Sobre «O vidro». Texto escrito por ocasião da atribuição do Prémio Pen (Poesia).

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Talvez se imponha dizer que este livro agora premiado – O vidro – é também de todos aqueles que dispensaram o seu tempo e o seu entusiasmo nesse acto de inigualável nobreza que é a leitura de poesia e sobre essa leitura foram dando o seu testemunho ao longo de vinte anos de poemas e de livros, vinte anos que são, hoje, o pretexto para a reunião do meu «trabalho poético» (expressão que devemos a Carlos de Oliveira) sob a forma de um volume que a Assírio & Alvim acaba de publicar. Um livro que contém também este O vidro e que se intitula Arrancar penas a um canto de cisne (2015).

Não professo nenhuma estética, mas acredito no poder da memória porque é nela que se abastece todo o trabalho criativo. A minha poesia é, assim, uma arte da memória que sabe que a origem é improvável, que tudo é, em última análise, ficção e ficção retrospectiva.

A origem é improvável, disse. Talvez ela esteja comprometida com a história evolutiva da espécie, sendo que a poesia reclama uma propriedade criativa que é anterior à literatura. A literatura é apenas instituição, quando muito, e suspeito que uma instituição já morta. Nesse sentido, a literatura é uma província da poesia. E em mim continua a habitar essa preferência, essa declinação sensível, pelo poder da poesia que é, afinal, o poder expressivo da linguagem e, com ela, do pensamento.

Música da mente e percepção do tempo. Percepção devolvida e trágica do tempo que passa e da nossa condição de mortais sem certezas com a única certeza do fim inscrevendo-se no espaço interior da nossa identidade profunda. Coisas densas de que nada sabemos, a não ser muito tarde.

Depois há a leitura, as leituras, a juventude sem tempo, as noites intermináveis e imóveis em que se lê porque não há mesmo mais nada que apeteça fazer. Foi há muito tempo isso. Antes do mais fui (serei hoje, ainda?) um leitor, e todo o leitor corre, deve correr, atrás de uma interpelação. É isso que eu faço.

O vidro divide-se em duas partes. O livro é um díptico, mas deve ser lido como se se tratasse de um único movimento. A primeira parte, «O vidro», é o meu «dia triunfal». Não foi escrito de um fôlego, levou anos, mas cada vez que ali regressava era como se o impulso que me conduzira durante os primeiros versos se tivesse mantido intacto, imperturbável. É seguramente muitas coisas, essa voz que se desloca, que me desloca: uma meditação sobre o si autobiográfico, uma realização lírica num mundo em escombros, num mundo que já acabou. Como o Crow de Ted Hughes, uma espécie de regozijo mortal face a um mundo que acabou. Mas uma meditação animada por uma crença cega em qualquer coisa que virá ainda, durante esse fim – essa morte – que percorre o tempo do poema, e que é o meu tempo. A segunda parte é uma destruição desse exercício. O vidro quebra-se como um aquário, a voz regressa sob a forma de estilhaços. Balbucia-se interminavelmente. A infância é o território da ficção suprema que ali se desdobra. «Ecolalia».

Que vidro é este?

Emblema de uma poesia pouco idealista, afinal, comprometida com a matéria: areia e fogo modelados pelo sopro humano, frágil e corruptível promessa de forma e transparência que nunca se realizará, a não ser por breves instantes.

O vidro que transparece. O vidro que, imaculado, é invisível, como uma película, como uma pele. Mas também o vidro que, frágil, se pode riscar. Que está já riscado e em risco de se quebrar. Que tem a violência da nossa tão breve passagem pela terra. O vidro denso de escrita indecifrável, como a ardósia de Riscava a palavra dor no quadro negro (2010), esse meu outro livro tão discreto e tão próximo deste. O vidro que se quebrou, por acidente, e nos fez reconsiderar o que era forma, desenho, intenção. Le grand verre de Duchamp. Uma breve história do acidente que é a biografia. Uma breve história da violência também. Aquilo a que chamei em Riscava a palavra dor no quadro negro de um trabalho de poda sobre o acaso. Violência e intenção a dirigir o acaso para uma morada cega e interior. A shearswork of sorts.

A minha poesia é, desde sempre, elíptica, contida, próxima do que não podemos dizer, mesmo quando pratica um gesto referencial, como aquele que a percorria no início, sobretudo em A imprecisa melancolia (1995). É uma arte de devorações. Como uma estrela densa, morta, que, friamente, no seu rigor mortal, absorve toda a luz. Toda a luz de quem lê? Gostava de acreditar nisso.

É também uma defesa da irracionalidade. «Poetry must be irrational», ensinou-me o meu mestre, Wallace Stevens.

Em suma, O vidro é um livro que convoca a impossibilidade vital de aceitar as forças destrutivas que estão na biografia. Mas que se prepara para aceitar. Toda a poesia que me interessa é uma meditação hesitante, recursiva, feita sobre o abismo – no lugar que há entre o abandono a esse irreversível sortilégio que a morte vai escrevendo, também ela, em nós, e a impossibilidade disso tudo.

Quero acreditar que fica o testemunho poético e moral dessa corrupção. Um esplendoroso, deflagrante, retrato para um futuro sem rosto.

Escreve-se para o futuro. O presente importa pouco. Em rigor, não existe.

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