Category Anotações, leituras

Dobra e escala em Ruy Duarte de Carvalho

Quando leio Ruy Duarte de Carvalho sou assaltado por uma certeza: estamos perante um escritor na fronteira, um escritor em que o «interior» e o «exterior» estabelecem relações de contiguidade que só podem ser descritas topologicamente. Dir-se-ia que RDC é um escritor das dobras, das plicas, em que a psicologia profunda se encena na sua […]

Sobre «O vidro». Texto escrito por ocasião da atribuição do Prémio Pen (Poesia).

Talvez se imponha dizer que este livro agora premiado – O vidro – é também de todos aqueles que dispensaram o seu tempo e o seu entusiasmo nesse acto de inigualável nobreza que é a leitura de poesia e sobre essa leitura foram dando o seu testemunho ao longo de vinte anos de poemas e […]

Exúvia, gelo e morte: a arte de Rui Chafes depois do fim da arte

Evoquemos o choro de Hölderlin à beira do Neckar, quando os deuses recuam sem regresso. O luto do mundo. É isto o trabalho de Rui Chafes, um modo de traçar na paisagem – nessa paisagem esventrada que nos coube com o advento da modernidade, onde passariam a imperar sem negociação os «dark satanic mills» cunhados […]

Leituras cruzadas

Depois da música

Depois da música, a poesia será tingida por inegociáveis medos. Debruçou-se sobre a mesa, sobre o arquivo, sobre o mapa da sua morte, escutou o rumor de um mar espesso, sem mecânica. Saiu pela porta sem porta da história e voltou ao terreno da biografia. «A música acabou», escreveu, «a história jaz sepultada, sem herói […]

III

Acreditámos que o poço era inexorável, que essa água haveria de nos dessedentar sempre. Afinal, éramos incapazes de ver, presos a uma cegueira armadilhada. Tudo era repetição, mas repetição para lá do tempo que nos fora dado viver. De resto, poucas coisas iriam ser repetidas ainda no tempo que era nosso. Duas vezes a memória […]

Subjectivas mesas (sobre Wallace Stevens)

É com uma estranha malícia que distorço o mundo. Assim se revigora o opaco e a possibilidade de invenção, ainda. O cimento é o tonal modo de nos agarrar às significativas paisagens a ocidente. Dobram-se como árvores, as frases, sob o vento que veio do nada. Asas destroem a insaciada ordem que nos governa, a […]