III

Riscava a palavra (2010)Acreditámos que o poço era inexorável,
que essa água haveria de nos dessedentar sempre.

Afinal, éramos incapazes de ver, presos
a uma cegueira armadilhada.

Tudo era repetição, mas repetição para lá do tempo
que nos fora dado viver. De resto, poucas coisas

iriam ser repetidas ainda no tempo que era nosso.
Duas vezes a memória de dedos que se convertem

à espessura da água. Uma vez repetida a lição
do vazio no desmedido território junto à sombra abandonada.

Uma vez repetida a abrasiva velocidade de um deserto.
Somos ilusão e carne, e a violência

do outro lado da fronteira imagina-nos,
e sem assentimento, nós vamos.

Riscava a palavra dor no quadro negro, Livros Cotovia, 2010, p. 11.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: