Uma metafísica secular

Portrait of Wallace Stevens
Poetry is the subject of the poem,
From this the poem issues and

To this returns.

Stevens, «The Man With the Blue Guitar», xxii

A poética da poesia será, a meu ver, uma expressão flagrantemente moderna, no sentido em que a modernidade é intensificação reflexiva, desdobramento, jogo e ironia, espelho sobre espelho, máscara sobre máscara, dramática afirmação de que realidade e imaginação se afirmam num plano de continuidades e contiguidades em que uma e outra se alimentam recíproca e dinamicamente sem que nos seja possível ponderá-las por exclusão, realidade ou imaginação. Nunca a tomada de consciência disto se tornou tão aguda como durante o século XX. E essa tomada de consciência é transversal à filosofia e à literatura. A poesia reclama-a. Ela torna-se poesia da poesia, e o que em si sente está pensando, mesmo quando nos diz ou pretende dizer que nos devemos concentrar na experiência ou no seu vestígio, isto é, na dureza de um mundo não mediado que assoma nos interstícios da palavra. Proponho-me aqui reflectir sobre isto à luz de um poeta que é um exemplo canónico desta intensificação reflexiva.
Wallace Stevens (1879-1955) encarna exemplarmente o drama da linguagem que haveria de atravessar o século XX, deixando-nos numa encruzilhada da qual talvez não haja solução à vista. A sua escrita é o produto de uma tensão constante entre imaginação e realidade.
Sabemos como os modernos, procurando expurgar a subjectividade do poema, procurando refazer o navio Argos da linguagem poética através de uma reflexividade e de uma distância cuja intensidade não encontra precedente apreciável, nos deixaram perante a impossibilidade em considerarmos a linguagem na sua pura referencialidade. A linguagem não é espelho do mundo. A linguagem é mundo. Com ela não nos limitamos a exercer a profissão de fé que consiste na apropriação semântica do que nos rodeia sob o nome de descrição. A poesia nunca é descrição (ainda que ela mantenha um flirt irónico com a descrição). Foram os modernos que nos permitiram compreender isto através de uma prática que se ajusta àquilo que a filosofia da linguagem irá, também ela, reiterar, sobretudo a partir da suspeita nietzscheniana em relação à verdade que a linguagem encerra, ou, de outro modo, e a usar uma expressão que se tornou canónica nas últimas décadas do século XX, a partir do momento em que passámos a recusar a comensurabilidade tácita entre linguagem e verdade.
Stevens é também um poeta moderno, no sentido em que interroga, através de um estratégia elíptica, esta conturbada tensão entre linguagem e verdade, entre poesia e verdade, em suma, e a usar a matriz vocabular mais constante na sua produção poética e ensaística, entre imaginação e realidade.
Para Stevens a poesia é o princípio sem o qual o poema não poderia acontecer, e o princípio através do qual a linguagem se medita e se sonha. Em O Homem da Guitarra Azul & Outros Poemas (1937), e sobretudo no poema «O Homem da Guitarra Azul», vários são os elementos que nos sugerem esta inflexão reflexiva e onírica que a linguagem assume ao longo do seu percurso. Estamos perante uma concepção do poema em que este provém de algo que o excede, e que ele, na sua dimensão artefactual e linguística, não espelha senão de forma indirecta. Melhor seria dizer que o poema refrata a poesia, que ele é uma modalidade do mundo e da experiência do mundo.
A poesia não é, para Stevens, a realidade, sequer a imaginação, ou esse «objecto» a que chamamos de poema. A poesia é uma meta-processualidade na qual se articulam realidade e imaginação. A poesia é um princípio holístico onde realidade e imaginação ganham sentido, mesmo que esse sentido seja, também ele, provisório. Dir-se-ia que há aqui uma cosmologia cuja exegese é improvável, já que Stevens se furta sempre, através de uma arte de prestidigitação sem paralelo na literatura de expressão anglo-saxónica do século XX, a quaisquer exercícios de interpretação final. Ele recusa-se a definir poesia, sem deixar, porém, de se confrontar com o problema. Por exemplo, explicita-o em The Necessary Angel de um modo que se me afigura, hoje, incontornável, dada a lucidez e humildade com que o faz. Assumindo a impossibilidade de definição, ele fala-nos aí, seguindo Shelley, de uma «faculdade» ou, adiante, recusando a ideia de se estar perante uma substância (uma espécie de essência que aguarda a intervenção iluminada do poeta para ser identificada), diz-nos tratar-se de «um processo da personalidade do poeta» que, em todo o caso, não pode ser atribuído ao poeta, à sua subjectividade, senão de forma indirecta. Mas sem a personalidade do poeta (sem esta relação indirecta com a sua personalidade), avisa-nos Stevens, não pode haver poesia, o que vem comprometer qualquer definição. Como virá ele a escrever em «Adagia», as «definições são relativas», e a «noção de absolutos é relativa». Como virá ele a escrever no mesmo lugar, «o poeta é o sacerdote do invisível».
