aí a tem,
toponímia de arrabalde, como sempre pretendera.
Melhor máscara será o pó sobre os livros acumulando-se.

Um homem arrepia-se de frio ao cair da tarde.
Leva as mãos aos bolsos e retira um gorro de lã.
De asas arruinadas, voa no éter

troçando da gravidade que o esmaga.

[Uma primeira versão deste poema foi publicada no livro Dez cartas para Al Berto, organizado e prefaciado por Joaquim Cardoso Dias (Vila Nova de Famalicão, Quasi, p. 35).]

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