Homenagem a Samuel Beckett | Juvenilia

Samuel Beckett por John Minihan

Then the true night, perilous too,but sweet to him who knows it, who can open to it like the flower to the sun, 
who himself is night, day and night. (Molloy)

1
não o outro lado do espelho
esta certeza porém
urbana vontade de uma mente à escala da cidade
dimensionada
a Linguagem ou a imagem primeira
roteiros quebrados em lustros de perfeição
para que vos quero imagens de antanho
a Revelação
não te salvarás não há quem se salve
a decadência da Linguagem levará à decadência da Cidade

2
de fragmentos te construo
escoar de lodos colmeias a deslumbrante serpente
ah que a noite não vem
tudo o que queiras mas não isso
possa eu acordar e saber pela sempre eterna luz
da manhã que não isso
pelos lábios que amparam a pureza das palavras
que não isso

3
com essa caligrafia de pã
de segredos fogo e morte
com essa arte entre os dedos não temas
de nós não ouses piedade
lembra-te dos castigos por infligir
quase a cumprir a loucura derradeira
acto vivo e soberano
a mentira e a verdade
ambas soberanamente farás eclodir sobre as nossas cabeças
depois da virtual agressão amarás melhor

4
saídas que dão para o vagar dos corpos
dos corpos objectos tragados pelo escuro
são vozes que cantam vozes que falham
necessário se torna que escutes para que o digas
ali à chegada das sombras nos sítios dos pórticos
as saídas e o estranho ódio
no murar do texto
ó alegria inaugural

5
algo mais
combatemos o silêncio de armas investidas
pela iracunda dor do grito e do silêncio
quase te esqueces
cada gesto de sacrificar o outro
permanecendo o afluxo do eu
de longe em longe
os mistérios das giesteiras
e dos pântanos
não
os sinais à tua passagem
não
porque este poema vibrante de recusas
consumiu o ardor com que mergulhas em subterrâneos
rubor da terra

6
à deriva por um labirinto de cães e homens
labirinto de paredes consumadas
um sonho afadigando-se dentro
a mágoa
estilhaçada mente dita
agrura
dissecada agrura no afago da memória
esperando o sonegar do vazio
da lucidez do vazio
quando indelevelmente o imprimias no sangue
e eles na ignorância do sangue
eles os que também esperavam
podias agora abandonar-te ao teu destino
podias descer mil vezes
mil vezes subir
a encosta do amor
e beijar os frutos sob os teus pés
irrompendo

7
o desejo apazigua a verdade de caçar
na mesma o latejar das veias
para que elas te anunciem
abre as veias ao mundo
abre

DN (Jovem), 30 de Janeiro de 1990

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