Etnografia na catedral de Turing: reflexões sobre o arquivo, hoje

9782070269990FSFalar de «arquivo» hoje reflecte, em grande medida, todo um conjunto de pressupostos em que se fez instalar o nosso entendimento do que é conhecer. Uma espécie de normatividade pós-moderna diz-nos, afinal, o seguinte: o «arquivo» é, de acordo com a sua explicitação foucauldiana, um complexo volume de loci discursivos que criam «coisas» e «eventos» e que definem o conhecimento válido de um dado período (Foucault, 2002 [1969], p. 145).

A pergunta será porventura esta: como é que os discursos criam os objectos dos quais falam? Toda a experiência é, afinal, discurso, e ela instala-se no arquivo, sendo o arquivo aquilo a que se poderá também chamar, seguindo a leitura que Ian Hacking nos dá de Michel Foucault em Historical ontology (2002), «depth knowledge» ou «savoir».

Esta é a acepção mais influente de arquivo que conheço, e talvez uma das mais produtivas pelas consequências que teve e tem no espaço das humanidades, e em particular da antropologia, hoje. De alguma forma, ela está presente, ou é transversal ao projecto de uma «viragem literária» na antropologia designada de pós-moderna ou pós-estruturalista.

A antropologia descobre o seu «arquivo», transformando de forma significativa o seu olhar sobre aquilo a que chamámos de «cultura». A cultura não será tanto um conjunto mais ou menos sistemático de representações outras que o antropólogo se propõe descrever ou interpretar, mas antes um espaço de interferências em que avultam as interacções e os dialogismos etnográficos. Neste espaço de interferências uma das modalidades mais destacadas do conhecimento antropológico (fundamentalmente etnográfico) prende-se com uma hipótese céptica ou suspeitosa em relação à possibilidade de representação desse outro. O que temos são, afinal, mais do que representações, projecções (ocidentais) que têm de ser des-construídas («destruídas em câmara lenta», como dirá Bruno Latour [1997 (1991)]). Assim, o observador é observado nesse espaço de interferências, sendo que a antropologia procura desvendar os seus sistemas de possibilidade.575414

Há aqui uma noção muito forte da representação como um artefacto ou dispositivo que se dispõe como uma matriz de mediação que separa o representável do irrepresentável. Dir-se-ia que o invisível (o irrepresentável), através do arquivo, se tornará uma paixão indeclinável das humanidades em geral, e da antropologia em particular.

Mas seja como for, não podemos deixar de referir aqui o trabalho de Jacques Derrida, o influente Mal d’ archive: une impression freudienne (1995), que, na sua versão americana intitulada Archive fever: a freudian impression (1996), publicada um ano depois da edição original francesa, se torna um bestseller dos estudos culturais, ou, a dar crédito à página da Amazon, «a must buy on postmodern studies».

O livro é particularmente decisivo, e penso que a elaboração cultural (também ela febril) em torno do arquivo no presente se prende também com a enorme influência que esse breve e denso texto teve no mundo académico nos últimos vinte anos.

Duas ou três noções sobre o que é o arquivo colhem aí especial atenção no nosso presente irremediavelmente arquivístico. Ater-me-ei, porém, a um aspecto de discussão de Derrida. Refiro-me à sua preocupação filológica, se me posso expressar assim. Como ele escreve:

… the term indeed refers … to the arkhe in the physical, historical, or ontological sense, which is to say to the originary, the first, the principal, the primitive, in short to the commencement. But even more, and even earlier, “archive” refers to the arkhe in the nomological sense, to the arkhe of the commandment. (p.2).

De algum modo, dir-se-ia que a dupla acepção de «arquivo» que aqui se desenha, vai ao encontro de qualquer coisa que é crítico ao nosso presente. Por um lado, o fascínio ou o encantamento pela origem – a verdade essencial que está numa experiência que é prévia à representação ou à articulação no arquivo –, e por outro a declinação (céptica, senão cínica) por uma noção institucional, e ultra-mediada que o arquivo, enquanto espaço de consignação política – lugar de memória, lugar de reiteração de uma certa forma de construir a pólis – faz supor. Ou seja, a nossa contemporaneidade, parece assim vacilar entre a crença na possibilidade da experiência em sentido forte e uma «razão cínica» que renuncia a toda a possibilidade de experiência não mediada, não esgotada por um tecido (equívoco) de representações. A usar esta expressão de «razão cínica» aqui, estou obviamente a apelar para Peter Sloterdijk (1987 [1983]) que a faz remontar a uma suspeita que se aloja no coração da modernidade pós-iluminista, e que nos arrasta para um mundo onde jamais poderemos fazer-nos valer de auto-representações seguras:

