Esse canto escuro

O medo tem um significado evolutivo.
Ele é uma sobrevivência da nossa errância

antiga de predadores perfeitos.
Inadaptados, caminhamos hoje na cidade,

ecologia de cuidados e atributos sublimados,
e o medo serve a sem métrica

dos gestos agramaticais.
Cada perturbação da fala

devolve-nos esse canto escuro,
o molde incompleto que nos define.

Vivemos no medo. Ele é a nossa casa.
De nós exige um desvelo permanente.

Num combate corpo a corpo
lutamos com as paredes da casa.

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