Exúvia, gelo e morte: a arte de Rui Chafes depois do fim da arte

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Evoquemos o choro de Hölderlin à beira do Neckar, quando os deuses recuam sem regresso. O luto do mundo. É isto o trabalho de Rui Chafes, um modo de traçar na paisagem – nessa paisagem esventrada que nos coube com o advento da modernidade, onde passariam a imperar sem negociação os «dark satanic mills» cunhados pelo inglês William Blake – um vestígio de qualquer coisa que é irresgatável, qualquer coisa que exorta uma experiência de radical alheamento em relação às lógicas de uma história sem duração, de um cronos sem um kairos (p. 11).

[O livro Exúvia, gelo e morte: a arte de Rui Chafes depois do fim da arte é uma edição de Sistema Solar/Documenta. As imagens foram escolhidas pelo artista. O livro foi publicado por ocasião da exposição «Exúvia» de Rui Chafes com curadoria de António Gonçalves em colaboração com a Galeria Filomena Soares, realizada na Galeria Ala da Frente, em Vila Nova de Famalicão, de 17 de Outubro a 23 de Janeiro de 2016.]

Arrancar penas a um canto de cisne

DigitalizaçãoVinte anos a escrever. A poesia reunida. De frente para trás, do hipotético presente para o hipotético passado. Arrancar penas a um canto de cisne. Poesia 2015-1995. A capa reproduz uma imagem gentilmente cedida por Rui Chafes. O ensaio que serve de posfácio («Inventar a antiguidade do som mais antigo») é de Pedro Eiras. Deixo aqui o meu prefácio. Uma arte poética que já tinha aparecido no meu Riscava a palavra dor no quadro negro (2010, Lisboa, Cotovia).

Há sempre um lugar onde as coisas começam. É uma hipótese improvável, esta. Uma convenção apenas dizendo-nos que tempo e espaço se enlaçam na experiência e que a linguagem corre, se precipita para algum lado, um lugar onde tudo adquire um sentido último e primeiro, outra vez. Trata-se de uma convenção que me é fundamentalmente alheia. Gostaria de acreditar que os poemas não surgem dessa seta claramente transposta, e que, impregnados — densos — de sentido, acabam afinal por não ter sentido. Porém, não gosto de dizer que estão do lado do som. Prefiro a ideia de eco. O som terá acontecido, e o mundo — na sua materialidade de que a linguagem faz parte — devolve-me o som. O som da minha voz? Da corrente de consciência que em mim circula como um vento que espalha aquilo que sou? Os poemas não são vectoriais, são escalares. Uma parte considerável do que escrevi prende-se com uma concepção da experiência que a faz presa — sujeitando-se à devoração — de uma atmosfera. Estou a falar da inescapável condição que se prende com o dado de eu não poder fazer outra coisa senão interrogar, não o início, como disse, mas um princípio de ordem. Não impressões de ordem, mas ideias de ordem, para usar uma reflexão que gravita à volta de Hume e gravita à volta de Stevens. Assim, a atmosfera, que é um escalar — como o «medo» ou Angst que quis convocar — armadilha-me a vida, e eu respondo, devolvo o seu eco, transfiguro a poderosa — e invencível — cilada. Uma forma de poder sobre a vida. Em grande medida, tudo isto é revisitação. As palavras não são a linguagem, e o que ofereço a um leitor é simplesmente o vestígio, a biografia. No seu melhor, o poder sobre a vida — essa reacção à devoração — é uma forma do encantamento, uma tecnologia que encanta. Talvez o início possa ser assimilado a uma outra convenção: a de que me libertei — ou estou em processo — desse sono dogmático que tende a ver em princípios de ordem lugares de origem contra os quais a indigência do real quotidiano merece reprovação ou fuga. O que me interessa está sempre a jusante, no delta do rio, não na nascente. As palavras que se reúnem sob os sortilégios desse jogo de linguagem que é a poesia servem uma ideia de ordem, disse. São a régua e o esquadro da experiência que não pode ser metrificada, que não é mensurável. Talvez seja este o sentido flutuante da poesia.

Arranncar penas a um canto de cisne, Lisboa, Assírio & Alvim, 2015, pp. 11-12.