O que interessa fundamentalmente a Stevens é a poesia e não o poema, ousaria afirmar. Ou melhor o que interessa a Stevens é esse momento, essa dobra no tempo, em que o poema é o vestígio de um deslocamento no interior da meta-processualidade a que ele chama de poesia, momento em que a imaginação parece sobrepor-se à realidade. A poesia é o princípio cosmológico (mas também o princípio fenomenológico já que estamos perante um aspecto da experiência humana) sem qual o poema não seria possível. E o poema ocorre quando a realidade se suspende, sob efeito de uma ausência que ele explicita, dando lugar à imaginação e aos seus sortilégios, ainda que essa emergência da imaginação seja apenas o produto de uma contingente assimetria entre realidade e imaginação que ocorre no tecido da experiência.
Para Stevens, a realidade ausenta-se para dar lugar à imaginação, mas realidade e imaginação, num contraponto cego (cujo desígnio último se afigura intratável), oscilam implicando-se uma na outra. Ou seja, as ordens da realidade e as ordens da imaginação assentam num tempo cíclico, num eterno retorno. Estamos perante uma cosmologia in the making que faz apelo a um fluxo em que caos e ordem se qualificam e metamorfoseiam sem cessar, e sem cessar porque a experiência humana se funda na mais pura contingência, na sua abertura ao que lhe escapa. O poeta é aquele que parece convocar habilmente esta abertura e a consciência desta abertura para o território da linguagem, ou seja, para o território do sentido. Sem realidade não há imaginação, sem imaginação a realidade é somente «vácuo», como escreve ele nos seus «Adagia». De outro modo, a poesia é sentido. De outro modo ainda, a questão mortal é o sentido e não a sujeição cega a um dos termos da equação «realidade-imaginação».
Stevens é assim o mais estranho dos poetas modernos. Ele faz da prática poética um exercício especular ou reflexivo (que reorienta intencionalmente a experiência de fragmentação moderna, dotando-a de um holismo que lhe é alheio), mas, em simultâneo, ele faz outra coisa: destrói qualquer ilusão de rigoroso controlo dos modos de fazer mundos. Stevens sabe, por exemplo, que as utensilagens que usa na sua entrega e tributo à imaginação não lhe pertencem inteiramente, reconhecendo não apenas que as coisas são mudadas quando as tocamos (quando a imaginação delas se aproxima), mas também que nem sequer temos o domínio dessa força eventualmente perigosa e disruptiva que se desencadeia no momento em que o poema se cria. Estamos perante um tema romântico que Stevens receberá de Blake.
O homem não controla os meios de expressão. A oficina absoluta do poeta moderno (e.g., Valéry, Ponge, Melo Neto, Oliveira) não será por certo uma das premissas da sua inteligência criativa. Se quisermos, Stevens é um poeta que exige que reconsideremos em muito a imagem que temos do trabalho oficinal do poeta moderno.
Bem mais próximo de Wittgenstein e das suas Investigações Filosóficas, Stevens ensina-nos que a linguagem não é espelho do mundo, que a linguagem exerce os seus privilégios próprios – ela age sobre o mundo, ela re-inventa-o sob a égide dos seus usos, em suma, das práticas que lhe damos (e tais práticas instalam-se num espaço onde o fazer não depende integralmente da consciência). Os meios de expressão excedem o poeta, que os molda como pode e não como quer. Os meios de expressão criam-se e recriam-se em acto na imperfeição em que tudo se perfila, uma imperfeição que se prende, tão-só, com a extrema fluidez e imprevisibilidade da experiência humana.
Wallace Stevens, mestre da meditação lírica, é, a seu modo, um poeta que faz da poesia uma arte prática. Dessa prática, tudo o que temos hoje é este vestígio cuja compreensão está fora de toda e qualquer vontade monumentalizadora ou entronizadora. Vestígio de uma metafísica secular em que a loquacidade da poesia, embora incomensurável com o poema, encontra, porém, o seu prodigioso eco nele.

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