Subjectivas mesas (sobre Wallace Stevens)

Mais espesso que a água (2008)É com uma estranha malícia
que distorço o mundo.

Assim se revigora o opaco
e a possibilidade de invenção, ainda.

O cimento é o tonal modo
de nos agarrar às significativas paisagens
a ocidente.

Dobram-se como árvores, as frases,
sob o vento que veio do nada.
Asas destroem a insaciada ordem
que nos governa, a pólis de anátema
que se instala no texto.

Vejamos: a cidade começa aqui
nas ásperas figuras do entardecer.
Descrevo o que flutua
neste espaço, a infigurável

destreza moderna trucidando
com dedos de morte
os acantos e as cicutas

que só existem em reais palavras
como subjectivas mesas
sobre as quais me desloco,
velozmente.

Mais espesso que a água, Livros Cotovia, 2008, pp. 125-6.

Ser póstumo

Ser fiel a uma forma de pensar será, a meu ver, tentar compreender como responderia um autor a um tempo póstumo. Por exemplo, tenho a certeza que Wittgenstein se teria interessado fortemente por Ciência Cognitiva. De outro modo, Benjamin teria respondido a isso também. Imagine-se um Benjamin leitor de Ciência Cognitiva. Ser wittgensteiniano ou benjaminiano, hoje, será porventura perceber como é que isso poderia ter lugar num determinado espaço de pensamento.tumblr_m1nzmgZ0741qzaw2ro1_1280

Paper life

al bertoEm memória do meu vizinho Al Berto

Escrevia cartas, o modo restante de habitar a luz.
Sines era certamente um esquife. Mas também Lisboa.
Anónimos e mortais são agora os dias

no urbano quadrado em que o lembro
– Então vizinho, sempre leste o Michaux?
Ao meu encontro percorre, continua a percorrer

as áleas de chapéus de sol.
Levanto-me saudando-o. Fala-me da doença.
Dos inumeráveis projectos

que lhe tomam o tempo:
da casa arrumada pela última vez,
por transparente métrica de novo desenhada.

Ideias de ordem, valha-nos o sonho em perda
e depois o esquecimento
de uma rua periférica.

Amava a toponímia, e aí a tem,
toponímia de arrabalde, como sempre pretendera.
Melhor máscara será o pó sobre os livros acumulando-se.

Um homem arrepia-se de frio ao cair da tarde.
Leva as mãos aos bolsos e retira um gorro de lã.
De asas arruinadas, voa no éter

troçando da gravidade que o esmaga.

[Uma primeira versão deste poema foi publicada no livro Dez cartas para Al Berto, organizado e prefaciado por Joaquim Cardoso Dias (Vila Nova de Famalicão, Quasi, p. 35).]

Dois príncipes, dois exércitos, uma clareira

Umbria1999
Dois príncipes, dois exércitos convergem para uma clareira.
Encontram-se. Cumprimentam-se.
É uma teoria da vulnerabilidade
o que revela este painel de azulejos no qual ninguém repara.
Há um centro ocupado por dois homens.
Há os flancos e os demais guerreiros de intenções semelhantes
mas de porte diverso.
E tu um pouco afastada, atenta ao meu rosto
que se debruça sobre as narrativas
distraidamente construídas, aguardando
um sinal da minha atenção dispersa.
Sempre o drama do que se não tem,
e por trás de ti a imagem do que haveria de haver.
Vulneráveis e nobres senhores num painel de azulejos.
Reconhecem-se nos passos um do outro,
nos gestos que se sucedem um para o outro.
Reconhecem-se no modo como os homens que os seguem
se suspendem sob o poder dos símbolos.
Preparados para a mútua anulação,
observo o que tem lugar para lá de nós,
o que se situa atrás da imagem que celebrando o encontro
traz a promessa de um adeus: aproximo-me da clareira,
deixo-me envolver pelo seu imaginário fulgor.
Fecho os olhos, e não te oiço.
Sei que estás ali junto aos mistérios da despedida,
de memória fechada e vigilante.
Procuro ignorá-lo, esquecê-lo.
De olhos fechados, concentro-me
no fulgor de uma imagem que nunca o teve.
As figuras tornam-se imperceptíveis,
contemporâneas na morte que, entre nós, se anuncia.
Friamente, príncipes e exércitos afastam-se,
penetram na frondosa manta que lhes serve de moldura,
esse espaço feito de bosques escuros em que a luz
dificilmente encontra o seu rumo.
Não fosse a minha impossibilidade
em escutar-te, distraído pelo fúnebre espectáculo
de uma esperança que acaba no preciso momento
em que o último dos homens desaparece no horizonte negro
das árvores altas, e talvez ousasse atribuir-te
esta opacidade que desemboca no medo e na suspeição recíproca,
talvez ousasse culpar-te de tudo isto que termina no desenlace
de uma imagem onde, por breves segundos,
a invisibilidade se estilhaçou, se liquefez
na humidade das árvores que lhe servem de moldura.
Dois príncipes, súbditos da clareira, e os exércitos,
formas vagas de corpos tensos,
submeter-se-iam à vontade do silêncio,
não tivessem entretanto abandonado a clareira,
receosos do que se seguiria.

