Author Archives: Luís Quintais

Esse canto escuro

O medo tem um significado evolutivo. Ele é uma sobrevivência da nossa errância antiga de predadores perfeitos. Inadaptados, caminhamos hoje na cidade, ecologia de cuidados e atributos sublimados, e o medo serve a sem métrica dos gestos agramaticais. Cada perturbação da fala devolve-nos esse canto escuro, o molde incompleto que nos define. Vivemos no medo. […]

שואה

A mansidão de Deus, não das vítimas, Seria o que havíamos colhido das cinzas da história. Um sopro de destruições e as feridas sem sutura: Tudo isso era demasiado humano Para pertencer a Deus, para O dizer. Na Sua casa, Ele permanecia Enrolado sobre si mesmo, criança aterrorizada Que só pode esperar, impotente, a violência […]

David Bowie, in memoriam

És agora uma estrela negra, Uma esfinge no firmamento iluminado, Negativo do céu. Hoje sentei-me à tua mesa. Hélas, les amis de la vieillesse. Cantaste o indecifrável chamamento. Era essa a tua única vocação, uma estilização enfática Do que só poderá ser derrota, perjúrio, mentira. Disseste-me que não podias abrir mão De todos os segredos, […]

Dobra e escala em Ruy Duarte de Carvalho

Quando leio Ruy Duarte de Carvalho sou assaltado por uma certeza: estamos perante um escritor na fronteira, um escritor em que o «interior» e o «exterior» estabelecem relações de contiguidade que só podem ser descritas topologicamente. Dir-se-ia que RDC é um escritor das dobras, das plicas, em que a psicologia profunda se encena na sua […]

Sobre «O vidro». Texto escrito por ocasião da atribuição do Prémio Pen (Poesia).

Talvez se imponha dizer que este livro agora premiado – O vidro – é também de todos aqueles que dispensaram o seu tempo e o seu entusiasmo nesse acto de inigualável nobreza que é a leitura de poesia e sobre essa leitura foram dando o seu testemunho ao longo de vinte anos de poemas e […]

Vazio

Não um sonho de morte, mas um tempo de espera, um sinal onde o vazio se diz e se recolhe.

Egeu

Civilização morta, fria, arrefecida. Nós, aleijões do fátuo, doentes do discurso, sempre prontos ao fio de arame que demarca o impuro, embarcados estamos. Pôr a cerca à volta da doutrina para que os porcos não entrem, essa será todo a política ainda, o embrião do que virá. Corre-se para a vida? O imperdoável desenha vagas. […]