O vidro, II, Ecolalia, p. 63

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Como chegámos a este lugar? A guerra deflagrava em todas as regiões deste mapa que nos iria desenhar, a nós, ponto a ponto, semelhança a semelhança. Famílias reuniam bagagens, despediam criados, fugiam apavoradas por estradas tomadas de assalto pela vegetação densa. Impropriedade do medo, negras margens do remorso. Rompiam-se sacos placentários, criaturas atiradas para a rua do sem-regresso berravam a sua inviolável linguagem, precipitavam-se de encontro ao muro denso da história, exigiam um nome, um símbolo apodrecendo na eleição de um cacifo, uma caixa onde depositariam a sua fragmentada posse, o seu saque.

O vidro, Assírio & Alvim, p. 63

Depois da música

1507-1Depois da música, a poesia será tingida por inegociáveis medos. Debruçou-se sobre a mesa, sobre o arquivo, sobre o mapa da sua morte, escutou o rumor de um mar espesso, sem mecânica. Saiu pela porta sem porta da história e voltou ao terreno da biografia. «A música acabou», escreveu, «a história jaz sepultada, sem herói civilizador». Tudo agoniza, agonizará a partir desse ontem. Um plasma queima o sangue por dentro, e é suja a noite, suja de um azul ameaçador. Debruçou-se sobre a mesa. Os prédios estremeciam, como uma pele estremecente. A mesa era negra, como fora o quadro riscado. Dedicado, perseguia um desígnio distante, talvez apagado no chão móvel da página.

Depois da música, Tinta da China, 2013, p.8

III

Riscava a palavra (2010)Acreditámos que o poço era inexorável,
que essa água haveria de nos dessedentar sempre.

Afinal, éramos incapazes de ver, presos
a uma cegueira armadilhada.

Tudo era repetição, mas repetição para lá do tempo
que nos fora dado viver. De resto, poucas coisas

iriam ser repetidas ainda no tempo que era nosso.
Duas vezes a memória de dedos que se convertem

à espessura da água. Uma vez repetida a lição
do vazio no desmedido território junto à sombra abandonada.

Uma vez repetida a abrasiva velocidade de um deserto.
Somos ilusão e carne, e a violência

do outro lado da fronteira imagina-nos,
e sem assentimento, nós vamos.

Riscava a palavra dor no quadro negro, Livros Cotovia, 2010, p. 11.

Subjectivas mesas (sobre Wallace Stevens)

Mais espesso que a água (2008)É com uma estranha malícia
que distorço o mundo.

Assim se revigora o opaco
e a possibilidade de invenção, ainda.

O cimento é o tonal modo
de nos agarrar às significativas paisagens
a ocidente.

Dobram-se como árvores, as frases,
sob o vento que veio do nada.
Asas destroem a insaciada ordem
que nos governa, a pólis de anátema
que se instala no texto.

Vejamos: a cidade começa aqui
nas ásperas figuras do entardecer.
Descrevo o que flutua
neste espaço, a infigurável

destreza moderna trucidando
com dedos de morte
os acantos e as cicutas

que só existem em reais palavras
como subjectivas mesas
sobre as quais me desloco,
velozmente.

Mais espesso que a água, Livros Cotovia, 2008, pp. 125-6.

Melancólico até ao osso

長谷川等伯 (Hasegawa Tōhaku, 1539–1610)
長谷川等伯 (Hasegawa Tōhaku, 1539–1610)

Alguém me visita. Uma sombra. O som de um ramo de árvore batendo na superfície vidrada do insólito. Estou só. A amizade é uma dança ou um poço. Escuto a sua voz, embriago-me no tecido da percepção pretérita. Sonho-me à mesa do que fui. Lábios tocam a minha face. Abro uma caixa cuja transparência é um engano, um embuste. Dentro dela uma animal feroz, couraçado para a inquietude da morte que virá. Sou um animal desenhado a tinta-da-china na tela do logro. Um animal de partes, um padrão de movimentos. Um animal melancólico até ao osso.
Gosto das descrições que me elegem provisório e que se substituirão à minha presença de homem perigosamente inocente.

Canto onde, Lisboa, Cotovia, p. 102, 2006.