Umbria, Guimarães, Pedra Formosa, 1999, pp. 29-30.

A criação do mundo

L1999
Quando o meu olhar se cruza
com o desta mulher
que vem ver quem passa,
o que me fere
não é a funda dor dos seus olhos,
a agonia do rosto que implode,
o corpo inchado,
por acção da senilidade bloqueado.

O que me fere
é a entropia dos objectos que a rodeiam:
as paredes amortalhadas
pela respiração de todos os dias,
o frigorífico com mais de trinta anos
coberto de uso, de ferrugem,
a jarra, o azul ardente das suas flores,

o cromático reverso, a criação do mundo.

Lamento, Lisboa, Cotovia, 1999, p. 30.

Azagaia, Árvore, Sombra

IM1995

Há objectos que perseguem a nossa infância,
depois, vida fora, esquecem-se os seus mágicos nomes,
a sonhada utilidade que os anima.

Poderíamos pressenti-los dentro de nós,
e isso sucede, por instantes, quando o fundo que os obscurece
se ilumina de repente

e os distinguimos a contra-luz.
Silhuetas animam-se na memória. Uma breve,
quase acessória, viagem no tempo começa.

Em África, na casa onde nasci, e depois de casa em casa
– eram frequentes as mudanças –
o meu pai pendurava uma azagaia na parede.

Sempre a mesma azagaia. Era um objecto nobre.
Marcava um hábito guerreiro: imaginar que a sustinha sobre a cabeça,
que a arremessava longe, trespassando a sombra

da árvore que se erguia no quintal.
Trespassava a sombra e não a árvore, repare-se.
E então a sombra, sob o sortilégio do imaginado arremesso,

começava a retrair-se e a afilar-se. Desaparecia.
Com o desaparecimento da sombra
ficava apenas a árvore e a longa azagaia presa ao solo.

A sombra de uma árvore visita-me agora.
Vem nos meus sonhos recentes dizer-me que há um livro
nos sonhos, e que esse livro se escreve

com a linguagem crepuscular da memória.
Sei que se trata de uma sombra orfã.
Que se soltou das contingências de lugar e luz

para viajar no eterno. Sei agora que a substância da árvore
se aliou à substância da azagaia. Que ambas vibraram,
continuam a vibrar, juntas.

A Imprecisa Melancolia, Barcelona, Lumen, p. 14.

Agudíssimo acento

Cf., Ler, Dezembro de 2013, p. 20.

Li a resposta oficial do crítico que não é bem um crítico. Não há crítica literária nos jornais portugueses. Trata-se, tão-só, de um aviso aos incautos, afinal todos nós, sobretudo aqueles que escrevem e que ainda se iludem com a nobre ideia de uma comunidade por vir.

Dir-se-ia que JMS andou a ler António Guerreiro com algum proveito, e descobriu que vivemos em tempos pós-literários em que os críticos são simulacros e se limitam a escrever «recensões, notas de leitura, chamadas de atenção». E não se «aspira» a mais do que isso! É uma constatação da derrota ou da impotência. Porque tudo neste mundo é «imposto» e devemos, ordeiramente, aceitar, com complacência e boa disposição, aquilo que nos impõem.

O chefe manda e eu, de tomates entalados na manjedoura, como diria um crítico que não se furtava à escatologia (Jorge de Sena), respeito!

Talvez fizesse sentido voltar a esclarecer que não se trata de estrelas, caro JMS, mas da forma como se faz, da forma como se cita, da inexistência de um argumento, de uma ideia que mobilize a discussão e a leitura.

Talvez fizesse sentido dizer simplesmente que não se retalha um livro em mil fragmentos (como se se tivesse usado um picador de gelo) e, com esses bocados, se compõe uma «recensão».