Enlightnement never has been concerned only with the unmasking of projections, logical leaps, errors in inference, fallacies, the elision of logical categories, false premises, and interpretations, etc., but above all, with the self-experience of the human being in the labor it costs to critically dissolve naive world- and self-images. (p. 35)

Entre as perigosas reivindicações da origem e o cinismo crítico de uma razão que dissolve a experiência, e que a torna uma modalidade do discurso, o arquivo parece assim ser a mais óbvia afirmação – talvez produtiva – das aporias do presente. De alguma forma, e como Derrida não deixa de chamar a atenção para, o arquivo é a instanciação da memória, que envolve uma imediatez profunda, e a história que solicita o distanciamento crítico. Entre duração e tempo, kairos e chronos assim se constrói a nossa paixão pelo arquivo (ver Derrida, 1996, pp. 42-3).

ArchiveFeverDir-se-ia que o arquivo epitomiza, hoje, uma possibilidade (talvez desesperada) de experiência, naquilo que esta tem de inaugural. Nesse sentido, poderemos talvez subscrever a tese de Derrida segundo a qual o arquivo reclama uma espécie de «promessa» ou «messianicidade espectral» (id., p. 36). Em Derrida, tal como em Benjamin (2004, p. 215), esta promessa poderá ser concebida como um «pulsão destrutiva». O «desejo» ou «mal de arquivo» é também um apelo às forças destrutivas, negras, inarticuladas do esquecimento. Comentando Freud, Derrida escreverá que o desejo de arquivo conflui com uma «finitude radical», isto é com «a possibilidade de um esquecimento que não se limita à repressão»:

 … there is no archive fever without the threat of this death drive, this aggression and destruction drive. The threat is in-finite, it sweeps away the logic of finitude and the simple factual limits, the transcendental aesthetics, one might say, the spatio-temporal conditions of conservation. Let us rather say it abuses them. (p. 19)

… enlisting the in-finite, archive fever verges on radical evil. (p. 20)

Mas há um outro dado que, de alguma forma, Jacques Derrida soube entrever na sua «impressão freudiana». A impossibilidade de pensarmos o arquivo, hoje, sem repensarmos radicalmente o que entendemos por cultura, num tempo em que a cultura é uma declarada função tecno-científica. Derrida fala-nos de uma «memória viva» constituída por «próteses» electrónicas, dispositivos técnicos de arquivação e reprodução, de «simulacros de coisas vivas» que estariam, já na década de noventa do século XX, a alterar significativamente a percepção do que se encontraria patente no arquivo.

Não é possível compreender o que é o arquivo – na sua aporia entre história e memória, construção e destruição/esquecimento sem que se tenha em conta o seguinte: desde a década de quarenta do século XX que a nossa percepção do que é a cultura se transformou radicalmente, quando um grupo de matemáticos e engenheiros realizou a primeira instanciação de uma máquina de Turing, isto é, desenhou, programou e construiu o primeiro computador digital. Foi, justamente, em 1945 junto do recém criado Instituto de Estudos Avançados de Princeton que John Von Neumann e um grupo restrito de cientistas haveria de transformar radicalmente o mundo através desta máquina de 5 kilobytes de memória. O nosso presente depende, assim, de uma consideração profunda do «universo digital», ou da imensa «catedral de Turing», para usar expressões do etnohistoriador George Dyson (2012).

Um aspecto importante deste exercício prende-se com o modo como a informação (digital) fez eliminar o contexto e as singularidades físicas e materiais que compõem qualquer problema na sua complexidade, adoptando uma concepção abstracta e desincorporada do mundo. A «informação» é, neste sentido, uma sequência abstracta de signos. Quando uma mensagem é introduzida num computador, é traduzida numa sequência de 0s e 1s. Uma corrente eléctrica passa através da máquina – e seguindo as instruções codificadas (001110000111) – abre e fecha diferente interruptores e transmissores. 0 abre, 1 fecha. Diferentes sequências de 0s e 1s são, afinal, o programa que gere diferentes operações. O poder desta ideia – a de «informação» – estaria no facto de tornar problemas muito complexos em problemas simples. Antes da informação, os engenheiros que trabalhavam no melhoramento da transmissão de sinais assumiam que as ondas de rádio, as imagens televisivas, etc., apresentavam problemas muito específicos de comunicação. A partir de Claude Shannon, o brilhante matemático considerado o «pai da teoria da informação» e um dos fundadores da inteligência artificial, todo o trabalho dos engenheiros se prende com a eficiência da transferência de informação. Já não importa considerar a diversidade de problemas que resultam da instanciação física dos diferentes media, TV, rádio, etc. A informação nada tem a ver com as entidades físicas e as suas especificidades. A informação é abstracta e é extraída do contexto. Esta estratégia de abstracção teve um impacto tremendo na emergência da ciência cognitiva, na engenharia de computadores, na robótica, na arte, na museologia, etc.

