Uma selva dentro da selva: Gerald Edelman (1929-2014)

Gerald Edelman

Gerald Edelman

Eu era aluno do curso de Antropologia Social do ISCTE. Lembro-me de ter lido então uma entrevista com Gerald Edelman no Público (15 de Novembro de 1991). Foi um dos grandes encontros da minha vida intelectual. Edelman era tão inteligente e heterodoxo que quase se podia pressentir a inquietação dos entrevistadores (Ana Gerschenfeld e José Vítor Malheiros). Hoje soube que morreu aos 84 anos, no passado dia 17 de Maio, aquele que é seguramente um dos gigantes do nosso tempo. Abriu as portas do século XXI ao mostrar-nos como o cérebro é o objecto mais complexo que conhecemos: imprevisível, plástico, indeterminado, turbulento, caótico. Ao mostrar-nos como a «mente» só pode ser pensada adequadamente através dos trânsitos dinâmicos que se instalam entre meio, cérebro e corpo. Ao mostrar-nos como uma parte significativa da ciência cognitiva que tende a pensar a mente como um algoritmo poderá estar muito longe da verdade.

É em Edelman que encontramos uma ponte entre a neurobiologia, a psicologia, e a sociologia, que nos poderá fazer eventualmente integrar a cognição e a afecção.

Uma das mais importantes descobertas das ciências do cérebro é a extrema diversidade de potenciais padrões de disparos neuronais no cérebro. Os humanos possuem aproximadamente trinta biliões de células nervosas, um milhão de biliões de conexões, sendo o número de padrões potenciais de disparo maior que o número de partículas em todo o universo conhecido! Segundo Edelman, a aprendizagem é um processo de «selecção natural» que ocorre num contexto em que o número de padrões possíveis é virtualmente infinito. A sequência de desenvolvimento – a ontogénese – é o resultado quer do reforço de certos padrões de disparo através da experiência quer do enfraquecimento de outros padrões. A frase de Edelman enuncia-o muito claramente: «neurónios que disparam em conjunto ligam-se em conjunto»; ou, no original, «neurons that fire together wire together». (Gerald Edelman, 2006, p. 28)

O envolvimento do organismo com o meio não é afinal um processo de instrução, como crêem os cognitivistas, mas um processo darwiniano de selecção natural. Não vou entrar aqui em detalhes sobre o modo como isto é explicado, mas gostaria de reter uma das lições maiores da neurobiologia de Edelman.

Edelman admite, por exemplo, que tal como no plano neuronal o que está em jogo é um processo de aprendizagem que se funda na selecção e não na instrução, também na vida social toda a aprendizagem é, ela própria, um processo de selecção e não de instrução. Isto quer dizer que não é apenas a vida social que é uma selva; a própria vida do cérebro é também uma selva. Uma selva dentro de uma selva, se quisermos.

Edelman vem mostrar que mesmo que nos atenhamos tão-só ao funcionamento do cérebro, seguramente ficaremos desconcertados com a extrema indeterminação dos estados neuronais.

Na magnífica entrevista publicada no jornal Público em 1991 (e que constituiu uma quase epifania em termos pessoais para mim, um então jovem estudante de 23 anos), Edelman, na recusa frontal da associação entre o sistema cérebro-mente e um computador, diz-nos o seguinte:

