Lévi-Strauss no Japão

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Foto: Pierre Verger

Lévi-Strauss no Japão.

O antropólogo visitou o país do sol nascente cinco vezes, entre 1977 e 1988. Dessas viagens, e das conferências por si proferidas, resultaram alguns ensaios reunidos postumamente, respectivamente, em Anthropologie face aux problèmes du monde moderne e L’ autre face de la lune: écrits sur le Japon (publicados ambos em 2011).

Apesar de nunca ter desenvolvido nenhum trabalho de maior fôlego sobre o Japão ao longo da sua longa e muito produtiva vida, poder-se-á dizer que uma certa figuração do Japão percorre o trabalho de Lévi-Strauss desde o início, e podemos mesmo dizer que se trata de um fascínio decisivo para se compreender a sua personalidade de intelectual e esteta. Tal fascínio irá atravessar o seu percurso, e podemos mapeá-lo, talvez, por derivas e súbitas manifestações, quase sempre episódicas ou circunstanciais, que se espalham pela gigantesca massa textual que nos legou. Essa dispersão nunca haveria de encontrar uma formulação densa e sistemática, como aquela que haveria de pautar uma parte considerável da sua produção em torno do parentesco, dos mitos ameríndios ou da arte. Porém, em Lévi-Strauss, o Japão ocupa uma espécie de território de importância capital, pois é através dele, nas suas aparições irregulares e fragmentárias, que se jogam dois temas que lhe são particularmente caros: por um lado, uma noção edénica da sensibilidade estética; por outro, a hipótese de sobrevivência dessa sensibilidade num lugar de tradição e recusa do tempo. Podíamos, antes do mais, dizer que a melancolia que impregna toda a interrogação que Lévi-Strauss faz da modernidade parece excluir esse território de essências e atributos que é, para ele, o Japão. Neste contexto, o Japão, apesar da sua cooptação pelas forças luciferinas da modernidade, parece ter permanecido como um lugar incólume, um lugar propiciador e fertilizador. Para Lévi-Strauss, o país do sol nascente encarna assim uma possibilidade de transfiguração e regresso àquilo que de densamente estrutural e, nesse sentido, de humano, se faz inscrever na cultura. Ele epitomiza, a seu modo, as qualidades analógicas que, face à desagregação, destruição e alegorização modernas, parecem condenadas ao crepúsculo.

[De um projecto em curso.]

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