Nina Cassian: uma ficção

CASSIAN

Cassian escrevia sátiras cujo recorte político não escapava aos censores. Durante esse tempo breve em que visitava o outro lado do mundo (aí onde haveria de viver numa discreta condição de remorso), um amigo fora capturado pela polícia do já decrépito ditador. As páginas do diário continham transcrições dos versos onde a mordacidade deveria ter sido mantida sob reserva. Alheias à escrita que conduz ao compromisso, as palavras submeter-se-iam a uma voz anónima e colectiva. Mas a fraqueza de quem cede ao transporte da duração para exemplo de gerações, exige sempre uma barragem caligráfica. O amigo foi torturado até à morte. A casa de Cassian foi revistada. Os seus livros banidos. No outro lado do mundo, ela permaneceu. Entre manifestações públicas acerca da intransigência da palavra, da livre vontade que a anima, da justeza dos seus desígnios, do que há-de salvar, Cassian escuta ainda a voz do amigo agitando sombras num muro de jardim.

Duelo, Lisboa, Cotovia, 2004, p. 88.

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