Dir-se-ia que a cultura em sentido amplo se encontra em processo de digitalização acelerada e é provável que tal processo seja imparável. O que temos aqui é, tão-só, uma forma de desincorporação radical que é, segundo Katherine Hayles, um dos aspectos decisivos da nossa «condição pós-humana». Como escreve Hayles, «uma característica definidora do momento cultural presente é a crença de que a informação pode circular não transformada entre diferentes substractos materiais» (1999, p. 1). Estaremos assim porventura num tempo de eleição e de realização de todos os nossos sonhos gnósticos, e as culturas do presente serão afinal formas de «gnosticismo tecnológico», tal como nos diz o filósofo de ciência Hermínio Martins (2011, p.).

Claude Elwood Shannon

Um tempo em que, num flirt com a imortalidade, as nossas memórias, desejos e intenções poderão ser perenes. Em que aquilo que eu sou – um gigantesco algoritmo – poderá eventualmente ser downloaded num computador de extraordinária capacidade. Uma cultura sem «ruído», sem o ruído do corpo, o ruído da matéria, o ruído da morte. Uma cultura ideal e idealista, limpa, sem entropia.

A virtualização da memória (e do corpo) corresponde à virtualização do arquivo. O meu arquivo – o arquivo do antropólogo – é hoje a Web. E de um modo só entrevisto por Derrida, esse arquivo apela à aporia que vai da história hiper-representada à possibilidade da sua anulação. Construir e destruir. Irei aqui pelo lado da destruição, para referir aquilo que se está a popularizar sob a designação de «digital dark age». Se quisermos, o dramático regresso da entropia. A absolescência da tecnologia nos últimas décadas é um dado. Não há desenvolvimento tecnológico acelerado sem obsolescência acelerada. Como nos diz Jerome McDonough, um investigador da Universidade do Illinois:

Even over the course of 10 years, you can have a rapid enough evolution in the ways people store digital information and the programs they use to access it that file formats can fall out of date

Recordaria, por exemplo, que, em meados de 1970, apenas duas máquinas podiam ler os dados dos Censos dos EUA de 1960: uma estava no Japão, outra na Smithsonian. Recordo ainda que dados coligidos pela NASA das suas missões Viking a Marte são hoje ilegíveis ou estão totalmente perdidos. E estes são apenas dois exemplos sobejamente conhecidos. A construção implicará porventura a destruição, e nunca foram tão prescientes as observações de Walter Benjamin em torno do «carácter destrutivo» (2004, pp. 215-7), essa declinação alegre pelo apagamento em nome de uma proliferação de caminhos que a tradição tendeu a bloquear.

Seja como for, esta liberdade destrutiva não se faz sem regras, as regras que o arquivo – ou uma modalidade recentíssima dele – reproduz.

O meu, o nosso, arquivo.
O meu, o nosso, arquivo.

A virtualização do arquivo exige uma apreciação do que poderá ser esse conhecimento em profundidade no interior da catedral de Turing. Quando pensamos que o sistema Web 2.0 é uma plataforma informática regida por princípios que a maior parte dos mortais desconhece, e que coage o modo de pensar e fazer, dir-se-á que a noção de «arquivo» ou «savoir» de Michel Foucault em 1969 ganha uma conotação insuspeita e actualíssima. A Web – esse gigantesco arquivo em permanente mutação (como se se tratasse de um organismo vivo; e, para alguns assim é) – é regida por razões que a razão humana pode já desconhecer: propriedades de organização (e de auto-organização e auto-replicação) da informação, de modelagem dos possíveis, que nós, cada um de nós, se limita a reproduzir.

