O mais importante é o resplendor_ notas sobre Eunice de Souza

Eunice_de_Souza
Os melhores poetas serão porventura os mais discretos. Passam pelo mundo, vivem, escrevem sem alarido, saem do mundo como nele entraram, numa espécie de apagamento que é matéria de reconhecimento e gratidão por parte dos seus inúmeros e, também eles, pouco ruidosos leitores.

Eunice de Souza morreu em 2017. A discreta (e periférica) presença que foi cultivando no espaço da poesia de expressão inglesa do século XX e XXI é também uma celebração da solidão, da individualidade, do recolhimento, da meditação, mas igualmente da ironia mais aguda, aquela que faz estragos consideráveis na nossa percepção do mundo, e que só a melhor poesia pode realizar.

Começaria, talvez, por dizer que essa ironia se mantém perfeitamente enquadrável no contexto da discrição de que falo.

Trata-se de um trabalho que é invisível, que se realiza quando lemos um poema de Eunice, que não pode ser matéria de medida ou escopo ou interpretação. A interpretação é aí tóxica, e nada melhor que a poesia desta autora para nos lançar num mundo onde toda a interpretação é um deslocamento e um equívoco.
Parafraseando Susan Sontag, poder-se-ia dizer que Eunice escrevia contra a interpretação. A sua poesia parece querer convocar, desde logo, a experiência como o lugar de onde parte a poesia. Não é, nesse sentido, uma poesia da linguagem, mas uma poesia que faz reverberar aquilo que está no seu limite. Aprende-se então com a natureza, com as suas figurações, como, por exemplo, com a amendoeira, com a sua folha:

Aprendam com a folha da amendoeira
que se incendeia ao cair.
O solo arde.
A terra arde.
O mais importante
é o resplendor.

Eunice sabe que as palavras estão gastas, e que só a poesia as poderá transportar para dimensões quase insuspeitas da experiência. Face às pobres ficções da cultura, a natureza subsiste como um lugar indomiciliável e indomesticável que a poesia faz reverberar como experiência. Uma visão clara e perigosa parece animar a escrita:

Pouca chuva,
A terra liberta vapor.
Cai um falcão.
Um vulcão deita lava.
Cuidado!
O coração da terra ainda
Está a arder.

Não é somente uma infatigável procura dessa qualidade de resplendor – «flamboyance» – que deve ser capturada, e que permanece como possibilidade de renovação do que é a linguagem depois de tudo já ter sido dito. É também uma preocupação de descentramento e genuína humildade o que move a nossa autora. Pouco somos, nada seremos perante a violência que o coração da terra a arder convoca. E uma das mais belas figurações disso mesmo permanece inscrita no modo como Eunice usa o advérbio «still», «ainda»: «O coração da terra ainda / Está a arder.» Nesse advérbio está contida a eternidade que a natureza reclama, e, em simultâneo, o reconhecimento da nossa caducidade. Uma caducidade que será, doravante, uma reificação do poder da poesia que participa de algo que excede a linguagem, essa sombra do humano na eternidade. Por exemplo, em «Western Ghats», escreve-se:

Espalhem as minhas cinzas em Western Ghats
Pareceram-me sempre a minha casa.
Que os leopardos ganhem
Gosto pela poesia
Os corvos e milhafres aprendam
A modular a voz
Que haja nevoeiro e quedas de água
Erva e flores
Fora de estação.

A sombra do humano na eternidade, a linguagem, disse. A mortalidade é dispersão não apenas do corpo físico da poeta – que sob o desígnio da biografia e da pertença – quer que as suas cinzas se espalhem em Western Ghats –, mas também dispersão da voz e, e com ela, da linguagem. Atributos humanos, linguagem e voz, irão, nessa dispersão, alimentar e redefinir o que se situa para lá da mortalidade. Leopardos ganharão o gosto pela poesia, corvos e milhafres aprenderão a modular a voz. Fora de estação, haverá nevoeiros, quedas de água, erva e flores. Ou seja, a dispersão das cinzas e da linguagem será, tão-só, o veículo a partir do qual o poder da natureza se renovará. A desmesura é apenas aparente. Eunice faz alternar esta dose de grandiloquência com poemas que reflectem uma posição fundamentalmente irónica perante a jactância própria ou alheia. Assim, na antologia que agora se publica – este belíssimo Coração de abacate – a «Western Ghats» sucede-se «Por amor de Lout, o meu cão»:

Por amor ao Lout, o meu cão,
Um cachorro barulhento abandonado
À minha porta
Vou acordar às quatro para o levar a dar uma volta.
É um cão amistoso,
Um farejador de partes baixas.
As senhoras boas da vizinhança
Evitam-no. Os homens também.
Sabe demasiados segredos.