Talvez valesse a pena acrescentar que a suposta polémica que aconteceu no meu mural do Facebook foi pública, e que os comentários, também eles no Facebook, de JMS & outros se encontram blindados na privacidade que o sistema ainda admite.

Talvez valesse a pena acrescentar ainda que a «escatologia» mal grafada não deverá ficar impune. E que a minha muito menos! Afinal sou tão educado que, da primeira vez que quis escrever a palavra «cu», tropecei na ortografia e escrevi «cú». Em homenagem a um «crítico» farei questão de continuar no futuro (e não deixará de haver ocasiões para isso) a ofender a ortografia, e a assumir esse agudíssimo acento.

LQ

Chegámos depois do acontecido

Yves Marchand | Romain Meffre, The Ruins of Detroit
Yves Marchand | Romain Meffre, The Ruins of Detroit

Um mundo em escombros, onde a implicação alegórica se torna endémica, é também um mundo que responde quase visceralmente a tal implicação através de uma representação (aurática) de uma origem ou de um começo, através de um culto de ruínas, a parafrasear a expressão de Walter Benjamin (2004, p. 193). A sensibilidade moderna-cum-barroca é uma sensibilidade formada por um olhar diferido. Chegámos depois do acontecido – um mundo onde tudo é re-presentação – e contemplamos ruínas, contemplamos o resultado de forças irreversíveis que fazem da natureza um palco de combates impiedosos em nome de uma história secular. Uma natureza eviscerada, decomposta, híbrida, suja. Na transição do milénio e do século XX – o mais impiedoso dos séculos, como nos disse Camus – já não são as ruínas de civilizações mortas à la Piranesi ou as ruínas de igrejas à la Friedrich, mas as ruínas de instalações industriais abandonadas, as ruínas de usinas nucleares, as ruínas de silos militares, as ruínas de laboratórios, de hospitais, etc., que participam da retrofilia do presente (Endsor, 2005). Na sua ambiguidade constitutiva, as ruínas fazem apelo a um mundo que acabou e remetem-nos para um mundo que ainda não começou, que pode, aliás, não começar nunca. Ou seja, as ruínas prestam-se a um trabalho de luto – um jogo de luto – cuja eficácia depende da sua condição betwixt and between. Um mundo que pretende eliminar o informe mas que não reconhece ainda a forma que o deverá conduzir.

[Fragmento retirado de um ensaio longo «A explosão-catástrofe das imagens» – o meu ensaio em torno de Walter Benjamin – que será publicado proximamente num livro colectivo sobre o antigo Hospital-Colónia Rovisco Pais. O livro tem a chancela da Dafne, e darei notícia em breve do seu lançamento.]

Bibliografia

Benjamin, Walter (2004) Origem do drama trágico alemão, Lisboa, Assírio & Alvim.

Endsor, Tim  (2005) Industrial ruins: spaces, aesthetics and materiality, Oxford e Nova Iorque, Berg, 2005.

Só, na paisagem

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Plucking feathers from a swan song, canta Scott Walker. Quantas vezes fomos conduzidos até ao limite da música, até ao depois da música? Walker caminha só, na paisagem.

Vê se não bates com a cabeça dele

Enquanto se arrancam penas
de um canto de cisne,

a primavera poderá, com gentileza,
pressionar com os polegares
os teus olhos.

Enquanto se arrancam penas
de um canto de cisne,

uma teia de aranha derrete
dentro de um ventre.

Enquanto se arrancam penas
de um canto de cisne,

um incontinente
canta Scarpia.

Enquanto se arrancam penas
de um canto de cisne,

um exemplo mítico
de impulso erótico –

enquanto se arranca penas
de um canto de cisne,

– escorregar sob
um signo certeiro.

Enquanto se arrancam penas
de um canto de cisne,

rotíferos
juntam-se no
circuito das tripas.

Enquanto se arrancam penas
de um canto de cisne,

a merda poderá dar o nó
nos intestinos de Cristo.

Enquanto se arrancam penas
de um canto de cisne,

ser esmagado
de dentro para
fora.

Enquanto se arrancam penas
de um canto de cisne,

na neve
«Rummy» exibe
a sua baba
efeminada.

Enquanto se arrancam penas
de um canto de cisne.

uma minúscula risada
suja tudo aquilo
em que toca.

Enquanto se arrancam penas
de um canto de cisne,

a noite cessa de pingar
através das estrelas.

Enquanto se arrancam penas
de um canto de cisne,

quebrar o lençol
de jóias
de horizonte a horizonte.

Enquanto se arrancam penas
de um canto de cisne.