Bibliografia

Benjamin, Walter (2004), «O carácter destrutivo», Imagens de pensamento, Lisboa, Assírio & Alvim.
Derrida, Jacques (1995), Archive fever: a freudian impression, Chicago e Londres, The University of Chicago Press.
Dyson, George (2012), Turing’s cathedral: the origins of the digital universe, Londres, Allen Lane.
Foucault, Michel (2002 [1969]), The archeology of knowledge, Londres, Routledge.
Hacking, Ian (2002), Historical ontology, Cambridge, Massachusetts, Londres, Harvard University Press.
Hayles, Katherine (1999), How we became posthuman: virtual bodies in cibernetics, literature, and informatics, Chicago e Londres, The University of Chicago Press.
Martins, Hermínio (2012), Experimentum humanum: civilização tecnológica e condição humana, Lisboa, Relógio d’ Água.
Latour, Bruno (1997 [1991]),  Nous n’avons jamis été modernes: essai d’ anthropologie symétrique, Paris, La Découverte.
Sloterdijk, Peter (1987 [1983]), Critique of cynical reason, Minneapolis e Londres, University of Minnesota Press.

[Lido rem voz alta a 19 de Fevereiro de 2014 no Centro de Estudos Sociais (CES), Universidade de Coimbra, Coimbra.]

Gerald Edelman entre as máquinas (mentes e máquinas #8)

Para o neurobiólogo Gerald Edelman, o cérebro, à semelhança do sistema imuntário, opera selectivamente ao longo do tempo de vida do indivíduo. Neste contexto, o desenvolvimento de circuitos neuronais no cérebro leva a uma extrema variação anatómica no plano microscópico que é consequência de um processo de selecção contínua, sendo que um dos elementos mais salientes a conduzir este processo de selecção é o facto dos neurónios que disparam conjuntamente se ligarem conjuntamente («neurons that fire together, wire together» (2006, p. 28) mesmo na fase de desenvolvimento fetal. O que é importante salientar é o modo como estamos perante uma estrutura cujas estabilidade e coordenação dependem da plasticidade e da complexidade. E que a plasticidade e a complexidade fazem supor também uma abertura à experiência e à enculturação. Edelman recusa assim as ideias de computação e de informação que se associam imediatamente ao empreendimento cognitivo, presumindo sempre que a computação é after de fact, isto é, que uma máquina corre porque foi programada para correr. Mas imagine-se que o programa é uma resposta selectiva (que programa seria este e a que corresponderia?) ao problema da vida e da cognição? Talvez possamos então dizer que a natureza está do lado das máquinas. Ler Edelman a par de George Dyson (2012), poderá ser essa a oposta.

Bibliografia

Dyson, George (2012 [1997]) Darwin among the machines, Londres, Penguin.

Edelman, Gerald (2006) Second nature: brain science and human knowledge, Yale, Yale University Press.

Eu sou um gigantesco algoritmo (mentes e máquinas #4)

Claude Shannon
Claude Shannon

Tenho vindo a desenvolver um conjunto de trabalhos sobre a relação entre arte e ciência. Neste sentido, tenho interrogado o modo como o paradigma informacional se impôs na cultura do pós-guerra, e como transformou profundamente a nossa percepção do mundo, vindo a reformular e reequacionar o que consideramos ser a «vida». O «bios» do presente depende assim de uma consideração profunda do «universo digital», a usar uma expressão do etno-historiador George Dyson, e das implicações que esse universo digital teve na arte e na ciência do pós-guerra.

Um aspecto disto prende-se com o modo como a informação (digital) fez eliminar o contexto e as singularidades físicas e materiais que compõem qualquer problema na sua complexidade, adoptando uma concepção abstracta e desincorporada do mundo. A «informação» é, neste sentido, uma sequência abstracta de signos. Quando uma mensagem é introduzida num computador, é traduzida numa sequência de 0s e 1s. Uma corrente eléctrica passa através da máquina – e seguindo as instruções codificadas (001110000111) – abre e fecha diferente interruptores e transmissores. 0 abre, 1 fecha. Diferentes sequências de 0s e 1s são, afinal, o programa que gere diferentes operações. O poder desta ideia – a de informação – estaria no facto de tornar problemas muito complexos em problemas simples.

Antes da informação, os engenheiros que trabalhavam no melhoramento da transmissão de sinais assumiam que as ondas de rádio, as imagens televisivas, etc., apresentavam problemas muito específicos de comunicação. A partir de Claude Shannon, o brilhante matemático considerado o «pai da teoria da informação» e um dos fundadores da inteligência artificial, todo o trabalho dos engenheiros se prende com a eficiência da transferência de informação.

Já não importa considerar a diversidade de problemas que resultam da instanciação física dos diferentes media, TV, rádio, etc. A informação nada tem a ver com as entidades físicas e as suas especificidades. A informação é abstracta e é extraída do contexto. Esta estratégia de abstracção teve um impacto tremendo na emergência da ciência cognitiva, na engenharia de computadores, na robótica, na arte, na museologia, etc.