Acontecem muitas coisas cujo sentido não percebemos. Querem um exemplo? Num restaurante de Nova Iorque, há um cientista insuportável sentado a uma mesa. O cientista acabou de comer uma sandes de fiambre, mas estava tão preocupado com a entrevista que dois jornalistas lhe iam fazer daí a meia hora, que se foi embora sem pagar. Uma das empregadas diz à outra: ‘A sandes de fiambre saiu sem pagar’. Isto chama-se polissemia. Contrariamente à sinonímia, que é o facto de várias palavras terem o mesmo significado, a polissemia é o facto de uma mesma palavra poder ter muitos significados diferentes – não necessariamente relacionados uns com os outros – que variam conforme o contexto em que a palavra é utilizada. (…) E essa é a propriedade mais apaixonante dos sistemas biológicos – o facto de nada ser determinado ‘a priori’. Mesmo que eu conhecesse todos os genes de um recém-nascido, não conseguiria saber qual vai ser o resultado. Os genes apenas constituem um conjunto de restrições, mas ninguém é capaz de predizer quais são os acontecimentos sobre os quais essas restrições irão actuar. (Ana Gerschenfeld e José Vítor Malheiros, «O cérebro é como uma selva», Público, fim de semana, sexta-feira, 15 de Novembro de 1991, p. 15)

E à observação dos entrevistadores de que o problema talvez resida na nossa incapacidade em ler toda a informação, Edelman responde:

Não. Lamento, mas não é isso. Somos justamente capazes de ler a informação toda. Essa é a grande tragédia da biologia, visto que levará muitos cientistas a cometerem muitos erros e a desperdiçarem muito dinheiro nos próximos dez anos. Podemos ler a informação toda, mas o problema é que haverá alturas em que cometeremos erros de leitura do ADN e nem sequer repararemos, porque não teremos formulado as perguntas importantes. É esse o problema: nunca haveremos de saber tudo, porque o conhecimento é uma coisa susceptível de ser corrigida, de mudar, porque podem acontecer coisas novas. (Id.)

E à pergunta «E o que é que acontece no cérebro, perante esse contexto em permanente mudança?, diz:

O cérebro também muda. O cérebro é muito mais parecido com uma selva – ou para dizer as coisas mais poeticamente, com um Jardim da Evolução – do que com uma central telefónica. O nosso cérebro, neste preciso instante, está a largar pequenas baforadas de óxido nítrico. O óxido nítrico é um gás extremamente tóxico – tão tóxico que uma parte num milhão bastaria para matar toda a gente que mora neste bairro. No entanto, o nosso cérebro fabrica-o e, quando o liberta, isso faz mudar, na vizinhança da zona atingida, a probabilidade de certas coisas acontecerem. E não posso dizer quais são exactamente essas coisas em cada caso individual, porque não conheço completamente a história de cada indivíduo. Apenas posso dar uma resposta grosseira: o cérebro faz comparações, selecciona coisas e vai mudando. É como se fosse uma selva e o ácido nítrico o grito de um macaco, ou um pássaro que desata a voar. E a ordem que reina na floresta vai mudando conforme estes acontecimentos. § O que é que tudo isso significa? Não sei, não sou um filósofo. Só sei que o processo resultante é mais parecido com a ordem que reina entre as espécies animais na Natureza do que com a lógica de um computador. Basta pensar nisso com um mínimo de honestidade: cada um de nós sabe que tem qualquer coisa de diferente dos outros, cada um de nós sabe que a sua história é única no mundo e que essa é a coisa mais importante que possuímos. (Id.)

Gilles Deleuze, o filósofo da complexidade que Edelman diz não ser, responderia a isto defendendo talvez que aquilo que está aqui em causa é a constante repetição da diferença, e que toda a cognição se sustenta afinal nesta permanente interacção – um agenciamento, para usar a expressão famosa de Deleuze – entre os sistemas dinâmicos mente-cérebro-corpo e a ecologia social em que evoluem os organismos.

Só um pensamento que se afirme como uma máquina de realizar conexões, que se disponha a ajustar contas com a complexidade, é que poderá responder eficazmente a este desafio.

Bibliografia:

Edelman, Gerald, Second nature: brain science and human knowledge, New Haven e Londres, 2006, Yale U.P.

Nota:

Este texto é uma adaptação de algumas passagens de um outro que publiquei há alguns anos. Ver Quintais, Luís, «A selva dentro da selva: porque é que as neurociências cognitivas não explicam a arte ou só a explicam parcialmente?», Nada, 14, 2010, pp. 37-43.

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