Melancólico até ao osso

長谷川等伯 (Hasegawa Tōhaku, 1539–1610)

長谷川等伯 (Hasegawa Tōhaku, 1539–1610)

Alguém me visita. Uma sombra. O som de um ramo de árvore batendo na superfície vidrada do insólito. Estou só. A amizade é uma dança ou um poço. Escuto a sua voz, embriago-me no tecido da percepção pretérita. Sonho-me à mesa do que fui. Lábios tocam a minha face. Abro uma caixa cuja transparência é um engano, um embuste. Dentro dela uma animal feroz, couraçado para a inquietude da morte que virá. Sou um animal desenhado a tinta-da-china na tela do logro. Um animal de partes, um padrão de movimentos. Um animal melancólico até ao osso.
Gosto das descrições que me elegem provisório e que se substituirão à minha presença de homem perigosamente inocente.

Canto onde, Lisboa, Cotovia, p. 102, 2006.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: