David Bowie, in memoriam

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És agora uma estrela negra,
Uma esfinge no firmamento iluminado,
Negativo do céu.

Hoje sentei-me à tua mesa.
Hélas, les amis de la vieillesse.
Cantaste o indecifrável chamamento.

Era essa a tua única vocação, uma estilização enfática
Do que só poderá ser derrota, perjúrio, mentira.
Disseste-me que não podias abrir mão

De todos os segredos, e que tudo era interpelação
A um amigo desconhecido.
Eu disse-te que a arte é o anzol que fere a morte,

Que luta com ela, deixa vestígio,
Um silabário por reconstruir.
Assim é a minha tarefa, reunir todos os fantasmas,

Civilizá-los por medidas e caprichos,
E denunciar a beleza
Para escândalo daqueles que acreditam na beleza.

Alan Shorter

Front
Paras o carro na estrada
de L.A., o brilho
do fliscorne

no banco traseiro
ameaça-te,
desdiz

compromisso,
passado,
socialidade.

Nem sequer o futuro
está preparado
para a tua música:

uma folha de papel
destruída pelo uso,
um som de metal

que vem da noite
e que não pode
ser dito.

Só as estrelas te não serão
indiferentes.

Só, na paisagem

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Plucking feathers from a swan song, canta Scott Walker. Quantas vezes fomos conduzidos até ao limite da música, até ao depois da música? Walker caminha só, na paisagem.

Vê se não bates com a cabeça dele

Enquanto se arrancam penas
de um canto de cisne,

a primavera poderá, com gentileza,
pressionar com os polegares
os teus olhos.

Enquanto se arrancam penas
de um canto de cisne,

uma teia de aranha derrete
dentro de um ventre.

Enquanto se arrancam penas
de um canto de cisne,

um incontinente
canta Scarpia.

Enquanto se arrancam penas
de um canto de cisne,

um exemplo mítico
de impulso erótico –

enquanto se arranca penas
de um canto de cisne,

– escorregar sob
um signo certeiro.

Enquanto se arrancam penas
de um canto de cisne,

rotíferos
juntam-se no
circuito das tripas.

Enquanto se arrancam penas
de um canto de cisne,

a merda poderá dar o nó
nos intestinos de Cristo.

Enquanto se arrancam penas
de um canto de cisne,

ser esmagado
de dentro para
fora.

Enquanto se arrancam penas
de um canto de cisne,

na neve
«Rummy» exibe
a sua baba
efeminada.

Enquanto se arrancam penas
de um canto de cisne.

uma minúscula risada
suja tudo aquilo
em que toca.

Enquanto se arrancam penas
de um canto de cisne,

a noite cessa de pingar
através das estrelas.

Enquanto se arrancam penas
de um canto de cisne,

quebrar o lençol
de jóias
de horizonte a horizonte.

Enquanto se arrancam penas
de um canto de cisne.

Here is a strange and bitter crop

Billie Holiday
Billie Holiday

É uma canção sobre a barbárie, mas é sobretudo uma canção de luto pelo humano. Esse luto está na voz de Billie Holiday, como nunca esteve na voz de ninguém, nem sequer  na voz de Robert Wyatt, que assina uma das mais belas versões. O poema da canção não é sequer exemplar. Algumas das imagens parecem-me mesmo óbvias, demasiado óbvias (senão mesmo forçadas ou artificiosas) para dizer o que a voz de Billie Holiday diz, como nenhuma voz antes, como nenhuma voz depois. Tentei uma tradução. Desisti. Escrevi depois um poema, como resposta. Há sempre um poema que responde. Tem de haver. Aí fica:

Estranho fruto é a morte
suportando-se, frágil,

por linha vegetal imperfeita,
na pesada árvore

que não vemos,
que não veremos,

que não queremos ver,
nunca, nunca.

