Afirmação de um mundo: sobre poesia e identidade ameaçada

Para a minha querida amiga Inez

A montante está a identidade da poesia, não a identidade de um povo.

De que país faz parte aquele que talvez não seja cidadão de nenhuma comunidade, como o filósofo de Wittgenstein?

Sempre acreditei que escrever poesia era desafiar o sentido e o som do mundo num único gesto preciso.

Fazê-lo é aproximar-nos não de uma experiência original, que não faz parte do meu conjunto privilegiado de crenças, mas de uma possibilidade de interferência.

Interferir nesse jogo de tensões entre som e sentido, fazê-lo porém sem aviso, sem licença, sem reverência à tradição sequer, pese embora o peso que a tradição tem no que fazemos, pese embora a ambição desmedida de alguém que se pretende furtar ao nó cego da tradição.

De resto, todos os poemas são políticos. E todos os poemas mobilizam o colectivo. Então o que há de identidade nos poemas que não a identidade profunda desse jogo de som e sentido? Muito pouco.

Mas nesse pouco pode haver um mundo.

Quero com isto dizer que a poesia pode ter por alcance a afirmação de um mundo. E quando é que tal afirmação se torna decisiva e parte considerável do jogo de linguagem da poesia? Quando esse mundo é ameaçado.

Sempre me pareceu postiça a afirmação identitária fora dessa procura de resposta (e de resistência) a uma ameaça bem real. Todos os poetas que se assumiram como criadores de uma identidade colectiva, de um povo, falharam os seus propósitos, e talvez tenham traído a urgência e a necessidade de quem escreve sem alternativa.

Qualquer nota biográfica de um poeta vos dirá.

Assim, por exemplo, podia contar-vos que Edmund Jabès nasceu em 1912 no Cairo e que cresceu entre a comunidade de falantes da língua francesa do Cairo. Após a Guerra do Suez de 1956, Jabès é forçado a abandonar o Egipto. Em França irá então estabelecer-se, vivendo aí, em condição de exílio, até ao fim dos seus dias. Até 1956, Jabès, amigo de Max Jacob, Paul Éluard e René Char, era um poeta de reputação sólida, ainda que pouco conhecido em França. A partir daquela data, o autor de Je bâtis ma demeure (1959) torna-se outro. O poeta, por um acidente histórico, por um deslocamento contingente, assume a condição judaica como sua. Jabès torna-se o Estrangeiro, numa súbita e, desde logo, permanente afirmação de exílio que haveria de marcar toda a sua escrita. Escreve a partir daí o que poderá ser descrito como um texto contínuo em que o tema não é senão o da identidade profunda entre a escrita e essa condição indelével de judeu errante. Paul Auster diz-nos que Jabès, em Paris, se irá concentrar nos grandes textos judaicos: o Talmud, a Kabbala. Afirmará através deles, não os preceitos do judaísmo, mas os vínculos com a história e com o pensamento judaicos. E mais do que a Torá, serão os comentários e escritos rabínicos da Diáspora que merecerão a atenção do poeta, ao ponto de entender esses textos como o aspecto central da identidade judaica, ou, como escreve Auster, «um modo de sobrevivência»:

No longo intervalo entre o exílio e a vinda do Messias, o povo de Deus tornara-se o povo do Livro. Para Jabès, isto significava que o Livro tinha assumido todo o peso e importância de uma pátria. (Auster, 1990, p. 184)

Edmond Jabès

Edmond Jabès

A pátria dos judeus é um texto sagrado e infinito, um texto que o poeta francês se propôs continuar em exegese ilimitada. Jabès descobre-se afinal como escritor através de um gesto (preciso, único) de enunciação dessa morada que é o Livro. Mas nada disto lhe teria sido dado sem o imperativo de uma ameaça, de um duro golpe do destino. Como dirá Jabès a Auster:

[O] livro tornou-se o meu verdadeiro lugar… na prática o meu único lugar. Esta ideia tornou-se muito importante para mim, a tal ponto, de facto, que a condição de ser escritor foi sendo, para mim, pouco a pouco, quase a mesma que a condição de ser judeu. (Idem, p. 194)

Ou seja, em Jabès nada há de postiço na identificação profunda entre a condição de ser poeta e a condição de ser parte de um colectivo (o povo judeu).

Uma singularidade, dir-me-ão, e eu respondo com outra singualridade ainda.

