Rua Castilho

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Eu compreendia o poder da toponímia. Rua Castilho, escrevia-se, e o vírus da linguagem percorria o labirinto da história e da circunstância que fazia determinar-lhe os sentidos. Castilho fora um poeta cego envolvido em polémicas cuja esterilidade revelava o perfil de homens que juram mudar os seus tempos por reacção ao tempo de outros homens. Hoje, porém, é a figura de um poeta cego o que faz reverberar os códigos extremos, é o que faz desfilar a tradição e o que interpela o vazio que a tradição nos legou. A impressão solene e dolorosa de que chegados aqui não nos resta senão o medo ou a rasura, e que o caminho da rasura é o mais sedutor. Que tudo o resto é habilidade, técnica, ironia. Como são horrorosos os cegos porque olham para o que arde no insuspeito de uma paisagem onde nenhuma luz se escapa de tão densa. Mas Castilho é apenas uma pobre metáfora. Nada na sua habilidade soube destruir os seus próprios desígnios. Com a poesia sentimo-nos livres mesmo sob o advento das formas. Talvez Castilho se esquecesse que a solidão face ao arbítrio das ruas que se cruzam e apelam a nomes que se apagam nos cadernos do futuro nos reserva mais aventura que o sacramento entre homens de letras presos às sua ilusória relevância. O que se apaga deixa um vestígio de treva dentro de si e um cheiro a madeira ou a terra calcinada que nos persegue. A imoral, porque tão vaga, toponímia no coração de uma cidade detém mais lições que o proselitismo dos inflamados versos.

(Duelo, Lisboa, Cotovia, p. 45)

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