Bio

Photo on 04-11-2015 at 16.49 #2Nasci em 1968 em Angola, quando Angola «era nossa» (que horror!). Cresci e estudei em Lisboa. Em 1995 parti para Coimbra para leccionar, onde permaneço. Sou professor de cadeiras de antropologia na UC. Escrevo etnografias, ensaios e poemas. Gostava de escrever contos, mas raramente o faço. Suspeito que nunca escreverei qualquer romance. Presumo que isso faz de mim um professor, um antropólogo, um ensaísta e um poeta.

Seja como for, temo a palavra «poeta» (tal como temo a palavra «filósofo»). Apesar do desconforto, sinto-me muito próximo da poesia e nada próximo de muito do que se faz hoje em nome daquilo a que chamamos de «ciência», o que não quer dizer que não tenha algumas preferências e obsessões em relação ao cânone científico.

Gosto da designação de «pensador lírico» que traduz uma reflexão de Hannah Arendt sobre Walter Benjamin («he thought poetically, but he was neither a poet nor a philosopher») e gostaria muito de ser digno dessa expressão que me parece consonante com a minha sensibilidade. Porém, quando escrevo poemas, quando reflicto sobre isso, quando publico poemas, estou, evidentemente, interessado em ser lido como um poeta.

Como antropólogo prefiro as fronteiras, os espaços que teimam em persistir entre culturas, os interstícios, os híbridos, as ontologias fluidas, as anomalias, os rizomas. Escrevi sobre guerra, trauma e memória; sobre as implicações forenses do discurso psiquiátrico; sobre biotecnologias e bioarte; sobre cultura e cognição; sobre antropologia e literatura.

O meu trabalho é, e sempre foi, interdisciplinar. Interessa-me, por exemplo, um modo de fazer antropologia que alie Alfred Gell e Tim Ingold a Gilles Deleuze e Gerald Edelman. Algo que não existe, ou que pelo menos não existe de maneira convincente, e que deveria existir. O que será, talvez, reivindicar – muito pós-modernamente (oh, expressão ingrata!) – uma concepção verdadeiramente experimental para a antropologia, concepção essa que se encontra nos antípodas do que se continua a fazer sob o rótulo de «antropologia».

Interessa-me ainda investigar o modo como o conhecimento científico se dispersa e é apropriado no espaço social (referências para mim decisivas neste ponto são aquelas que colho nos social studies of science and technology, em particular nos trabalhos de Bruno Latour, John Law e Annemarie Mol). A este propósito, estou a tentar fazer uma etnografia histórica sobre acidentes tecnológicos que procure dar a perceber como é que a ciência faz mundos e como, em processo, os destrói. «Modos de fazer mundos», sem dúvida, para usar o belíssimo título de Nelson Goodman, mas também modos de destruir mundos, acrescentaria eu. Aliás, talvez me interesse mesmo muito mais compreender por que se destrói do que por que se constrói. E o que podemos construir depois de uma irreversível e intensiva destruição dos mundos (naturais, culturais)? Penso que tudo o que tenho feito e tudo o que me proponho fazer se prende com um certa leitura do que é sermos modernos: que condição é esta, a de vivermos como modernos?

Outras fontes de inspiração são a filosofia de Ludwig Wittgenstein (que Deleuze destestava, mas que eu aprecio muitíssimo por razões que se prendem com a ausência de normatividade do designado segundo LW, o que, aliás, aproxima as Investigações filosóficas da etnografia ou da minha concepção do que é a etnografia), e os estudos de cognição distribuída do antropólogo Edwin Hutchins, que tem muito a dizer sobre os processos e significados de formas de vida modeladas em permanência pelo uso de tecnologias.

O aparato conceptual da filosofia funciona, no caso do antropólogo, como tool kit do trabalho a fazer. Seja como for, talvez seja possível descrever a minha posição filosófica de fundo como aquela que, próxima de Tim Ingold, nos diz que devemos abandonar (e levar a sério quem abandona), as dicotomias mais insistentes do pensamento euro-americano, habitadas por aporias ou dilemas como sejam aquelas que, tensionalmente, fazem opor natureza a cultura, objectivo a subjectivo, corpo a mente, etc. Tim Ingold é central aqui, mas também Merleau-Ponty, Andy Clark, Susan Oyama e a aproximação ecológica de James J. Gibson.