A do poeta irlandês Seamus Heaney, falecido em finais de Agosto do ano de 2013. Heaney escreveu sempre a partir de uma encruzilhada de identidades que destroem qualquer imagem óbvia do que pode ser um poeta político. Porém, trata-se de um dos grandes poetas políticos que conheço. Toda a sua escrita é afinal uma afirmação de que o rigor e a fidelidade de propósitos para com a poesia é a única pátria do poeta. Tudo isto acontece numa atmosfera de urgência e necessidade que lhe foi dada pela sua biografia: nasceu em Abril de 1939 na Irlanda do Norte, aí cresceu, o que faria dele um cidadão britânico; não convém, aliás, esquecer que publicou pela primeira vez em Londres e não em Dublin. Porém, Heaney era também um católico da Irlanda do Norte, logo um representante de uma minoria com os olhos postos no sul e na República. (Ver, e.g., Morrison, 1982, p. 14) Para este nativo de Mossbawn, County Derry, Irlanda do Norte, a palavra Mossbawn revela essa fractura de identidade que faz opor a «influência inglesa» à «sedução da experiência nativa» irlandesa:

A nossa quinta chamava-se Mossbawn. Moss, uma palavra escocesa trazida provavelmente para o Uster pelos primeiros agricultores, e bawn, o nome que os colonos ingleses deram às suas fazendas fortificadas. Mossbawn, a casa do fazendeiro no bog [turfeira]. Porém, apesar desta designação topográfica, nós pronunciávamos Moss ban, e bán é a palavra gaélica para branco. Assim, não poderá a coisa significar o musgo branco, o musgo de uma região de turfeiras em algodão [the moss of bog-cotton]? Nas sílabas da minha casa, eu vejo uma metáfora da cultura dividida do Ulster. (Heaney, 1980, p. 35)

Ambivalência, contraste, hibridismo, tudo isto encontramos em Seamus Heaney. Onde está a identidade profunda do poeta senão nesta aporia de recorte improvável?

Seamus Heaney

Seamus Heaney

A mesma urgência, a mesma invenção da circunstância, podemos descobri-la no modo como o poeta respondeu à história de terror e violência que agitou a Irlanda do Norte. Heaney escreveu sobre os acontecimentos que marcaram violentamente o território, e a sua poesia representou sempre um esforço de descoberta de uma moldura onde se podem escutar as heterogéneas vozes da sua educação. (Ver, e.g., idem, ibidem)

Porém, soube cultivar, igualmente, uma profunda suspeita em relação ao papel interventivo da poesia, defendendo o direito do poeta em manter-se num tom privado e apolítico. Ao longo do seu percurso, uns consideraram notável o facto de permanecer afastado das arenas políticas, outros aplaudiram a sua participação. Alguns acusaram-no de não se ter manifestado como um inequívoco defensor das aspirações republicanas, outros, ainda, de não recusar, de maneira decidida, as acções do IRA. (Ver, e.g., Morrison, op. cit., p. 16)

Mais uma vez, o que encontramos neste poeta é uma certa intansigência com soluções identitárias postiças.

A pàtria de Jabès e de Heaney estará porventura no modo como souberam ambos ser fiéis à sua experiência história, ainda que de formas inequivocamente diferentes. Essa experiência histórica exige porventura uma política da linguagem ou da língua.

A célebre frase-adágio de Fernando Pessoa-Bernardo Soares que nos diz que a pátria é a língua, não reafirma senão essa intransigência.

Assumi-la é o gesto politicamente mais severo que conheço, e nada melhor do que recorrer às palavras de Auden para o dizer ainda com mais clareza:

O propagandista, seja ele moral ou político, reclama que o escritor deve usar o seu poder sobre as palavras para persuadir as pessoas para um particular rumo de acção, em vez de tocar violino enquanto Roma arde. Mas a poesia não tem a ver com dizer às pessoas o que fazer, mas com o ampliar do nosso conhecimento do bem e do mal, tornando talvez a necessidade da acção mais urgente e a sua natureza mais clara, mas conduzindo-nos apenas até onde nos é possível fazer uma escolha racional e moral. (Cit. Morrison, op. cit., p. 52)

A identidade de um povo poderá ser assim um lugar imaginário onde melhores escolhas se fazem porque escutámos, com mais clareza e atenção, as vozes que moldam a nossa experiência.

Os poetas não escolhem por nós, seus leitores, evidentemente.

Bibliografia

Auster, Paul, Ground work: selected poems and essays 1970-1979, Londres & Boston, faber & faber, 1990.

Heaney, Seamus, Preoccupations: selected prose 1968-1978, Londres & Boston, faber & faber, 1980.

Morrison, Blake, Seamus Heaney, Londres & Nova Iorque, Methuen, 1982.

[Texto lido em voz alta em Macau no dia 9 Setembro de 2013 no II Encontro de Poetas Chineses e Lusófonos.]

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