O Teatro Anatómico e a finitude do humano

Teatro Anatómico da Universidade de Modena, 1775.

Teatro Anatómico da Universidade de Modena, 1775.

A emergência histórica do Teatro Anatómico nos finais do século XVI lança-nos para uma reconceptualização moderna do humano.

A morte e a finitude do humano surgem no Teatro Anatómico como aspectos de um drama – de um espectáculo – que irá alimentar o exercício e a constituição de um olhar clínico. Será a partir desse olhar clínico, e de acordo com Michel Foucault em Naissance de la clinique (1963), que despontará uma nova teoria sobre os corpos e a doença.

A experiência médica que o Teatro emblematiza prende-se com a morte tomada então como domínio sensível em que o homem ocidental se constitui a seus próprios olhos como objecto de ciência por referência à sua própria destruição. Toda a fenomenologia médica a que o Teatro faz apelo radica numa espécie de metamorfose cultural em que a experiência da finitude é destituída das suas implicações metafísicas e é avaliada tendo por eixo a densidade anatomo-patológica do corpo que se perfila ante o olhar serenamente objectivo do sujeito que conhece.

A finitude passa a assumir-se como o limiar a partir do qual o conhecimento médico se faz instalar na sua positividade. Estamos assim, como argumenta Foucault (1963: 201), perante uma «inversão» no «jogo da finitude» na qual se irá re-situar o saber médico. E quem diz o saber médico diz o saber tout court.

O Teatro surge-nos, neste contexto, como uma estrutura que espacializa e materializa uma nova ordem perceptiva que irá contaminar todos os modos de qualificar a natureza e, em particular, o mundo vivo. A finitude – que seria também a afirmação mais acabada da invisibilidade clássica – é agora tornada visível através de modalidades do discurso que a distanciam e a espectacularizam.

Sempre repetida e conjurada – obstinadamente repetida e conjurada – dir-se-ia que a finitude traduz já não o invisível incognoscível, mas o invisível cognoscível e sistematicamente exumável. De outro modo, trata-se de tornar visível aquilo que permanecera invisível e envolto numa barreira metafísica que só um acto de transgressão poderia tornar visível (recorde-se do anátema que caía sobre todas as tentativas de trazer a finitude para os domínios do saber através da vivissecação). A modernidade é também função deste exercício, celebrado e ritualizado pelo Teatro Anatómico, em que a finitude é circunscrita institucionalmente e trazida para as formações de saber-poder.

Como Foucault soube registar também (1963: 202), a experiência clínica que ali se define é afim da experiência lírica moderna:

De uma maneira que pode parecer estranha a um primeiro olhar, o movimento que sustém o lirismo no século XIX não faz senão unidade com aquele pelo qual o homem adquiriu um conhecimento positivo de si mesmo; mas será que surpreende que as figuras do saber e as da linguagem obedeçam à mesma lei profunda, e que a invasão da finitude domine, do mesmo modo, esta relação do homem e da morte que, aqui, autoriza um discurso científico sob uma forma racional, e lá abre a fonte de uma linguagem que se desdobra indefinidamente no vazio deixado pela ausência dos deuses?

O fragmento citado de Naissance faz traçar o paralelo entre a experiência da finitude para a ciência médica e para a poesia lírica moderna. Uma presença oclusa que o corpo detém e que, camada após camada, o olhar-no-anfiteatro vai aprendendo a desvelar. Uma ausência e um vazio sugeridos pelo sujeito poético que se confronta com o inapelável recuo dos deuses.

Estamos perante um aspecto central à experiência e ao pensamento ocidentais que se irá agudizar nos séculos XVIII e XIX. A finitude mudada em espectáculo na constituição dos saberes.

Bibliografia:

Foucault, Michel (1963) Naissance de la clinique, Paris, PUF.

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