Antropologia da biomedicina e das biotecnologias

[Mestrado em Antropologia Médica e Saúde Global, DCV-UC; 1.º ano, 1.º semestre]

Programa

A cadeira de antropologia da biomedicina e das biotecnologias pretende explorar com os alunos um conjunto de tópicos que se prendem com uma das áreas de vanguarda do conhecimento antropológico. Fundamentalmente, trata-se de uma área de investigação que elege como espaço de interrogação a medicina “ocidental” – a biomedicina, justamente -, ou seja, a teoria e a prática médicas das sociedades euro-americanas, teoria e prática que se encontram largamente disseminadas pelo mundo.

Um dos traços da biomedicina é a sua pretensão à sistematicidade. Os seus praticantes acreditam que o seu campo de acção detém uma autonomia. Por outras palavras, o seu exercício funda-se na ideia de que se trata de um campo de acção discreto, sem valências socio-culturais apreciáveis. Esta pretensão à sistematicidade e à neutralidade merece correcção. Ao assumirmos a relevância que os aspectos socio-culturais têm na teoria e prática biomédicas, estamos a assumir implícita e explicitamente que a biomedicina é um artefacto. O seu carácter artefactual faz supor que a biomedicina se funda numa matriz moral, simbólica, e social que importa deslindar. A biomedicina é, neste sentido, uma etnomedicina  ou, de outro modo, um estilo de pensamento e acção socio-culturalmente moldado. É importante ainda, e neste sentido, tomar em linha de conta as extensões e recursividades que esta dimensão artefactual sugere.

A natureza artefactual da biomedicina torna-se hoje particularmente acutilante quando pensamos no lugar que aí auferem as biotecnologias. Esta reformulação tem vindo a ganhar uma qualidade dramática, projectiva, utópica, e distópica. A presente cadeira pretende equacionar o lugar que as biotecnologias têm na reconceptualização dos nossos sistemas de atribuição de valor, acção, e responsabilidade. De outro modo, as biotecnologias – dos alimentos geneticamente modificados à clonagem, passando pelo mapeamento do genoma – colocam problemas de vastíssimo alcance sociológico e antropológico que exigem identificação e aturada reflexão. Dir-se-ia que muitos dos desenvolvimentos biotecnológicos tornam mais evidente (ainda que o estatuto desta evidência mereça ser largamente interrogado) a hipótese de que a ciência e a tecnologia são oficinas do humano e do inumano, e que esta hipótese, na sua dupla face utópica-distópica, não poderá ser negligenciada pelas ciências sociais, e, mais especificamente, pela antropologia que pretendeu afirmar-se historicamente como um meta-saber acerca da “natureza humana”. Qual o lugar do conhecimento antropológico na condição pós-humana que, talvez, se avizinhe? Esta será a grande interrogação a destacar ao longo do nosso percurso.

Bibliografia

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