Influências heterogéneas que, contra-intuitivamente, procuro fazer reunir. Porque a antropologia é, como nos diz Alfred Gell, «a arte do contra-intuitivo».

Algum do meu trabalho ensaístico actual sobre arte (e esse é um dos meus territórios de eleição) gravita à volta de figuras como Gordon Matta-Clark e Rui Chafes. Através de Matta-Clark e Chafes, pretendo explorar algumas das propostas de Alfred Gell e Tim Ingold. Proponho-me, assim, e com alguma urgência, pensar o mundo da arte, erguer a minha pessoal codificação ou interpretação antropológica da arte. Uma antropologia da arte? Sem dúvida. Mas uma que seja suficientemente interdisciplinar ou transdisciplinar para interessar não apenas os antropólogos, mas também investigadores de outras áreas.

Publiquei muito e nem sempre bem, quase tudo por solicitação de amigos e cúmplices extraordinários. Com tempo, pretendo filtrar o que fiz, e, ao contrário daquilo que me é exigido pela academia, ser parcimonioso, pese embora a exuberância de interesses e declinações.

Coordenei, a par de Ana Pires Quintais, o grupo de discussão e de experimentação Milplanaltos.

Escrevo e publico poemas desde há vinte anos para cá. Escrevo ensaios sobre poesia, alguns sobre poesia portuguesa recente, em particular na Relâmpago, uma empresa poética e ensaística.

Tenho orgulho em ser um discípulo de Wallace Stevens. Traduzi o seu The man with the blue guitar & other poems (1937), que foi publicado pelas Edições Guilhotina em 2015. O livro contém a minha tradução – O homem da guitarra azul & outros poemas – mais um breve ensaio e um conjunto de notas.

O meu último livro de poesia, O vidro, foi publicado pela Assírio & Alvim.

Há uns atrás comecei a tirar fotografias porque muitos dos meus poemas e muitos dos meus ensaios são sobre o «ver». O que vemos, o que não vemos, o que conhecemos, o que não conhecemos, o que está fora do ver, isto é, fora da mente, fora da cognição. Usei as imagens como um arquivo de traços que o meu ver ia deixando na paisagem. Raramente fotografava pessoas. Ainda hoje não sei porquê. Interessei-me muito por espaços urbanos, ou restos deles, arquitecturas em declínio, ruínas, decadências, morte e pó. Interessam-me muito, ainda. Escrevi sobre isso num livro que saiu na Dafne. Como antropólogo é isso que continuo a explorar. Como escritor também. Ao olhar para estas fotografias (e haverá fotografia hoje, ainda?), reparo, por exemplo, como o meu livro, O vidro (2014), se encontra incluído nelas, ou serão elas que estão aí incluídas? Ficam aqui, ficarão depois outras mais.

Vivo em Coimbra num bairro cheio de gente envelhecida e cheio de gatos. Gosto de velhos e de gatos. Oiço Bach, Monteverdi, Handel, John Coltrane, Chet Baker, Ornette Coleman, Don Byron, John Cage, Morton Feldman, David Lang, Brian Eno, Durutti Column, David Sylvian, Mark Hollis, Thomas Feiner, Sparklehorse e muito blues do Delta.

Gosto de cinema. De Vertov, de Chaplin, de Tati, de Godard, de Tarkovsky, e, sim, de Chris Marker. Gosto muitíssimo de cinema japonês: de Yamanaka, Ozu, Mizoguchi, Kurosawa e Kobayashi, entre outros. Suspeito que é no Japão que estiveram, talvez ainda estejam, os mais importantes artistas visuais. Um dia escreverei sobre isto. Um dia irei ao Japão!

Sou um homem de esquerda, mas sem ênfase. Estruturalmente agnóstico, acredito mais na redenção do que na revolução. E a redenção será poética ou não será!

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