Oferenda aos mortos

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No comfort, but no tears,
assim era o obituário de Larkin
na Time. Lembro-me do título

e da fotografia de a one-piece suit man
sentado num banco alto, atrás de si uma coluna de pedra,
e atrás da coluna uma bicicleta parcialmente encoberta.

Um inglês insuportável que escrevia
poemas rentes à lucidez, sem ilusões ou precipitações.
A one-piece poem man que escutava o vento.

Night-musicClimbing the hill
within the deafening wind
The north ship,
e, sobretudo, Portrait,

onde o último verso diz
«And no wind will trouble to break her grief».
Este bibliotecário em Hull ensinou-me que o vento

jamais perturba a paz dos cemitérios. No meu sangue
imprime-se a indelével certeza disso,
mas admito, cegamente, que

Larkin, afiados versos em riste,
estivesse afinal errado. O vento desfaz a memória
e os seus nós, agita a lembrança,

e promete o apaziguamento
de novas, extemporâneas ficções.
O vento, búzio inconsútil,

arrasta-me já sem dor, mas agita
cemitérios, traz os mortos, exige de nós
uma oferenda aos mortos, esses irmãos.

E tu estás morta. Eu desvendo-te
os segredos da corrupção que te desfigura já.
Aceito, escuto o vento.