Dir-se-ia que as culturas em sentido amplo se encontram em processo de digitalização acelerada e é provável que tal processo seja imparável. O que temos aqui é, tão, só um processo de desincorporação radical que constitui, segundo, por exemplo, Katherine Hayles (1999), um dos aspectos decisivos da nossa «condição pós-humana». Como escreve Hayles, «uma característica definidora do momento cultural presente é a crença de que a informação pode circular não transformada entre diferentes substractos materiais» (1999, p. 1). Estaremos assim num tempo de eleição e de realização de todos os nossos sonhos gnósticos, e as culturas do presente serão afinal formas de «gnosticismo tecnológico», tal como nos diz o filósofo de ciência Hermínio Martins (2011):

«Versões correntes de tecnofanias ligadas ao discurso sobre as tecnologias da informação, nas quais a “informação” se torna o conceito dominante do quadro categorial, sugerem que a conversão total do não-informacional em informação é o momento da consumação do progresso tecnológico. Uma vez que informação e luz estão estreitamente relacionadas – a informação na tecnologia electrónica é transmitida à velocidade da luz – algo parecido com a metafísica da luz neo-platónica, na qual a perfeição ontológica é equacionada ou simbolizada pela luz, tem sido formulado por vários profetas das tecnologias da informação.» (2011, p. 24).

Um tempo que, num flirt com a imortalidade, as nossas memórias, desejos e intenções poderão ser perenes. Em que aquilo que eu sou – um gigantesco algoritmo – poderá ser downloaded num computador de extraordinária capacidade. Uma cultura sem «ruído», sem o ruído do corpo, o ruído da matéria, o ruído da morte. Uma cultura ideal e idealista, limpa, sem entropia, pois.

Fala-se, porém, da «digital dark age». Se quisermos, do dramático regresso da entropia.

A absolescência da tecnologia nos últimas décadas é um dado. Não há desenvolvimento tecnológico acelerado sem obsolescência acelerada. Como nos diz Jerome McDonough, um investigador da Universidade do Illinois: «Ao contrário da crença popular, os dados electrónicos são mais efémeros que os livros, os jornais ou peças de arte plástica. Afinal, quando foi a última vez que você abriu um ficheiro em WordPerfect ou tentou ler uma floppy disk de 8 polegadas? Mesmo dentro de dez anos, poder-se-á assistir a uma evolução tão rápida no modo como armazenamos a informação digital e nos programas que usamos para lhe aceder que os formatos de ficheiros podem ficar fora de prazo.»

Recordo, por exemplo, que em meados de 1970, apenas duas máquinas podiam ler os dados dos Censos dos EUA de 1960: uma estava no Japão, outra na Smithsonian. Recordo ainda que dados coligidos pela NASA das suas missões Viking a Marte são hoje ilegíveis ou estão totalmente perdidos. E estes são apenas dois exemplos sobejamente conhecidos.

A construção implicará porventura destruição. À destruição imparável do presente devemos opor uma tarefa de «desconstrução», talvez, isto é, de «destruição em câmara lenta», com nos diz Bruno Latour (1999, p. 8). Uma forma de iconoclastia (de meta-destruição crítica) que é um exercício de reposição do corpo no presente e que nos vem revelar a importância das humanidades num contexto onde corremos riscos tremendos, um dos quais é o de perdermos uma parte considerável daquilo que mais prezamos e que constitui a nossa memória cultural do mundo.

Esta iconoclastia é essencial, em meu entender. Trata-se da afirmação de uma mão crítica, de uma mão destrutiva, como nos diz Latour em Iconoclash (2002, p. 16), que nos poderá mostrar que muitas das nossas evidências merecem ser desmontadas, criticamente avaliadas, sob pena de nos encaminharmos para um mundo que nos reserva insofimáveis perigos, perigos esses que o tecno-encantamento do presente esconde.

Bibliografia

Dyson, George (2012) Turing’s cathedral: the origins of the digital universe, Nova Iorque, Pantheon Books.

Hayles, Katherine (1999) How we become posthuman: virtual bodies in cybernetics, literature, and informatics, Chicago e Londres: The University of Chicago Press.

Latour, Bruno (1999) Pandora’s hope: essays on the reality of science studies, Cambridge, Mass., Harvard University Press.

Latour, Bruno (2002) «What is iconoclash? Or is there a world beyond the image wars?», in Bruno Latour e Peter Weibel (ed.), Iconoclash: beyond the image wars in science, religion, and art, Cambridge, Massachusetts e Londres, The MIT Press.

Martins, Hermínio (2011) Experimentum humanum: civilização tecnológica e condição humana, Lisboa, Relógio d’ Água.