Monthly Archives: Agosto 2014

O vidro, II, Ecolalia, p. 63

Como chegámos a este lugar? A guerra deflagrava em todas as regiões deste mapa que nos iria desenhar, a nós, ponto a ponto, semelhança a semelhança. Famílias reuniam bagagens, despediam criados, fugiam apavoradas por estradas tomadas de assalto pela vegetação densa. Impropriedade do medo, negras margens do remorso. Rompiam-se sacos placentários, criaturas atiradas para a […]

Depois da música

Depois da música, a poesia será tingida por inegociáveis medos. Debruçou-se sobre a mesa, sobre o arquivo, sobre o mapa da sua morte, escutou o rumor de um mar espesso, sem mecânica. Saiu pela porta sem porta da história e voltou ao terreno da biografia. «A música acabou», escreveu, «a história jaz sepultada, sem herói […]

III

Acreditámos que o poço era inexorável, que essa água haveria de nos dessedentar sempre. Afinal, éramos incapazes de ver, presos a uma cegueira armadilhada. Tudo era repetição, mas repetição para lá do tempo que nos fora dado viver. De resto, poucas coisas iriam ser repetidas ainda no tempo que era nosso. Duas vezes a memória […]

Subjectivas mesas (sobre Wallace Stevens)

É com uma estranha malícia que distorço o mundo. Assim se revigora o opaco e a possibilidade de invenção, ainda. O cimento é o tonal modo de nos agarrar às significativas paisagens a ocidente. Dobram-se como árvores, as frases, sob o vento que veio do nada. Asas destroem a insaciada ordem que nos governa, a […]

Melancólico até ao osso

Alguém me visita. Uma sombra. O som de um ramo de árvore batendo na superfície vidrada do insólito. Estou só. A amizade é uma dança ou um poço. Escuto a sua voz, embriago-me no tecido da percepção pretérita. Sonho-me à mesa do que fui. Lábios tocam a minha face. Abro uma caixa cuja transparência é […]