Monthly Archives: Junho 2014

A inútil poesia

Eu não vivo numa bolha de ar em Hartford. Como posso ser fiel aos fiéis poemas de Stevens sem trair esta cilada? Milosz sabe que a história é tudo o que temos e que as traições maiores são cometidas contra a história, mas também em nome dela. Como podemos nós recuperar o sopro que exaspera […]

Etnografia na catedral de Turing: reflexões sobre o arquivo, hoje

Falar de «arquivo» hoje reflecte, em grande medida, todo um conjunto de pressupostos em que se fez instalar o nosso entendimento do que é conhecer. Uma espécie de normatividade pós-moderna diz-nos, afinal, o seguinte: o «arquivo» é, de acordo com a sua explicitação foucauldiana, um complexo volume de loci discursivos que criam «coisas» e «eventos» […]

Roubar

Tivesse de roubar, assim roubaria: palavras, uma caixa negra oferecida por alguém que amei, e que, hoje, tantos anos depois, aprendi a abrir.

Rua Castilho

Eu compreendia o poder da toponímia. Rua Castilho, escrevia-se, e o vírus da linguagem percorria o labirinto da história e da circunstância que fazia determinar-lhe os sentidos. Castilho fora um poeta cego envolvido em polémicas cuja esterilidade revelava o perfil de homens que juram mudar os seus tempos por reacção ao tempo de outros homens. […]

Lixeiras e bancos

A liberdade, ninguém a quer. Olhar para a luz de frente, procurar o ponto mais escuro que se assemelha a um leque, a uma floresta negociando sombras. O lixo e o dinheiro são a única estação onde se pára e se contempla a história desfigurada. Alguém acaba de morrer e no seu cérebro corre um […]

O sonho de Santa Úrsula (Carpaccio)

Disse-te que não seria capaz de escrever um poema de amor. Como representar a luz quando essa luz é o véu que recobre o sonho de outrém? Assim é aquilo que a palavra amor diz, aponta, descreve em seu secreto centro. Íntimo lugar onde um anjo se abeira da tua morte, da minha morte, e […]

Apócrifo

O deserto é uma cama. Uma Ítaca no caminho árido. (Hôpital de la Conception, Marselha, 9 de Novembro de 1891.)