Uma Arca (para uma bienal de arquitectura)

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Arca de Noé, John Wilkins, 1668

Tomar a noção de «espaço livre» como um espaço de escolhas que articulam o passado com o futuro da arquitectura e que vão ao encontro das aspirações dos «estrangeiros», isto é, de todos aqueles que, a jusante do processo construtivo, lhe atribuem uso e sentido. Ou seja, todos aqueles que, pelo seu processo de apropriação e domiciliação, criam, em permanência, novos desafios à arquitectura. Afinal, todos aqueles que, numa certa acepção moderna do fazer arquitectura, deveriam permanecer ausentes do processo construtivo. A ideia de um «espaço livre» é assim a ideia de um espaço potencial ou virtual que poderá corresponder a um imperativo de apropriação e inclusão num mundo que instaurou premissas e proposições muito sólidas (e, em grande medida, imóveis) sobre a conveniência do uso e da apropriação que deixaram de ser sustentáveis. Perante uma cultura arquitectónica com valências modernistas que parece instaurar o permanente e o tectónico e que territorializa e especializa os usos e práticas do espaço, a nossa proposta pretende ir ao encontro de uma arquitectura do impermanente e da fluidez (material, simbólica, processual) que ecoe a abertura que se faz inscrever na noção de «espaço livre».

Um espaço livre é, pois, um espaço aberto, inclusivo, fluido. Um espaço que responde ao urgente desafio da contingência e da inclusão. O espaço livre não é, nesse sentido, o espaço da teoria, o espaço do fundamento. Não se trata de fazer emergir uma representação a partir da qual se investigue, em segurança, um mundo que colapsa, não se trata, como nos ensinou Hans Blumenberg, de construir um ponto de vista a partir do qual se observe, e se mantenha à distância, um naufrágio , mas antes de considerar o desafio imersivo e construtivo de que estamos todos – o arquitecto, mas também aquele que com ele partilha a mesma situação existencial e operacional e que uma tradição disciplinar e profissional particular designou por leigo ou cliente – na mesma situação, e que essa situação é de aflição e urgência. Assim, estamos, todos nós, embarcados na mesma embarcação. Não podemos, em desacordo com o mundo, e à maneira de Aquiles, retirar-nos para a uma tenda que nos protegerá do colectivo e da decisão. Ao tempo da Ilíada corresponde, afinal, o tempo da Odisseia. Ao tempo do Nautilus modernista e exclusivo corresponde o tempo de Le Bateau Ivre da nossa contemporaneidade necessariamente inclusiva.

A melhor metáfora de um espaço livre será o da Arca, essa máquina que a antiguidade celebrou como o modelo reduzido de um mundo em perigo. A Arca não é a máquina para habitar, mas antes a máquina que reúne e promete, e que poderá servir de dispositivo de passagem – um índice da nossa condição presente – entre o passado e o futuro. A Arca poderá ser produtivamente associada a uma das metáforas mais proféticas (e heurísticas) do século XX: a do barco de Neurath. Nesse barco do filósofo vienense cada um de nós é um marinheiro que tem de reconstruir o barco em mar alto. Não podemos voltar à doca (modernista) e recomeçar o trabalho do zero. Não há tábua rasa, origem, fundamento. Tudo acontece depois do acontecido. Num mundo, como o nosso, de urgência e necessidade onde a eficácia da arquitectura se faz sob o signo da contingência, o nosso projecto procura afirmar-se como uma possibilidade de pensamento, experimentação e celebração dessa abertura. Neste sentido, essa abertura é também um confronto com o exterior da arquitectura. A linha de fuga da arquitectura estará, porventura, no diálogo e na mútua fertilização com outros modos de fazer. A expressão aqui é decisiva já que ela sugere o poético como dimensão inequívoca desse trabalho de urgência e necessidade.

Celebrar essa dimensão é, de acordo com a nossa proposta, deixar que a Arca se deixe contaminar (ou embeber) por linguagens que, à partida, se mantêm alheadas do pensamento construtivo que a arquitectura foi reclamando.

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