Bob Dylan dirige-se aos seus contemporâneos

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Uma imagem perseguia-me em tempos já remotos. Se me perguntassem o que fazia, onde estava, o que pretendia, dizia sempre, não estarei lá, aí, nesse lugar onde me querem abandonar, como se abandona um cão velho numa estrada perdida. Ou então dizia, não, não me chamem poeta, não é uma atribuição que me pertença, nunca poderia sê-lo. Agora que já passou muito tempo desde a minha última fuga de Hibbing, prefiro que me recordem como o expedicionário musical que sempre fui. Ou tão-só como o rapaz do trapézio, o que é sempre bonito, quando penso que sou hoje um septuagenário que sorri à morte. Como sempre, tenho a dizer-vos que a face do perpetrador se anuncia a cada passo e que se esconde habilmente. Para onde quer que nos viremos, ela surge-nos, espreita-nos, como um abismo que nos espreita. O que vai acontecer?, perguntar-me-ão. Terá de haver uma explosão de algum tipo. A densa chuva irá cair, inevitavelmente. Recordem-se do último verso dessa canção, quando digo: «projectéis de veneno invadem as águas». O que queria eu dizer?  Apenas isto: que somos tomados de assalto por mentiras, continuamente. Cercados por mentiras proferidas pelas inúmeras cabeças falantes que estão em todo o lado. Abram os jornais, liguem a televisão, circulem pela web. Olhem para essa gente que nos invade o tempo e o espaço. Vejam como nos roubam, como nos esvaziam o crânio, nos roubam a alma, esses filhos da puta sem remissão! Não sei o que pensam os mais novos de tudo isso, mas seria bom que parassem um minuto, que se permitissem a si mesmos um minuto. Hoje, nem de Hibbing poderia fugir, nem sequer faria sentido. Para onde quer que se vá, a merda é sempre a mesma. Para que servem então as canções, as minhas, as dos outros, os inúmeros poemas escritos, ditos, reditos? Para que se permitam um minuto, o vosso minuto. Nenhum de nós tem já morada ou origem. A minha vida continua a ser a rua que eu piso, e a música, e a velha guitarra aqui a meu lado enquanto escrevo este texto, são meros utensílios de uma procura, de um impulso que me foi fiel e ao qual fui fiel. Recebi condecorações por isso. A última das quais, das mãos do Presidente Obama. Mas não lhes atribuo grande importância. Parece-me uma trivialização do que disse, escrevi, cantei. No seu pior, todas as condecorações são armadilhas. Caí em algumas. Lamento-o. De resto, o mundo é irreformável. Como mudar o mundo se todos se afadigam na defesa dos seus interesses? Como? O que me foi e é caro na ideia de revolução prende-se com uma hipótese de fuga num mundo irrespirável e talvez inapelável e sem fuga. Mudar a vida, diria o Rimbaud da minha juventude nova-iorquina. A poesia? Nunca ninguém a leu. Não é de agora. Foi sempre assim. A poesia ofende e ninguém gosta de ser ofendido. Ofender é também inspirar, mas quem é que quer inspirar ou ser inspirado? É um perigo. Um perigo para todos e para cada um. Quem se faz inspirado passará a habitar os seus próprios sonhos. E quem quer isso? Pior coisa só mesmo viver na rua. Tudo começa no sonho e na rua, mas paga-se caro. Muito caro. Não há dinheiro que pague tal dívida. Afinal, serei apenas, quem sabe, um cão velho que por aqui anda há muito, mas que espera pelo novo ainda, e ele não chega, em nenhuma manhã chegará certamente. Em verdade vos digo que não me sinto velho, não, mas continuo a ouvir os mesmos discos que ouvia no início, os blues do Delta: Son House, Robert Johnson, Skip James. Ah, e por vezes, regresso ainda a Woody Guthrie.bob_dylan1

[Originalmente publicado em Relâmpago, 29-30, «Poesia e revolução», pp. 127-8. Aqui e ali, o texto é tributário do magnífico livro Bob Dylan: the Essential Interviews, editado por Jonathan Cott e publicado pela Wenner Books de Nova Iorque no ano de 2006]

Uma luz brincando (Tomás)

Fotografia de Gabriela Xavier Quintais, 2009

I

Ouvi o meu pai dizer que Bach
era Deus. Lembro-me da pergunta,
quem é Deus, e ele disse, Bach.

Descubro que a observação do meu pai
é muito comum entre aqueles que amam
esse país sem gravidade que se chama música.

II

Quando na biblioteca do Conservatório
o meu filho me perguntou
acerca de um enorme retrato de Bach

sobre uma estante carregada
de partituras,
disse, aquele é Deus.

Na repetição
há porém uma diferença,
uma luz que não sai do seu lugar

mas que se não deixa aprisionar,
como se andasse de um lado para outro nesse país
que é uma flor lembrada

e lembrada
e lembrada ainda.

III

Alguém canta
em falésias
que estão entre mim e o meu filho:

uma luz brincando.

[10 de Março de 2013]

Flirting with this disaster

Chet was a wreck. Agora,
quando o escuto, algo se move,
a terra move-se, a sombra
que o meu rosto
denuncia
e que é a sombra dele,
move-se.

O que dizer de alguém
morto, antes da música
já morto, morto para a vida
quando agarrava
a crisálida metálica
e invertia o curso da dor?

Não haverá epitáfios
para quem se reúne
sob este parasol de tantas noites.

Biografia e pretérito, desastre e roubo.