Asma

Nos bastidores de Metropolis de Fritz Lang (anos 20)
Nos bastidores de Metropolis de Fritz Lang (anos 20)

Uma asma espiritual, um traço infame
que se cruza com a tua biografia
a horas impróprias, sem reserva,
interpelando-te.

És, serias uma máquina,
o funcionário vaticina o teu futuro,
desenha-te a número, cifra, percentagem,
prognostica-te objectivos, soma-te e subtrai-te.

Amanhã, o seu corpo-teorema
atropelar-te-á, morrerás na margem,
estuprado, defenestrado
pela arruaça tecnocrática.

E se viesse uma bomba que o incluísse,
um kamikaze, um messias
de espanto e morte, atómico e total.
Seria ao menos de companhia, esse director.

Uma arte do degelo

O livro Uma arte do degelo: a bio-arte e a tectónica do presente é uma reflexão sobre as implicações das biotecnologias no campo artístico. A bio-arte usa, como media, a vida, manipulando-a em laboratório, recontextualizando-a no espaço público, exigindo ponderação reflexiva. Os trabalhos que se fazem aí inscrever parecem sugerir uma perturbação profunda das fronteiras que opõem natureza a cultura, arte a ciência, estética a ética, conhecimento a poder. Para lá da perturbação, a discussão encetada pretende levantar a hipótese de que o que está em jogo aqui se prende com a possibilidade desta forma de arte estar tão-só a solicitar, de todos nós, uma leitura mais atenta e mais participada do território dos especialistas ou oficiantes de laboratório. É não tanto a arte que é, através da bio-arte, objecto de uma torção crítica ou reflexiva (como se fosse ainda possível fazê-lo em arte após as aventuras e derivas que o século XX, em particular, nos ofereceu), mas a tecno-ciência na sua relação com a pólis. Não é a arte que se torna perigosa ao cooptar as biotecnologias de última vaga. É antes esse mundo híbrido que a tecno-ciência instaura que reclama tal perigo.

Capa Luis Quintais_REV1 (1)