Talvez tudo seja ilusão, pura vaidade. Para Eunice, os animais sabem mais que nós. Até o vento parece saber mais do que milénios de filosofia e pretensões espúrias em nome do conhecimento:

Sentindo um vento frio nas costas
renunciamos à filosofia.

Tudo é contingente, e tudo passa:

Casas temporárias para os vivos
Temporária a tenda para o casamento
Temporário o transporte
Para a última viagem
Temporário o chão
que pisamos.

E apesar da pretensão de alimentar com as suas próprias cinzas a reinvenção da natureza e a espessura da eternidade, a nossa autora reconhece, com humor, a descontinuidade profunda entre natureza e cultura:

O papagaio bebé na minha caixa de sementes
olha-me fixamente
como se eu fosse o próprio diabo.
Ó espertalhão, quem achas
que arranja as sementes?
Nenhuma resposta.
Tem ainda de aprender Inglês.
Ainda tenho de aprender Papagaio.

Em simultâneo, uma sensibilidade lírica rara percorre a escrita. Cada enunciação parece impregnada do seu contrário, e a ironia transfigura-se em lirismo e em possibilidade de beleza, isto é, de suspensão no tempo:

Os papa-figos dourados foram-se embora
calaram-se as felosas.
A última folha vermelha na amendoeira
recusa-se a cair.

As primaveras da linguagem são, pois, relutantes. E a poesia é a sua imagem mais dextra, mais afinada, afiada, rigorosa. Só a poesia nos pode conduzir pelo caminho sinuoso e paradoxal que vai do lirismo extremo à lucidez sem falhas, parece dizer-nos a poeta. Numa cadência insuperável, uma e outra coisa parecem comentar-se, constituir-se mutuamente:

Morte, dizei-me
Dia, Hora, Local.
Tenho de procurar
As minhas cuecas pecaminosas,
Marcar uma consulta
Com um pedicuro.

O espaço bem humano da comunidade, da amizade e da memória surge na intersecção desses dois universos, lirismo e lucidez. Toda a impiedade é matizada por uma forma de compaixão que resgata a sabedoria:

Plantei um caroço de abacate
na minha cozinha
para a Ruth
e para o Alan, que morreram.
Amigos os dois, mais a Ruth –
A voz de
aveia e mel.
Vou replantar o caroço
dar-lhe espaço para ser árvore
viver
enquanto a dor durar.

A impiedade reflecte apenas a melancolia e o sentido trágico da vida que nada pode, afinal, apagar. Os restos mortais dispersam-se, guardam-se em nichos (como em «Restos»), sonha-se com a morte e exorta-se cada um de nós para uma oração:

Rezai para que as nossas mortes
sejam rápidas e misericordiosas.

Sábios, os versos dizem o que há porém de extemporâneo ou tardio na sabedoria:

A nossa sabedoria chega sempre demasiado tarde.

O paradoxo intrincado da sabedoria e das suas máscaras desfaz sempre as certezas (decididamente não há conhecimento), e, em última análise, o que sobra de uma vida que não seja uma hipótese de reconhecimento sem equívocos, aí, onde o silêncio, para onde tende a poesia é sem falhas?:

A minha avó tinha catorze anos
quando casou.
Perdemos aquela fotografia dela
com travessas de ouro no cabelo.
Era bonita
deu à luz sete filhos
e voltou muitas vezes
para casa da mãe.
Ela e os criados
falavam a mesma linguagem
de silêncio.

Silêncio para onde se encaminha toda a poesia, disse.

Podia acrescentar, por último, que a disciplina de silêncio afecta a forma. A poesia de Eunice realiza-se numa extrema contenção verbal. Uma rigorosa economia de meios é a sua marca de água. O efeito, a sua maximização, o seu alcance, resulta de uma aproximação discreta, sem adorno, sem declinação simbólica.

Poderia terminar como comecei. Os melhores poetas sãos os mais discretos. Eis Eunice de Souza!

Luís Quintais
Texto lido aquando da apresentação de Eunice de Souza, Coração de abacate, tradução de Francisco José Craveiro de Carvalho, Coimbra / Fundão, do lado esquerdo, 30 de Junho de 2018

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2 comments on “O mais importante é o resplendor_ notas sobre Eunice de Souza

  1. Belo texto de apresentação da poesia de Eunice Souza. Apetece lê-la toda, num sopro, para depois a deixar à cabeceira, numa aura protectora que nos prepara para a harmonia de que tanto precisamos. As notas de Luís Quintais quase se integram na poesia, de modo a engrandecê-la e apresentá-la ao leitor. Muito bom trabalho, mesmo.

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